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Não devemos temer que nossos tempos sejam difíceis: na noite mais escura, o brilho da luz é mais intenso

E, quando as futuras gerações olharem para trás, que não encontrem apenas o registro da escuridão que enfrentamos. Que encontrem, sobretudo, a história daqueles que se recusaram a deixar que ela prevalecesse. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Há uma verdade que a história insiste em nos ensinar, embora a humanidade pareça condenada a esquecê-la: é na noite mais escura que as estrelas mais brilham. Os grandes homens e mulheres que admiramos não nasceram em tempos de tranquilidade, tampouco foram poupados das adversidades que marcaram suas gerações. Eles viveram quando o horizonte parecia desprovido de esperança, quando as instituições vacilavam, quando a coragem se tornava uma virtude rara e quando a mediocridade parecia triunfar sobre o mérito.

Não escolheram aqueles tempos. Certamente não os desejaram. Nenhum homem sensato deve desejar a tempestade apenas para demonstrar que é capaz de enfrentá-la. Mas, quando ela chegou, não se esconderam. Não se curvaram. Não permitiram que as circunstâncias determinassem os limites de sua grandeza. Levantaram-se.

E, ao fazê-lo, transformaram aquilo que poderia ter sido apenas mais um capítulo de resignação humana em uma página de coragem, perseverança e virtude. É fácil admirar a coragem quando ela já pertence ao passado. É confortável celebrar aqueles que desafiaram a injustiça quando os perigos que enfrentaram já não nos ameaçam. É simples erguer monumentos aos que resistiram quando o preço da resistência já foi pago por outros.

Difícil é reconhecer que a história não terminou. Que os desafios de nosso tempo não são menos reais porque ainda não foram transformados em livros. Que as virtudes que admiramos nos grandes personagens do passado não eram dons sobrenaturais, mas escolhas humanas, feitas diariamente, muitas vezes em circunstâncias nas quais teria sido infinitamente mais fácil desistir.

Sempre preferi Hank Rearden a John Galt. Não porque desconheça a força da recusa, nem porque considere que alguém tenha o dever de sacrificar a própria existência em benefício daqueles que pretendem explorá-lo. Mas porque encontro uma forma particular de grandeza naquele que, diante das forças empenhadas em paralisar o mundo, responde trabalhando ainda mais, criando ainda mais, produzindo ainda mais.

Há algo de extraordinariamente humano naquele que, ao perceber que outros tentam deter o motor do mundo, não se limita a denunciar a escuridão, mas procura uma nova maneira de mantê-lo em movimento.

Que os medíocres celebrem suas pequenas vitórias. Que os covardes confundam prudência com rendição. Que os parasitas imaginem que podem viver eternamente daquilo que outros constroem. Nós continuaremos

Quando lhe impõem obstáculos, ele constrói caminhos. Quando lhe retiram instrumentos, ele inventa outros. Quando procuram sufocar sua iniciativa, ele responde com engenhosidade. E, quando acreditam ter finalmente destruído sua capacidade de produzir, descobrem que jamais compreenderam a verdadeira origem de sua força.

Porque podem confiscar o produto de seu trabalho, mas não a inteligência que o concebeu. Podem destruir uma empresa, mas não o espírito empreendedor que a ergueu. Podem erguer obstáculos à liberdade, mas não transformar a covardia em coragem, a inveja em talento ou o parasitismo em virtude.

Podem consumir aquilo que construímos. Podem desperdiçar aquilo que produzimos. Podem tentar se alimentar indefinidamente dos frutos de nosso esforço. Mas há algo que jamais poderão fazer: tornar-se, por meio dessa apropriação, os autores daquilo que não foram capazes de criar.

Eis a diferença fundamental entre um Ellsworth Toohey e um Howard Roark, entre um James Taggart e um Hank Rearden. Não se trata de riqueza, posição social ou prestígio. Trata-se de caráter. Trata-se da diferença moral entre aqueles que constroem e aqueles que precisam diminuir os construtores para justificar a própria existência. Entre os que encontram no talento alheio uma inspiração para superar a si mesmos e os que encontram nele uma ofensa insuportável à própria mediocridade.

