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Magistério: que carreira é essa?

Entre 2015 e 2021, Brasil gastou menos com educação que a média de países da OCDE, diz relatório
Como um dos mais importantes pilares da sociedade, a educação, por meio dos professores, tem o dever de formar cidadãos aptos a atuar em comunidade, munidos não só de conhecimento, mas de habilidades comportamentais e emocionais. (Foto: Albari Rosa / Arquivo Gazeta do Povo)

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De todas as profissões que exigem curso superior, esta é a que começa com um salário mais baixo. As pessoas formadas nesta área ganham cerca de 14% menos que a média das demais carreiras com graduação. Isso significa que elas recebem entre 60% e 80% do salário de outros profissionais formados.

Coincidência fatal: esta é a profissão que tem o impacto mais direto nas habilidades desenvolvidas pela população brasileira como um todo. Habilidades não apenas de aprender os conteúdos, mas também a capacidade de pensar com autonomia, resolver problemas, trabalhar em equipe e colaborar com a comunidade. Sim, estou falando de professoras e professores da educação básica, aquela que vai da creche até o ensino médio.

O compromisso de mudar o cenário precisa ser de todos. Não tenho dúvida de que o retorno à valorização dos professores deve gerar um ciclo virtuoso de aprendizagem que envolverá não só os estudantes, mas toda a sociedade

Piorando o quadro, esta é a profissão que tem o pior plano de carreira. Segundo dados do IBGE, a evolução do salário dos professores ao longo da carreira é de 1,3% a 1,5%. Isso significa que o salário nem chega a dobrar do início até o final da carreira. Outras profissões, além de um piso inicial mais alto, ainda têm uma evolução que pode triplicar ou quadruplicar o salário até a aposentadoria. Curiosamente, a rede privada não é muito diferente; em média, é até pior no Brasil, o que contradiz a percepção comum de que a escola particular paga melhor.

Quem, em sã consciência, escolheria para si tal destino? Atualmente, 2,4 milhões de pessoas são professores atuantes nas escolas do Brasil. Somando professores ativos, aposentados e estudantes de licenciatura, são 5 milhões de pessoas envolvidas com o ensino de crianças e adolescentes. Os motivos mais citados para escolher a profissão são: contribuir para melhorar a sociedade e ajudar os menos favorecidos.

O auge da valorização salarial dos professores ocorreu entre 1960 e 1970. Depois de 50 anos em queda, estamos correndo o grave risco de um “apagão docente”. Projeções indicam um déficit de 235 mil professores em 2040. As pessoas que escolheram a carreira estão adoecendo, e cada vez menos gente quer entrar nessa missão tão fascinante social e intelectualmente quanto desanimadora financeiramente.

Este não pode mais ser um assunto de política setorial, nem de especialistas. Deve ser um assunto de toda a sociedade, pois afeta a todos direta ou indiretamente. Deve ser o projeto que embasa todos os planos de qualquer governo. Precisamos enfrentar, com os olhos e o coração abertos, essa situação absurda que gera efeitos catastróficos para todo o conjunto da sociedade.

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Temos que entender a educação básica como o fundamento para a criação de uma sociedade equânime, capaz e colaborativa, em que a cooperação seja mais forte do que a competição e onde a empatia seja tão desenvolvida quanto as habilidades técnicas e a capacidade de inovação de seus participantes. E não basta concordar com isso.

Precisamos discutir o assunto buscando soluções e fazer o que estiver ao nosso alcance para reverter essa falha histórica que vem se aprofundando cada vez mais. O compromisso de mudar o cenário precisa ser de todos. Não tenho dúvida de que o retorno à valorização dos professores deve gerar um ciclo virtuoso de aprendizagem que envolverá não só os estudantes, mas toda a sociedade.

Lara Pozzobon da Costa é doutora em Literatura e pesquisadora-bolsista da FAPERGS.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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