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O Brasil desaprendeu a pensar o mundo

O Brasil perdeu a capacidade de pensar estrategicamente sua política externa. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)

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A diplomacia lulopetista atravessa uma das maiores transformações da ordem internacional das últimas décadas como se ainda houvesse tempo e condições para improvisar. 

E o debate público, quando existe, é desfocado: o problema está no excesso de antagonismo aos Estados Unidos ou na aproximação exagerada com a China? A diplomacia deve ser mais ideológica ou mais pragmática? 

São disputas de rótulo. O problema da política externa lulopetista não decorre apenas de escolhas equivocadas, ausência de prioridades claras ou seleção inadequada de aliados. Sob Lula, o Brasil perdeu algo muito mais valioso do que uma agenda diplomática coerente: sua capacidade de pensar estrategicamente.

Enquanto o debate nacional permanece na superfície, o mundo ingressou silenciosamente em nova era geopolítica. O otimismo liberal que se seguiu ao fim da Guerra Fria apostava que a interdependência econômica, as instituições multilaterais e a expansão das normas internacionais reduziriam progressivamente a competição entre os Estados. A política internacional seria administrada por regras, organismos e consensos.

Essa ordem não desapareceu, mas perdeu a capacidade de organizar o sistema internacional. A competição entre grandes potências retornou ao centro da política mundial. A guerra voltou à Europa. O Oriente Médio permanece sujeito a sucessivas rupturas. EUA e China disputam não apenas mercados, mas tecnologias, infraestrutura, influência política, padrões digitais e posições estratégicas.

A interdependência, antes celebrada como fonte de prosperidade, revelou-se também vulnerabilidade. Sanções financeiras, controles de exportação, bloqueios logísticos, dependência energética e concentração de cadeias produtivas voltaram a ser empregados como instrumentos de coerção. 

O poder mudou de natureza. As grandes potências compreenderam rapidamente essa transformação.

Sob Lula, o Brasil perdeu algo muito mais valioso do que uma agenda diplomática coerente: sua capacidade de pensar estrategicamente

Os EUA reorganizaram sua política externa a partir de uma visão integrada de segurança nacional, política industrial, inovação tecnológica e competição estratégica. A China converteu comércio, financiamento, infraestrutura, empresas estatais e tecnologia em instrumentos permanentes de projeção de poder. Mas o dado mais incômodo para o Brasil não vem das superpotências. Vem das potências médias.

Os Emirados Árabes Unidos, com população menor que a da Grande São Paulo, decidiram há mais de 20 anos que o petróleo compraria o futuro, não o presente. Fundos soberanos transformaram a renda dos hidrocarbonetos em portos operados em dezenas de países, logística, aviação e, mais recentemente, inteligência artificial: foram o primeiro país a criar um ministério dedicado à IA, em 2017, e hoje negociam com Washington acesso a semicondutores avançados enquanto sediam projetos de infraestrutura computacional de escala global.

Ao mesmo tempo, mantém relações funcionais com EUA, China, Israel, Índia e até com Irã, sem que nenhuma delas tenha se tornado refém de afinidades ideológicas, pois quando mísseis iranianos atingiram seu território, em fevereiro de 2026, o governo emirático fechou a embaixada em Teerã no dia seguinte, com a mesma objetividade com que antes negociavam. Não é equilíbrio retórico, mas cálculo, operando em ambas as direções.

A Indonésia oferece contraponto ainda mais desconfortável, por ser um espelho: país insular de grandes dimensões, tropical, democrático, exportador de commodities, membro do G20 e tradicionalmente não alinhado. Em 2020, proibiu a exportação de minério de níquel bruto e condicionou o acesso às suas reservas, as maiores do mundo, à instalação de refinarias e fábricas em território nacional. Foi acionada na OMC, perdeu, recorreu e manteve o rumo.

Em poucos anos, deixou de vender minério para vender aço inoxidável e precursores de baterias, multiplicou o valor exportado e inseriu-se na cadeia global dos veículos elétricos. A Turquia, que construiu metodicamente em 20 anos uma indústria de defesa capaz de exportar drones para 3 continentes, conta história semelhante.

