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Apesar da Guerra entre Rússia e Ucrânia, a OTAN celebrou grandes vitórias nos últimos anos. Em paralelo ao conflito russo-ucraniano, a organização finalizou o processo de entrada dos países nórdicos, Suécia e Finlândia, no bloco de defesa ocidental, ampliou consideravelmente seu orçamento após pressão de Donald Trump. Zelensky, sem dúvida, está feliz, mas quem mais se beneficiou ao longo desse processo foi outro nome, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan.
Desde o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em 2022, nenhum outro país obteve tantas vitórias diplomáticas relevantes quanto a Turquia. Em 2023, inicialmente, a Turquia havia aplicado seu poder de veto à entrada dos países nórdicos. O veto turco foi vendido pelos simpatizantes russos como um racha na OTAN e uma incapacidade americana de controlar os seus aliados, mas essa análise se provou falsa com o passar do tempo.
Particularmente, enquanto analista, gosto de esperar algum tempo para analisar os eventos, pois, especialmente na Geopolítica, muitas coisas não são o que parecem ser; diversionismo, teatralidade e ilusão são a regra e não a exceção nesse mundo. Análises que surgem quase em tempo real aos acontecimentos, na maioria das vezes, provêm do fígado e não do cérebro. Erdogan, ciente das características particulares de seu Estado (um país em dois continentes), que ocupa local totalmente estratégico no tabuleiro geopolítico, tinha a clara noção do que estava fazendo.
Para entender o que Erdogan fez, é necessário voltar um pouco no tempo e resgatar alguns ensinamentos do genial Armand Jean Du Plessis, mais conhecido como Cardeal Richelieu. A Raison d’état (Razão de Estado) ou simplesmente Interesse Nacional. Precisamos voltar para o século XVII para compreender o que ele fez no período e, em seguida, mostrar como Erdogan aplicou a mesma teoria em favor da Turquia.
No período que antecedeu o famoso conflito da Guerra dos 30 Anos, havia a expectativa de que os católicos deveriam se unir para combater os protestantes. A região da Boêmia estava prestes a ter uma sucessão imperial; o mais cotado para assumir o trono era o rei católico Fernando Habsburgo, porém a nobreza protestante da região, em uma tentativa de mudança de regime, ofereceu a coroa a um príncipe luterano. Isso levaria o Sacro Império Romano-Germânico a deixar de ser uma instituição católica e alinhada ao papado.
As forças imperiais massacraram os boêmios e aproveitaram para avançar contra os nobres de religião protestante em toda a Europa, gerando um conflito que destruiu a Europa Central. Os príncipes protestantes estavam, em sua maioria, na região norte da atual Alemanha, enquanto o coração do mundo católico era a Áustria e a região sul do que virou a Alemanha. Em teoria, os católicos deveriam ser obrigados a se unir contra os “hereges”. Mas, confrontada com a possibilidade de ganhos estratégicos ou a unidade espiritual, a França de Richelieu escolheu o primeiro.
Com os demais países e regiões no mais profundo caos, um país capaz de manter razoavelmente intacta sua ordem política interna está em posição de projetar o seu poder em níveis internacionais. Como os Estados Unidos fizeram na Primeira Guerra Mundial e, em parte, na Segunda, a França fez o mesmo. Richelieu enxergava o período de convulsão social com a preocupação de que o território francês estivesse sob risco e movimentou o país para apoiar a coalizão protestante formada pela Suécia e os príncipes do Norte da Alemanha. Tudo tendo em vista unicamente o Interesse Nacional. A ameaça que a França enfrentava naquela época não era metafísica ou religiosa, e sim estratégica.
Conforme diz Henry Kissinger, em Ordem Mundial, publicado em 2015: “Se o grupo (protestante) for inteiramente destruído, o peso do poder da casa da Áustria recairá sobre a França”. Ao apoiar os vários pequenos Estados ao longo da Europa, o objetivo da França de enfraquecer a Áustria foi atingido.
