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Lula nunca tentou acolher eleitores que não votaram nele em 2022

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Lula venceu a eleição de 2022, mas preferiu conservar o inimigo a incorporar o eleitor de Bolsonaro e as consequências disso começam a aparecer. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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O resultado do primeiro turno de 2026 começou a ser construído em 2018. Olavo de Carvalho advertia a direita de que não bastava ter um presidente da República. Era necessário ocupar espaços institucionais, a sociedade civil, as praças públicas e, sobretudo, as redes sociais. Bolsonaro, com todas as suas imperfeições, compreendeu essa lógica e colocou em posições estratégicas pessoas nas quais confiava.

É verdade que muitas delas o decepcionaram. Mas o fenômeno que leva seu nome mostrou, com o tempo, que não dependia exclusivamente de Jair Bolsonaro. Havia ali algo maior: um movimento político capaz de transcender o próprio líder. Em 2022, embora Bolsonaro tenha perdido a reeleição por 2.139.645 votos, saiu das urnas com uma expressiva votação e com uma direita fortalecida no Congresso e nos governos estaduais. Em 2024, as eleições municipais aprofundaram essa capilarização. A direita havia perdido a Presidência, mas não havia desaparecido.

Talvez tenha sido justamente aí que a esquerda tenha cometido seu primeiro grande erro: confundir a derrota de Bolsonaro com a derrota do bolsonarismo. O segundo foi particularmente cometido por Lula: transformar o adversário derrotado em um inimigo permanente.

Em 2022, Lula conseguiu reunir em torno de sua candidatura setores que teoricamente não eram petistas e que tinham razões próprias para rejeitar Bolsonaro. Alckmin tornou-se seu vice. Tebet, que havia disputado a Presidência contra Lula, terminou apoiando sua candidatura. Marina Silva aproximou-se novamente do petismo. Até entre eleitores de Ciro Gomes houve migração para Lula no segundo turno.

Não era exatamente uma demonstração de amor ao PT. Era, em boa medida, uma coalizão eleitoral construída pela rejeição a Bolsonaro. Lula venceu. E talvez tenha cometido o erro de acreditar que havia vencido algo maior do que uma eleição.

Ao invés de compreender que milhões de brasileiros haviam votado contra Bolsonaro sem, por isso, terem se tornado lulistas, Lula voltou a organizar sua narrativa política em torno do antagonismo. Bolsonaro continuou sendo personagem recorrente de seus discursos. O bolsonarismo passou a ser tratado não apenas como uma corrente política adversária, mas, com frequência, como sinônimo de golpismo, extremismo e ameaça à democracia.

Ao invés de compreender que milhões de brasileiros haviam votado contra Bolsonaro sem, por isso, terem se tornado lulistas, Lula voltou a organizar sua narrativa política em torno do antagonismo

Há uma diferença enorme entre derrotar politicamente um adversário e deslegitimar os cidadãos que votaram nele. Entre combater uma candidatura e tratar uma parcela inteira da sociedade como suspeita. Entre vencer uma eleição e continuar governando como se a guerra eleitoral ainda estivesse em curso.

Lula derrotou Bolsonaro, mas não soube o que fazer com os milhões de brasileiros que haviam votado nele. Henry Kissinger, ao analisar os erros cometidos pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial, chamou atenção para uma distinção que parece esquecida na política: a lógica necessária para vencer não é necessariamente a mesma necessária para preservar a paz.

Segundo Kissinger, os vencedores precisavam saber transitar da intransigência indispensável à vitória para a conciliação necessária à paz duradoura. O Tratado de Versalhes tornou-se, em sua leitura, o exemplo de uma vitória que não soube construir adequadamente a ordem que deveria sucedê-la.

A analogia, evidentemente, não é histórica. É política. A lição é simples: derrotar alguém não significa saber governar depois da derrota. Lula venceu a eleição de 2022, mas parece ter preferido conservar o inimigo a incorporar o eleitor. E há uma ironia ainda maior nisso tudo.

Bolsonaro talvez tenha subestimado, em 2022, a capacidade de Lula de reunir contra ele uma coalizão suficientemente ampla. Mas Lula pode ter cometido um erro ainda mais grave: depois de receber essa coalizão pronta, não conseguiu ampliá-la. Em vez disso, governou para uma parcela do eleitorado e continuou falando com a outra como se ela precisasse ser permanentemente derrotada.

Agora, quatro anos depois, o resultado está diante de seus olhos. Flávio Bolsonaro não apenas chegou ao segundo turno. Terminou a primeira etapa da eleição à frente de Lula. E o mais importante talvez não seja sequer a diferença de votos. É a possibilidade de que Flávio consiga fazer aquilo que Bolsonaro não conseguiu fazer em 2022: transformar a rejeição ao adversário em uma coalizão eleitoral mais ampla do que seu próprio núcleo político.

Temer, Caiado e Zema já declararam apoio. Outros setores começam a se aproximar. O voto útil, que já havia aparecido na reta final do primeiro turno, agora pode ganhar outra dimensão. Flávio, por sua vez, não precisa necessariamente convencer o eleitor brasileiro a se tornar bolsonarista. Seu desafio é outro: convencer quem não é bolsonarista de que é possível votar nele. Essa é uma diferença decisiva. Porque o segundo turno não começa do zero.

Flávio começa na frente. Tem o apoio de uma estrutura política que se expandiu nas eleições de 2026. Lula, por outro lado, precisa defender quatro anos de mandato, responder à insatisfação acumulada e, sobretudo, reconquistar eleitores que já lhe deram uma oportunidade em 2022.

E há uma ironia adicional: Lula dispõe da máquina pública, da Presidência da República e de uma estrutura política construída ao longo de décadas. Seu governo mobilizou centenas de bilhões de reais em medidas de crédito, subsídios e estímulos em pleno ano eleitoral. Ainda assim, terminou o primeiro turno atrás.

Isso não significa que a eleição esteja decidida. Mas significa que Lula pode estar diante de uma situação histórica desconfortável: pode tornar-se o segundo presidente da República a perder uma tentativa de reeleição. O primeiro foi Jair Bolsonaro. E talvez seja justamente aí que a história faça sua maior provocação.

Bolsonaro perdeu a reeleição, mas seu movimento não morreu com ele. Lula venceu Bolsonaro, mas não conseguiu absorver politicamente os milhões de brasileiros que haviam votado no adversário. Agora, o filho de Bolsonaro chega ao segundo turno prometendo governar para todos, sem revanchismo, enquanto recebe o apoio de antigos adversários do próprio campo político.

Talvez Lula tenha cometido o erro de acreditar que precisava continuar vencendo Bolsonaro. Mas Bolsonaro já estava fora do pleito. Quem permaneceu foram os seus eleitores. E, quatro anos depois, eles encontraram outro candidato.

Hudson Alves da Silva Lima, advogado, é pós-graduado em Processo Civil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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