Não são equivalentes. Jamais foram. E nenhuma quantidade de poder, nenhuma multidão de aduladores, nenhuma vitória circunstancial será capaz de transformar essa desigualdade de virtudes em equivalência moral.

Mas não confundamos virtude com facilidade, nem perseverança com a obrigação de aceitar indefinidamente qualquer sacrifício. O verdadeiro desafio não consiste em trabalhar até a exaustão para sustentar aqueles que nos exploram. Consiste em não permitir que sua pequenez defina aquilo que somos capazes de realizar.

Se fecharem uma porta, construiremos outra. Se destruírem uma oportunidade, criaremos uma nova. Se tentarem apagar nossas conquistas, haveremos de encontrar, no próprio conhecimento que as tornou possíveis, os instrumentos para recomeçar. Não porque o mundo seja justo. Não porque o esforço seja sempre recompensado. Mas porque a alternativa seria entregar aos que desprezam a virtude o poder de determinar o alcance de nossa própria existência.

E esse é um poder que não lhes devemos conceder. A história nunca foi escrita pelos que detinham o poder. Foi escrita, sobretudo, pelos que se recusaram a aceitar que o poder fosse a medida definitiva do que era possível.

Por isso, não devemos temer que nossos tempos sejam difíceis. Devemos temer, isto sim, que, diante da dificuldade, deixemos de ser dignos das virtudes que tanto admiramos nos que vieram antes de nós. Talvez não nos tenha sido reservada a tranquilidade de viver sob um céu permanentemente iluminado. Talvez nossa geração tenha sido convocada a atravessar uma noite mais longa do que imaginávamos.

Que assim seja. Não pedimos a escuridão. Não a celebramos. Mas tampouco haveremos de nos render a ela. Aqueles que procuram sobreviver sugando a luz dos demais cometem um erro fundamental ao acreditar que a grandeza humana é um recurso finito, que pode ser inteiramente consumido, distribuído ou confiscado.

Não compreendem que a capacidade de criar não é uma chama que se extingue. Assim como no mito de Prometeu, ela é uma força que pode renascer, multiplicar-se e iluminar lugares que antes pareciam condenados às sombras.

Não venceremos a escuridão tornando-nos parte dela. Venceremos recusando-nos a permitir que ela determine a intensidade de nossa luz. Que os medíocres celebrem suas pequenas vitórias. Que os covardes confundam prudência com rendição. Que os parasitas imaginem que podem viver eternamente daquilo que outros constroem. Nós continuaremos.

Continuaremos a pensar quando nos quiserem obedientes. A criar quando nos quiserem dependentes. A trabalhar quando nos quiserem resignados. A construir quando tudo ao redor parecer empenhado em destruir.

E, se a noite se tornar ainda mais escura, que isso não seja motivo para diminuirmos nossa luz, mas para torná-la ainda mais intensa. Pois aqueles que vivem de obscurecer o brilho alheio jamais compreenderão a força daqueles que decidiram iluminar o mundo.

Que venha, portanto, a noite mais escura. Não porque desejemos a tempestade. Mas porque, se ela chegou, encontrará homens e mulheres que não esqueceram como se faz nascer a luz.

E, quando as futuras gerações olharem para trás, que não encontrem apenas o registro da escuridão que enfrentamos. Que encontrem, sobretudo, a história daqueles que se recusaram a deixar que ela prevalecesse. Porque é na noite mais escura que a luz é mais intensa.

André H. Paris, professor e escritor, é doutorando em Direito, associado honorário do Instituto Líderes do Amanhã, autor do livro “Compliance – ética e transparência como caminho” (traduzido para a língua inglesa sob o título “Ethics & transparency – a path to compliance”) e “As políticas de leniência antitruste e anticorrupção nacionais e as lições estrangeiras”.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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