Publicidade
Artigo

O agro brasileiro precisa de um plano para além da próxima safra

Presidente da Câmara, Hugo Motta, no lançamento do Plano Safra 2026/27. (Foto: Marina Ramos / Câmara dos Deputados)

Ouça este conteúdo

O agronegócio brasileiro iniciou o ano em ritmo acelerado. A produção de soja, milho e cana-de-açúcar alcançou patamares históricos, consolidando, mais uma vez, a relevância do setor para a economia nacional. Entretanto, o agro também carrega uma característica inerente a qualquer atividade cíclica: nem sempre o desempenho observado no início do ciclo se mantém até o seu encerramento.

As safras que começaram com números recordes de produção e receita já enfrentam, neste momento, um cenário mais desafiador. Margens pressionadas, crédito mais restrito, volatilidade cambial e custos elevados de insumos passam a exigir ainda mais eficiência da atividade produtiva. Diante desse contexto, devemos aproveitar os resultados positivos alcançados até aqui para nos prepararmos para os desafios que se aproximam. E, quando utilizo a primeira pessoa do plural, refiro-me ao Brasil.

A safra 2025/26 de soja deverá atingir entre 177 e 178 milhões de toneladas, consolidando o Brasil como o maior produtor mundial da cultura, segundo estimativas da Conab. O milho, com safra projetada em aproximadamente 138 milhões de toneladas, mantém-se como a segunda cultura mais importante do país. Já a cana-de-açúcar, impulsionada pela crescente demanda por etanol e pelas políticas de transição energética, reforça seu papel estratégico na matriz energética nacional.

O consumo de fertilizantes alcançou 35,86 milhões de toneladas entre janeiro e setembro de 2025, crescimento de 9,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). O Brasil permanece na quarta posição entre os maiores consumidores mundiais. Entretanto, as importações somaram 43,32 milhões de toneladas no período, evidenciando uma vulnerabilidade estrutural que merece atenção. É difícil sustentar um crescimento consistente quando parte significativa do abastecimento depende de fatores geopolíticos e de decisões tomadas fora do país.

O Brasil construiu uma das agriculturas mais eficientes e competitivas do mundo, mas precisa avançar também na construção de políticas estruturantes que fortaleçam sua segurança produtiva, tecnológica e comercial

Essa dependência gera consequências práticas no campo. A instabilidade na oferta de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, obriga produtores e técnicos a reavaliar constantemente suas estratégias de manejo durante as safras. O nitrogênio aplicado no momento inadequado ou sob condições desfavoráveis representa investimento perdido, seja por volatilização, lixiviação ou, simplesmente, pela falta de sincronismo entre a disponibilidade do nutriente e a demanda da planta.

Para enfrentar esse desafio, a resposta deve passar pelo aumento da eficiência no uso dos insumos. E, quando falamos em tecnologia, estamos nos referindo ao conhecimento aplicado para transformar recursos em resultados. Soluções nitrogenadas protegidas por tecnologias que reduzem perdas e aumentam a eficiência de uso do nutriente têm demonstrado resultados consistentes no campo. Em mais de 130 áreas colhidas no Brasil e no Paraguai, esse tipo de tecnologia proporcionou incremento médio superior a 12 sacas por hectare no milho, representando retorno superior a 1,5 saca para cada litro aplicado. A lógica é simples: em um ambiente de insumos caros e margens estreitas, aumentar a eficiência costuma ser mais rentável do que simplesmente elevar as doses aplicadas.

Nesse contexto, os bioinsumos também assumem papel cada vez mais relevante. O setor movimentou aproximadamente R$ 6,2 bilhões em 2025 e alcançou 194 milhões de hectares tratados, crescimento de 28% em relação ao ano anterior, segundo a CropLife Brasil. Os inoculantes estiveram presentes em cerca de 77 milhões de hectares, enquanto os bionematicidas registraram a maior expansão individual, com aumento de 60% na área tratada entre 2024 e 2025. As projeções indicam um mercado de aproximadamente R$ 9 bilhões até 2030, com o Brasil respondendo por parcela significativa do crescimento mundial do setor. Esses números já não descrevem uma tendência emergente. Descrevem uma transformação estrutural da agricultura brasileira.

O verdadeiro salto estratégico ocorrerá quando uma parcela cada vez maior dessas tecnologias puder ser desenvolvida, produzida e escalada dentro do próprio país, reduzindo a dependência de cadeias globais de suprimento. Até lá, os fertilizantes minerais continuarão desempenhando papel essencial na sustentação dos elevados níveis de produtividade exigidos pela agricultura moderna. A produtividade continuará sendo o principal mecanismo de proteção do produtor diante das oscilações de mercado, das incertezas geopolíticas e das variações cambiais entre cada safra.

Os resultados obtidos em campo demonstram esse potencial. Na safra 2025/26, em Goiás, áreas que adotaram manejo biológico integrado durante um período de déficit hídrico severo – com apenas 25 mm de chuva durante a fase crítica de florescimento, frente aos cerca de 45 mm considerados necessários – conseguiram recuperar até 408 kg por hectare, reduzindo perdas e preservando a viabilidade econômica da produção.

Bactérias promotoras de crescimento e fixadoras de nitrogênio, como espécies do gênero Methylobacterium, exemplificam bem essa evolução tecnológica. Esses microrganismos são capazes de captar nitrogênio atmosférico e disponibilizá-lo às plantas, contribuindo para maior eficiência nutricional. Contudo, é importante ressaltar que a substituição integral dos fertilizantes minerais não está no horizonte de curto prazo. O caminho mais racional é a integração das ferramentas disponíveis. Fertilizantes minerais e bioinsumos não são concorrentes; são complementares. Quando utilizados de forma estratégica, ampliam a eficiência dos sistemas produtivos, reduzem desperdícios e contribuem para o aumento sustentável da produtividade.

Ao mesmo tempo, é fundamental observar as transformações em curso nos mercados internacionais. A China, principal destino das exportações brasileiras de soja, tem ampliado seus investimentos em segurança alimentar e busca reduzir parte de sua dependência externa para o abastecimento de grãos. Ainda que não exista perspectiva de autossuficiência plena no curto prazo, uma eventual redução da demanda por importações poderá impactar diretamente a dinâmica comercial do agronegócio brasileiro.

Esse cenário reforça a necessidade de planejamento estratégico de longo prazo. O Brasil construiu uma das agriculturas mais eficientes e competitivas do mundo, mas precisa avançar também na construção de políticas estruturantes que fortaleçam sua segurança produtiva, tecnológica e comercial. Mais do que responder aos desafios do presente, é necessário antecipar os desafios do futuro.

Por isso, torna-se urgente a elaboração de uma estratégia nacional de desenvolvimento capaz de fortalecer a competitividade do agronegócio, reduzir vulnerabilidades externas e criar condições para que o país continue crescendo de forma sustentável nas próximas décadas. Afinal, produzir mais a cada safra já não é suficiente. Será cada vez mais necessário produzir melhor, com maior eficiência, autonomia e visão de longo prazo.

Leonardo Sodré é CEO da GIROAgro.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.