O que esses países têm em comum não é regime, geografia ou ideologia. É a decisão de tratar a inserção internacional como projeto de longo prazo, com objetivos definidos, instrumentos coordenados e revisão permanente. 

Todos compreenderam que prosperidade, segurança e influência dependem da capacidade de articular os instrumentos do poder nacional em torno de propósitos duradouros. Todos, menos o Brasil de Lula.

Não se percebeu que a geopolítica não substituiu a economia: incorporou-a. Comércio, crédito, investimentos, indústria, segurança alimentar, tecnologia e infraestrutura tornaram-se recursos de poder, cuja eficácia depende da capacidade de articulá-los com influência política, defesa, inteligência e desenvolvimento científico-tecnológico em torno de objetivos nacionais.

O Brasil possui ativos consideráveis: Somos uma das maiores economias do mundo, potência agrícola e energética, país continental, detentor de reservas minerais, biodiversidade, água, recursos marítimos e posição geográfica privilegiada. Mas nosso peso econômico não encontra correspondência em defesa, inteligência, tecnologia, capacidade dissuasória ou influência política.

Todos compreenderam que prosperidade, segurança e influência dependem da capacidade de articular os instrumentos do poder nacional em torno de propósitos duradouros

Temos ativos de potência, mas não arquitetura de potência. Possuímos escala, mas não coordenação. Temos recursos, mas não estratégia capaz de convertê-los em poder.

Essa deficiência torna-se ainda mais grave diante da reorientação norte-americana para o Hemisfério Ocidental. A nova National Security Strategy devolveu à região centralidade no cálculo estratégico de Washington, que passou a interpretar a crescente presença chinesa em infraestrutura, tecnologia, energia, mineração e crédito como dimensão da competição global. 

Isso altera o ambiente no qual o Brasil precisa atuar. Durante anos, Brasília pôde ampliar sua dependência econômica da China, antagonizar os EUA e apresentar essa equação como expressão de autonomia.

Esse malabarismo tornou-se insustentável: decisões sobre tecnologia, minerais críticos, sistemas financeiros e cooperação militar serão cada vez mais avaliadas por suas implicações estratégicas.

Isso não significa que o Brasil deva aceitar alinhamentos automáticos. Significa abandonar a ilusão de que autonomia se preserva por retórica, equidistância abstrata ou recusa em escolher prioridades.

Autonomia não se proclama. Constrói-se. Depende de capacidade industrial, tecnologia, inteligência, defesa, diversificação econômica, segurança energética e poder de negociação. Um país dependente de terceiros para fertilizantes, equipamentos militares, tecnologias críticas, infraestrutura digital e financiamento não se torna autônomo porque repete a palavra “soberania”. Torna-se apenas vulnerável de maneira mais eloquente.

A NSS americana, portanto, deve ser compreendida como uma mudança estrutural que exigirá do Brasil mais clareza, mais capacidade de decisão e maior sofisticação estratégica, e não mais bravatas e populismo barato.

Sob Lula a diplomacia nacional substituiu estratégia por conjuntura, visão de Estado por visão de governo, planejamento por improviso. Deixou-se de se perguntar que Brasil desejávamos construir no mundo e passamos a apenas reagir aos acontecimentos produzidos por outros. 

Passou-se a tratar política externa e diplomacia como sinônimos. Não são. Política externa é substância, estratégia. Diplomacia é método.

A política externa define o papel que o país pretende exercer no mundo, seus interesses, prioridades e objetivos. A diplomacia é instrumento de execução. Possui linguagem, regras, protocolos e práticas próprias, mas não deve substituir a estratégia nem determinar os interesses do Estado. Quando essa relação se inverte, os meios passam a comandar os fins. 

A conjuntura passou a ser lida por duas lentes que nada têm a ver com o interesse nacional: a ideológica e a eleitoral. As escolhas externas foram postas a serviço da narrativa doméstica das solidariedades partidárias do lulopetismo, com prejuízo simultâneo de longo e de curto prazo.

