Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

Muito além da partilha: o verdadeiro sentido do milagre da multiplicação dos pães e peixes

milagre multiplicação pães e peixes
Existem muitas outras fontes cristãs que fundamentam a prática da caridade. Não se deve, contudo, reduzir o episódio do milagre da multiplicação dos pães e peixes a uma simples lição moral sobre partilha. Este milagre é um sinal que aponta para algo maior: a identidade daquele que o realiza (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Um dos relatos mais conhecidos do Novo Testamento é o da multiplicação dos pães e peixes. Ao navegar pelo YouTube, deparei-me com um vídeo de Mario Sergio Cortella, intitulado O Milagre da Multiplicação que NÃO exige fé (Apenas lógica). Cortella costuma trazer reflexões sólidas, e decidi, como em outras ocasiões, assistir ao vídeo.

Ele inicia falando sobre a importância das eleições para a democracia e afirma que “um dos programas de formação de vida mais belos” foi trazido por Jesus de Nazaré, que não tinha um “mandato”, mas fazia política no sentido mais belo. Ainda que seja simplificador equiparar pólis e civitas, Cortella usa essa comparação para recuperar o sentido de política como cuidado da vida comum – algo positivo. Antes de chegar ao episódio que dá nome ao vídeo, discorre sobre outros temas e conta algumas histórias. Cortella fala sobre os pães e peixes de Jesus apenas no último terço, e seu enfoque está na partilha.

A ideia de partilha está fortemente ligada à caridade, à doação. Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino fala em “dar esmolas”, o que, numa interpretação contemporânea, tem o significado mais amplo de ajuda material aos necessitados – que também é partilha.

Segundo Aquino, a caridade é uma amizade verdadeira com Deus. Não se trata de uma emoção sensível ou passageira, mas de uma disposição interior estável (habitus), infundida por Deus, pela qual a pessoa passa a amar a Deus por Ele mesmo. Desse amor nasce também o amor ao próximo – inclusive aos pecadores e aos inimigos – não por seus méritos próprios, mas porque todos são chamados à mesma comunhão divina.

Existem muitas outras fontes cristãs que fundamentam a prática da caridade. Não se deve, contudo, reduzir o episódio do milagre da multiplicação dos pães e peixes a uma simples lição moral sobre partilha. Este milagre é um sinal que aponta para algo maior: a identidade daquele que o realiza

A caridade é, portanto, uma virtude: ela orienta toda a existência para Deus e confere às demais qualidades morais – como a fé e a temperança – sua direção mais profunda, atuando como “forma das virtudes”, isto é, fazendo com que sejam vividas não apenas como cumprimento de deveres humanos, mas como expressão de um amor que tem em Deus o seu fim último. Assim, embora possa manifestar-se em gestos concretos – como dar esmolas ou prestar auxílio material –, a caridade pertence essencialmente à ordem espiritual e não se confunde com essas manifestações exteriores (AQUINO, 2012, II-II, q. 23, a. 1; a. 3).

Com essa base teológica estabelecida, convém retornar ao tema central: o episódio da multiplicação dos pães e peixes. Ele se deu após um período intenso de pregação e curas na Galileia. Pouco antes da festa da Páscoa, Jesus retirou-se para um lugar deserto, sendo, contudo, seguido por uma multidão de milhares de pessoas. Jesus pregou e curou enfermos. Como se fez tarde, os discípulos sugeriram a Jesus dispersar a multidão, para que ela pudesse buscar o que comer (cf. Evangelho Segundo São Mateus 14, 13–16; São Marcos 6, 30–37; São Lucas 9, 10–13). No Evangelho de São João, o relato é um pouco diferente, pois Jesus mesmo alerta os discípulos quanto ao problema da alimentação da multidão.

Nas palavras de Cortella, “segundo os relatos”, os discípulos dizem a Jesus que “têm alguns pães e alguns peixes”. E Jesus os teria orientado, dizendo: “vocês vão, entrem e recolham o que tem na multidão e distribuam”. E Cortella completa: “então Jesus foi lá, pôs a mão e fez dois pães virarem quinhentos? Não, o milagre é outro, é o milagre que você e eu podemos fazer também, se a gente entende esse ensinamento, que é o milagre da partilha”.

Bem, aqui precisamos fazer alguns esclarecimentos. Quais informações temos sobre a multiplicação de pães e peixes? O que diz a Bíblia, efetivamente, em todos os quatro evangelhos?

VEJA TAMBÉM:

1) Não são “alguns pães e alguns peixes”; são exatos cinco pães e dois peixes; 2) Havia cinco mil homens, possivelmente além das mulheres e crianças (pois as mulheres e crianças não são computadas da mesma forma nos quatro evangelhos); 3) Ao final da partilha dos pães e peixes, além da multidão ficar saciada, ainda restaram doze cestos cheios de alimentos.

Uma reflexão é inevitável. Quando Cortella fala, ipsis litteris, “segundo os relatos”, é preciso entender quais. E só existem os quatro evangelhos (Mateus 14, 13–21; Marcos 6, 30–44; Lucas 9, 10–17; João 6, 1–15); não há fonte romana, pagã ou apócrifa sobre tal episódio. E neles não há qualquer menção de que os apóstolos tenham recolhido alimento junto à multidão.

Entendo ser legítimo propor uma interpretação própria, desde que isso fique claro, ao contrário do que ocorreu. É inapropriado começar a frase com “segundo os relatos” e, em seguida, colocar palavras na boca de Jesus. Essa abordagem enfraquece o milagre. A fala de Cortella deixa claro que ele não acredita em milagres – e não há problema nenhum nisso. Este é um direito dele, assim como os cristãos têm o direito de acreditar.

A assistência material aos necessitados – à qual associamos a partilha – é um valor cristão. Ela nasce no Judaísmo e se amplia no Cristianismo. No Judaísmo, ela se voltava para os pobres, órfãos e viúvas, com forte ênfase no interior do próprio povo judeu, embora não excluísse o estrangeiro. O Cristianismo explicitamente projeta essa obrigação para além do próprio povo, do in-group, deixando de ser apenas dever de coesão comunitária para se tornar universal. Essa evolução é essencial no Cristianismo.

Existem muitas outras fontes cristãs que fundamentam a prática da caridade. Não se deve, contudo, reduzir o episódio da multiplicação dos pães e peixes a uma simples lição moral sobre partilha. Este milagre é um sinal que aponta para algo maior: a identidade daquele que o realiza. Se compreendermos a essência da fé cristã, veremos ali não apenas um ensinamento social, mas a manifestação do Deus encarnado que sacia a fome espiritual da humanidade e se oferece pela redenção dos seus pecados.

Paulo Bernardelli Massabki é arquiteto pela USP desde 2001; atualmente na Superintendência do Espaço Físico (SEF-USP). Mestre pela FAU-USP, atuou como docente na Universidade de Guarulhos. É autor de projetos arquitetônicos institucionais e de artigos com temas variados.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.