Com o sucesso da estratégia, Richelieu se imortalizou na Ciência Política e nas Relações Internacionais, deixando um legado amplo que, anos mais tarde, serviria de base para o que se convencionou chamar de realismo em Política Internacional. Esse conceito embasou a maneira que Erdogan negociou a remoção de vetos para a entrada da Suécia e da Finlândia na OTAN.
Em 2023, para desbloquear a entrada dos países escandinavos, Erdogan conseguiu negociar armamentos com os dois países que anteriormente embargavam a venda de armas e munições para a Turquia, conseguiu 40 jatos F-16, 6 bilhões de dólares para financiamento militar e, de quebra, também conseguiu o apoio diplomático para a entrada no mecanismo PESCO da UE. Suécia e Finlândia também interromperam o apoio aos grupos separatistas curdos que operavam na Turquia, e a Suécia se comprometeu a apoiar a entrada efetiva da Turquia na UE. Além disso, eles alteraram suas leis internas sobre terrorismo e extraditaram suspeitos de terrorismo para Ancara.
No fim de 2024, aproveitando-se da incapacidade russa de lidar com uma guerra em duas frentes, na Ucrânia e na Síria, Erdogan desempenhou um papel ativo na queda do ditador sírio Bashar Al Assad, um aliado histórico da Rússia e que contava com a proteção de Putin desde o início da Guerra da Síria, em 2011. A Turquia também foi capaz de fornecer condições para que o novo presidente sírio mantivesse seu poder após a queda de Assad e impediu que a Síria se tornasse uma colcha de retalhos, como ocorreu no Afeganistão após a saída dos Estados Unidos.
Em 2026, o ápice da pragmática diplomacia turca salta aos olhos. Aproveitando-se das tensões entre Estados Unidos e Irã e da atenção russa desviada para outras questões, o país consolidou sua presença no Mar Negro e no Cáucaso, provando ser um aliado indispensável para a OTAN e para a segurança euro-atlântica. E, como golpe de mestre, no início de agosto, basicamente formou a sua própria “OTAN” no Oriente Médio ao anunciar um amplo acordo militar junto ao Paquistão e à Arábia Saudita.
O acordo de defesa conjunta de MECA redesenha o tabuleiro na região mais complexa do mundo. O objetivo central é isolar ainda mais o Irã, a antiga potência regional agora pressionada pelo conflito militar que se arrasta junto aos Estados Unidos desde março. No mundo islâmico, existe uma ruptura evidente entre sunitas e xiitas, e a aliança de MECA é sunita. Porém, o impacto dessa aliança deve ser ainda maior, enfraquecendo os interesses chineses e russos na região e também fortalecendo o bloco ocidental liderado pelos Estados Unidos.
O Acordo de MECA não deve ser analisado de forma separada do acordo de cooperação nuclear civil entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, firmado em julho de 2026. Os dois movimentos derivam um do outro. A Turquia consegue, com essa aliança, energia e financiamento árabe para a sua economia e o escudo nuclear paquistanês. É a Razão de Estado de Richelieu aplicada com maestria no contexto de Política Internacional contemporânea.
Não deixa de ser irônico e curioso notar que, pessoalmente, Erdogan está muito mais próximo dos métodos autoritários e iliberais de Vladimir Putin do que do consenso social-democrata que comanda a UE e ainda mais distante dos orgulhosos progressistas escandinavos. Mas, quando a realidade se impõe, a ideologia se torna algo secundário, como já havia demonstrado Richelieu. Erdogan aprendeu, e como aprendeu.
Rodrigo Bueno é bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais (IBMEC). Pós graduado em Inteligência e Contra Inteligência pela Associação Brasileira de Estudos de Inteligência e Contra Inteligência (ABEIC/CSABE). Mestrando em Política Internacional (PUC Minas). Seu foco principal de estudos é a área da Política Internacional, Filosofia Política e Ciência Política. Na mídia já publicou no Instituto Mises Brasil. Publicou artigos sobre Securitização e o TNP na Revista Interamericana de Humanidades, Ciência e Educação. Publicou artigos pela Editora Dialética sobre o pensamento de Raymond Aron, Samuel Huntington e a História do Conservadorismo.