Os exemplos abundam. O reconhecimento da pseudoeleição venezuelana de 2024, notoriamente fraudada, chegando a enviar sua embaixadora para a posse de Maduro, dissolveu o capital de credibilidade que permitiria ao Brasil atuar como mediador regional. A hostilidade pessoal e ideológica dispensada ao governo argentino, sócio fundador do MERCOSUL e um dos maiores parceiros comerciais do país, converteu a mais importante relação bilateral sul-americana em troca de insultos, enquanto Buenos Aires estreitava laços com Washington.

Temos ativos de potência, mas não arquitetura de potência. Possuímos escala, mas não coordenação

O "clube da paz" para a Ucrânia, formulado sem consulta a Kiev e recebido com ceticismo tanto na capital ucraniana quanto em Moscou, não produziu um único resultado verificável e custou credibilidade na Europa. Em cada caso, a preferência partidária ou o palanque doméstico determinou a posição externa; em cada caso, o Brasil pagou a conta.

Ademais de essencialmente reativa, essa diplomacia reage mal. O episódio das tarifas norte-americanas de 50%, em 2025, é ilustrativo. Enquanto outros países atingidos abriram imediatamente canais de negociação, mapearam interesses e obtiveram exceções, Brasília gastou meses em retórica de palanque, anúncios de reciprocidade sem lastro e vitimização com fins eleitorais. 

Mesmo na audiência pública no USTR, aberta a todos para se contestar as tarifas, Lula não mandou um representante sequer. Se o assunto é tão relevante quanto o presidente dizia ser, o que estava fazendo o presidente da APEX nesse dia? O que fazia o MRE de mais importante? Absolutamente ninguém foi enviado.  Verdade seja dita, o senador Flávio Bolsonaro se deslocou a Washington e apresentou defesa técnica para tentar reverter as tarifas, tarefa que deveria ter sido realizada pelo governo.

Quando as tarifas foram anunciadas, Lula usou a rede X para, mais uma vez, tentar tirar proveito político de uma situação causada por sua própria política externa desastrosa, no que foi prontamente desmentido tanto pelo Secretário de Estado Marco Rubio quanto pelo perfil do USTR na rede: o governo brasileiro não demonstrou vontade política para cooperar e negociar.

Confundiu-se, ainda, protagonismo com retórica. Presidir cúpulas, multiplicar viagens, acumular fotografias e reivindicar a liderança do "Sul Global" não altera o cálculo de nenhum ator relevante, pois, assim como agenda cheia não é estratégia, presença não é influência, ativismo não é protagonismo e retórica não é resultado.

Uma política externa deve ser julgada por sua capacidade de antecipar turbulências, reduzir vulnerabilidades, abrir mercados, atrair investimentos, incorporar tecnologia, diversificar parceiros, proteger cadeias estratégicas, fortalecer a defesa e ampliar a influência nacional. Quando esses resultados não aparecem, o protagonismo transforma-se em mera encenação burlesca. 

Por isso, a necessária reforma da política externa não consiste apenas em substituir uma orientação diplomática por outra, redefinir parceiros prioritários ou alterar o conteúdo dos discursos. Consiste em reconstruir a capacidade estratégica do Estado brasileiro, o que exige recolocar no centro do debate um conceito praticamente ausente da reflexão nacional contemporânea:  Grande Estratégia.

 “Grande” não significa grandiosa, mas integrada: a arquitetura intelectual e institucional de um projeto nacional de longo prazo que articula política externa, defesa, inteligência, política comercial, desenvolvimento tecnológico, base industrial, segurança energética, finanças e infraestrutura em torno de objetivos permanentes, estabelece uma hierarquia entre fins e meios e responde a perguntas elementares que o Brasil raramente formula de maneira sistemática: Que país pretendemos construir? Qual posição desejamos ocupar no mundo? Qual o caminho a ser percorrido? Como chegaremos lá? Em quanto tempo? Quais são nossos interesses permanentes? Que ameaças podem comprometer nossa soberania e nosso desenvolvimento? Quais capacidades estratégicas precisamos acumular? Quais parceiros oferecem complementaridade real? Quais dependências precisam ser reduzidas? Quais recursos podem ser transformados em poder de negociação? Sem essas respostas, a política externa reduz-se à administração de acontecimentos, cuja marca é o improviso. 

