Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
opinião do dia 1

Mentiras, mentiras cabeludas e estatísticas

As consequências econômicas e sociais neste nosso mundo de comunicação instantânea e globalizada podem ser enormes

Benjamin Disraeli classificava as mentiras em três grupos: as comuns, as cabeludas e as estatísticas. Cada vez mais, estamos às voltas com mentiras estatísticas e, o pior, continuamos a acreditar nelas. Que me perdoem os que creem, mas, simplesmente, não acredito que a Parada Gay de São Paulo tenha reunido mais de 3,5 milhões de pessoas, pela simples razão de que é fisicamente impossível colocar toda essa gente (que corresponde a duas Curitibas) no trajeto da parada, para não falar no pesadelo logístico para transportar milhões de pessoas ou arranjar estacionamento para centenas de milhares de veículos a uma distância minimamente razoável do trajeto. As fotos mostram que o evento foi um sucesso, uma celebração da liberdade, do bom humor, da tolerância, mas de novo... três milhões e quinhentas mil pessoas é um flagrante exagero. Menos, companheiro! Menos...

Também não quero minimizar a questão da gripe suína, mas acho que estamos sendo vítimas de um preciosismo estatístico. O Houaiss define pandemia como "uma enfermidade epidêmica amplamente disseminada" e esclarece que etimologicamente pandemia vem do grego pan-demos e significa "o povo inteiro". Já a Organização Mundial de Saúde é mais precisa: o nível 5 de uma pandemia é definido como uma epidemia que provoca danos duradouros de nível coletivo em pelo menos dois países que pertencem à mesma região da Organização, enquanto que a de nível 6 é aquela que além disso, provoca danos coletivos duradouros em pelo menos um país que pertença a outra região da OMS. Ora, o número total de casos no Brasil é de menos de cem e ninguém morreu. É claro que se apenas uma pessoa tivesse morrido, mas se essa pessoa fosse eu ou alguém de minha estima, pouco importaria que esse caso isolado fosse uma insignificância estatística. Mas mas traçar comparações com a gripe espanhola de 1918 como foi feito, é um enorme exagero.

Da crise econômica e financeira do mundo então, nem se fala. A imprensa especializada virou o paraíso da manipulação estatística. As bolsas se valorizam ou desvalorizam, o risco-país sobe ou desce numa montanha russa em função de informações açodadas, incompletas ou simplesmente equivocadas, para dizer o mínimo. Como a enganação e a manipulação estatísticas raramente são gratuitas ou desinteressadas, muita gente está perdendo com elas, mas alguns estão ganhando e ganhando muito. As consequências econômicas e sociais neste nosso mundo de comunicação instantânea e globalizada podem ser enormes. Quantos milhões de empregos foram sacrificados, quantos bilhões de dólares de investimentos foram cancelados ou adiados por causa de self-fulfilling phophecies, as profecias autorrealizantes em que as coisas acontecem porque as pessoas acreditam que irão acontecer? Quanto está custando em termos sociais esse pirandelliano "assim é se lhe parece"?

É preciso estar atento e não acreditar à primeira vista naquilo que se lê e ouve, mesmo quando dito por vozes muito autorizadas, inclusive porque só temos uma crise mundial dessas proporções porque essas vozem falharam no passado. Querem uma sugestão? Como disse o Groucho Marx: "Vocês preferem acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?"

P.S.: uma imagem vale mais que mil palavras e a charge do Paixão na quinta-feira, 18 de junho, mostrando Lula-Alice no País das Maravilhas prestando reverência a Sarney-Gato Chesire é demolidora. Mas não me contenho e dou minha contribuição: quando vi Sarney na tevê, lacrimoso, a misturar trechos autocomiserativos com um tom imperial de cobrança dos críticos, lembrei-me de uma frase: ele se parecia com o sujeito que matou o pai e a mãe e depois pediu clemência ao juiz porque era órfão...

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.