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O alto rendimento começa na escola: onde nascem os grandes atletas

A Educação Física escolar vai muito além do esporte: forma, transforma e pode revelar talentos, fortalecer a autoestima e mudar vidas. (Foto: Kalistro/Pexels)

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Minha trajetória no esporte de alto nível não teve início em ginásios modernos, mas na rua e no pátio de asfalto das aulas de Educação Física da infância. Cursei da 1ª à 6ª série no Grupo Escolar Conselheiro Zacarias, em Curitiba — uma escola sem quadra esportiva. Muitos hoje, inclusive professores da área, podem supor que a falta de estrutura limitava as aulas a meras brincadeiras. Era exatamente o oposto: cientes da realidade local, nossos professores planejavam aulas exemplares, das quais guardo imensa saudade. O foco era o aprendizado real dos esportes, de suas regras e fundamentos. A única limitação surgia na hora da partida; por isso, a prática era adaptada com jogos pré-desportivos.

Além das aulas, o ato de brincar na rua desempenhou um papel fundamental na minha formação. As brincadeiras complementavam perfeitamente a Educação Física escolar, pois já chegávamos à escola com um repertório motor mais rico e melhor coordenação, o que facilitava o trabalho do professor. E a via inversa também era verdadeira: tudo o que aprendíamos nas aulas era transferido para as ruas, onde tínhamos a liberdade de experimentar e aprimorar cada movimento.

A Educação Física ia muito além do mero exercício corporal: ela nos introduzia à lógica tática, às regras e aos fundamentos esportivos. Mais do que condicionamento, o aprendizado estimulava a agilidade, a consciência espacial e a tomada rápida de decisão sob pressão — competências cognitivas essenciais para a prática esportiva.

Celebrado em 1º de setembro, o Dia do Profissional de Educação Física também chama a atenção para um papel que começa muito antes das grandes competições.

É muitas vezes na escola, nas primeiras experiências esportivas, que professores identificam aptidões, desenvolvem fundamentos e ajudam a construir a base física, técnica e emocional de futuros atletas de alto rendimento

Foi exatamente nesse contexto que meu professor de Educação Física percebeu meu potencial esportivo e me encaminhou para o basquetebol. Eu estava com 12 anos e cursando a 6ª série. Como minha escola era vinculada ao Colégio Estadual do Paraná, passei a treinar lá. No entanto, foi também ali que vivi a primeira grande decepção da minha vida. Eu era o mais novo da turma e me sentia muito inseguro com a minha altura, o que me tornava um alvo fácil para piadas e provocações dos outros alunos. Sem trégua por parte deles, resisti por cerca de dois meses nos treinos antes de desistir do esporte.

No ano seguinte, minha mãe, que trabalhava como costureira, conseguiu uma bolsa de estudos no recém-inaugurado Colégio Positivo – Júnior por meio de uma amiga. Foi ali que os rumos da minha vida começaram a mudar.

Ingressei no colégio em 1977, na 7ª série, e encontrei uma realidade completamente diferente para a Educação Física. A infraestrutura com quadras poliesportivas acelerou meu desenvolvimento. A competitividade saudável das aulas funcionava como uma preparação para o mundo real: aprendíamos a vencer, a lidar com derrotas e a assimilar frustrações. O esporte nos ensinava disciplina, respeito às regras e o valor do trabalho em equipe, formando cidadãos preparados para a sociedade, e não apenas atletas.

Na 8ª série, decidi retornar aos treinos. Pensei em optar pelo voleibol, mas voltei ao basquetebol guiado por uma das figuras mais marcantes da minha vida: o professor Francisco Alexandre Faigle, técnico do Colégio Positivo.

Contudo, o impacto mais profundo das atividades físicas, tanto nas aulas quanto nos treinamentos, ocorreu na minha autopercepção. Na infância, minha estatura era fonte de constante insegurança. Essa visão só mudou graças à orientação dos profissionais de Educação Física, que me fizeram enxergar que a altura — antes vista como defeito — era, na verdade, um grande trunfo. Quando me aceitei, a transformação foi radical: o que era motivo de piada passou a despertar admiração. Essa virada de chave mental ressignificou minha autoestima e pavimentou definitivamente minha trajetória no esporte.

Tenho uma gratidão imensa aos professores de Educação Física que cruzaram meu caminho na infância e na adolescência. Eles foram os verdadeiros pilares da minha trajetória no esporte. No entanto, mesmo que eu não tivesse me tornado um atleta de destaque, os ensinamentos daquela época continuariam sendo inestimáveis.

Os valores transmitidos em cada aula e treino moldaram quem sou e me acompanham por toda a vida. Foi exatamente por isso que escolhi ser professor de Educação Física: para transformar vidas e fazer pelos meus alunos o que um dia fizeram por mim.

Rolando Ferreira Júnior foi o primeiro brasileiro a jogar na NBA e integrou a Seleção Brasileira de basquete por 14 anos e é coordenador de Esporte e Cultura do Colégio Positivo — Água Verde, em Curitiba (PR).

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