O método de execução dessa Grande Estratégia é o que denominamos Realismo Propositivo. Não se trata de doutrina ideológica, mas de disciplina de ação, organizada em quatro premissas: proatividade, pragmatismo, protagonismo e planejamento permanente.

Essas premissas precisam ser compreendidas em conjunto. Separadas, perdem sentido. Combinadas, formam um método. Proatividade sem planejamento transforma-se em voluntarismo. Pragmatismo sem interesse nacional degenera em oportunismo. Protagonismo sem capacidade converte-se em retórica. Iniciativa sem Planejamento produz apenas burocracia. 

Proatividade não é ativismo: conecta ações a objetivos e resultados. O Brasil não pode continuar limitado a reagir às iniciativas de terceiros ou adaptar-se a agendas já definidas. Precisa identificar tendências antes que se transformem em crises, perceber oportunidades antes que sejam ocupadas por concorrentes e construir posições antes que sejam definidas por outros. 

Considere os minerais críticos. Diante de reservas nacionais de enorme relevância para a transição energética global, a postura reativa consiste em esperar o interesse estrangeiro. A postura proativa consiste em definir previamente que posição queremos ocupar nessas cadeias, quais etapas internalizaremos quais tecnologias absorver, quais parcerias podem acelerar sua industrialização e quais dependências evitar.

No primeiro caso, administramos o interesse dos outros sobre nossos ativos. No segundo, utilizamos nossos ativos para promover nossos próprios interesses.

O sistema internacional não é uma comunidade de afinidades ideológica, mas ambiente de cooperação e competição. Pragmatismo é estruturar as relações externas a partir de interesses concretos, complementaridades reais e avaliações de risco, custo e benefício, não de solidariedades partidárias. 

 Não significa ausência de valores; significa conciliá-los com realidades de poder, como fazem os Emirados Árabes ao negociar simultaneamente com Washington, Pequim e Tel Aviv. A seletividade ideológica de Lula, complacente com autocracias politicamente próximas e hostil a governos do campo oposto, cobrou preço em credibilidade, margens de negociação e resultados comerciais.

Protagonismo, conceito banalizado pela política externa lulopetista como sinônimo de presença, viagens, discursos, e participação em eventos sem nenhuma benefício concreto para o Brasil e nos quais se possui reduzida capacidade de alterar os incentivos dos atores envolvidos, não é exibicionismo diplomático nem uma percepção que um governo produz sobre si mesmo. É uma capacidade, reconhecida pelos outros, de alterar cálculos, influenciar decisões, organizar parceiros, produzir acordos, liderar processo e produzir consequências. 

Essa distinção é particularmente importante no momento atual, em que Lula buscou reconstruir uma narrativa de protagonismo internacional por meio de intenso ativismo presidencial. Mas protagonismo retórico e influência estratégica não são equivalentes.

É perfeitamente possível estar mais presente e ser menos influente, como se comprovou, pois a influência deriva da combinação entre reputação, credibilidade, previsibilidade, recursos materiais de poder, capacidade de coalizão, poder econômico e utilidade estratégica, ativos que Lula reduziu ao nível histórico mais baixo, resultando em nosso virtual isolamento nas Américas.

Planejamento permanente, a premissa menos visível e mais importante, significa trabalhar continuamente com análise prospectiva, cenários, inteligência estratégica, avaliação de riscos e revisão de prioridades. Estratégia que não é revisada vira documento histórico. 

Foi essa substituição da cultura de administração da conjuntura por uma de antecipação que permitiu à Polônia eliminar metodicamente, ao longo de uma década, sua dependência do gás russo. Planejar é identificar, com antecedência, os tabuleiros em que o país será chamado a jogar, e preparar as peças antes da partida.

Dois cenários básicos ilustram o que essa antecipação exige do Brasil. O primeiro é a bifurcação tecnológico-mineral entre EUA e China. Controles de exportação, listas de entidades e exigências de rastreabilidade tenderão a dividir as cadeias de semicondutores, baterias, terras raras e inteligência artificial em blocos parcialmente incompatíveis.

O Brasil, detentor de nióbio, terras raras, lítio e grafite, será cortejado por ambos. A linha de ação adequada não é a equidistância passiva, mas a negociação ativa: mapear reservas e gargalos, condicionar o acesso a investimento em processamento local, buscar o estatuto de fornecedor confiável nas cadeias ocidentais onde isso agregar valor e proteger setores sensíveis, como redes e infraestrutura digital, com critérios técnicos de segurança, não com improviso caso a caso.

Planejar é identificar, com antecedência, os tabuleiros em que o país será chamado a jogar, e preparar as peças antes da partida

O segundo é o retorno da América do Sul à condição de arena de competição e instabilidade: a crise venezuelana e a pressão militar americana no Caribe, a disputa do Essequibo, os fluxos migratórios e a transnacionalização do crime organizado, do PCC ao Tren de Aragua. Se o Brasil não organizar a resposta regional, ela será organizada de fora, e sem o Brasil à mesa.

Cabe a Brasília reconstruir pontes com todos os vizinhos, independentemente do matiz de seus governos, liderar mecanismos de segurança fronteiriça, inteligência compartilhada e vigilância amazônica, e apresentar-se a Washington não como problema a administrar, mas como sócio indispensável da estabilidade hemisférica.

Em cada um desses tabuleiros, a diferença entre chegar antes e chegar depois será medida em décadas de valor agregado.

Uma política externa assim orientada não se organiza apenas por geografias diplomáticas tradicionais, mas pelos vetores que determinam poder e prosperidade no século XXI: defesa e segurança, comércio e finanças, tecnologia e inovação, inteligência, energia, alimentos, minerais críticos e infraestrutura.

Também exige estabelecer hierarquias. Nem toda organização internacional possui a mesma relevância. Nem toda relação bilateral merece o mesmo investimento. Nem todo posto justifica a mesma estrutura. Nem toda agenda multilateral produz retorno proporcional aos recursos empregados.

No multilateralismo, substituir presença por utilidade. Fóruns internacionais são instrumentos para promover objetivos nacionais, não fontes abstratas de prestígio.

Nas relações bilaterais, parceiros precisam ser organizados segundo relevância econômica, política, tecnológica e estratégica. Com os EUA, precisaremos reconstruir uma relação histórica e definir uma agenda de cooperação que vá muito além de tarifas e comércio, incorporando defesa, segurança hemisférica, inteligência, investimentos, tecnologia e minerais críticos.

Com a China, preservar as oportunidades econômicas, reduzindo dependências e assimetrias, aumentando o valor agregado das exportações e avaliando com rigor a presença chinesa em setores sensíveis.

Com Europa, Índia, países árabes, africanos e vizinhos sul-americanos, organizar relações segundo complementaridades verificáveis. Promoção comercial, atração de investimentos e geração de negócios precisam adquirir centralidade: no mundo da geoeconomia, business é poder. Uma diplomacia desconectada de quem produz, investe, pesquisa, exporta e inova estará também desconectada de parte crescente do poder nacional.

Nada disso será possível com uma arquitetura institucional desenhada para outra época. A reforma do Itamaraty não é capítulo burocrático da política externa, mas sua condição de viabilidade.

 Não se trata de redesenhar organogramas para simular modernização. O Itamaraty continua sendo uma das instituições mais qualificadas do Estado brasileiro, tendo ajudado a projetar o Brasil durante o século XX e que precisa ser preparada para disputar influência no século XXI em quatro dimensões complementares.

A primeira é a funcional, e consiste em recuperar a capacidade de formular, antecipar e propor, operando como principal centro de inteligência estratégica e análise prospectiva do Estado, não como administrador de agenda.

A segunda é a administrativa: simplificar processos, rever fluxos e ampliar a delegação de competências, liberando os diplomatas para a atividade-fim.

 A terceira é a organizacional: dar centralidade à diplomacia econômica, tecnologia, defesa, comunicação estratégica e análise de riscos, estruturando cada unidade, inclusive a rede de postos, em função de sua contribuição para a capacidade estratégica nacional.

 A quarta é a profissional, e corresponde à reestruturação da carreira diplomática brasileira, com base em progressão funcional informada por critérios objetivos, lotações transparentes, ruptura do pernicioso binômio promoção-remoção, maior protagonismo decisório para conselheiros e secretários, trilhas de especialização que preservem memória institucional e remuneração compatível com uma carreira sujeita a mobilidade permanente e postos de adversidade, extensiva aos oficiais de chancelaria e ao corpo administrativo.

Essa transformação não pode ser uma coleção de medidas desconectadas. Precisa obedecer a uma sequência lógica. Primeiro, formular a Grande Estratégia; segundo, reorganizar eixos, vetores e linhas de atuação; terceiro, recuperar a capacidade de formulação estratégica do MRE, com as reformas funcional, administrativa, organizacional e profissional; e quarto, instituir planejamento permanente, indicadores, métricas de produtividade e KPIs (Key Performance Indicators) adequados às diferentes missões. 

Esses indicadores não substituirão a política, mas devem derivar da estratégia. Servirão para demonstrar se os objetivos estão sendo alcançados. Uma embaixada não deve ser avaliada apenas pelos eventos que realiza, mas por sua contribuição para abrir mercados, atrair investimentos, incorporar tecnologia, apoiar empresas, produzir informação estratégica e ampliar a influência brasileira.

Convém ser concreto sobre o que medir. Uma embaixada em mercado prioritário pode ser avaliada pelo número de barreiras sanitárias e técnicas efetivamente removidas, pelo valor dos investimentos confirmados com participação demonstrável do posto e pelos acordos de transferência de tecnologia acompanhados até a execução. 

Um posto em país fornecedor de insumos críticos, pela diversificação obtida nas fontes de fertilizantes ou de combustíveis. Uma delegação multilateral, pelo número de posições brasileiras incorporadas aos textos negociados, não pelo número de reuniões assistidas.

A rede consular, pela presteza e eficiência no atendimento aos demandantes de serviços consulares. E toda a rede, pela qualidade e tempestividade da informação estratégica produzida, avaliada por quem a consome.

Estabelecer esses indicadores exige método: definir a linha de base, negociar metas entre cada posto e a Secretaria de Estado à luz da estratégia, revisá-las anualmente, submeter os resultados a avaliação com participação externa e vinculá-los ao reconhecimento na carreira.

O objetivo não é transformar a diplomacia em planilha, mas impedir que a ausência de avaliação proteja a ineficiência. Sem medição não há accountability; sem accountability, nenhuma prioridade sobrevive à rotina. Essa mudança cultural estabelece a conexão entre estratégia, recursos, ação e resultado.

Lula deteriorou a capacidade do Estado de pensar o longo prazo, estabelecer prioridades, organizar seus instrumentos de poder e sustentar um projeto nacional no mundo. Durante anos, pagamos pela ausência de estratégia com mediocridade. Em um mundo novamente organizado pela competição entre grandes potências, começamos a pagá-la com vulnerabilidade. 

 O mundo que está surgindo não concederá relevância ao Brasil por dimensão territorial, tradição diplomática ou pretensão de grandeza. Teremos apenas a relevância que formos capazes de construir, exercer e preservar. A verdadeira escolha não é entre Washington e Pequim, Ocidente e BRICS. É entre pensar e ser pensado: ou o Brasil reconstrói sua capacidade de formular e executar sua própria estratégia, ou continuará oferecendo seus extraordinários ativos para que outros executem as deles.

Países que não fazem escolhas estratégicas não escapam à estratégia; apenas figuram nela como objeto. O Brasil tem tudo para voltar a ser sujeito da própria história. Falta-lhe apenas decidir sê-lo.

 A reforma necessária, portanto, não consiste apenas em redefinir prioridades diplomáticas, mas em reconstruir a capacidade estratégica do Estado brasileiro para compreender o mundo, formular objetivos, mobilizar recursos e sustentar políticas coerentes com o interesse nacional.

Isso exige uma Grande Estratégia, executada segundo o Realismo Propositivo, e um Itamaraty modernizado, com uma carreira valorizada e uma diplomacia capaz de converter presença em influência, recursos em oportunidades, oportunidades em negócios e negócios em prosperidade e poder.

Eduardo Bolsonaro, foi Deputado Federal (PL/SP) e Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.      

Marcos Degaut, ex-Secretário Especial Adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-Secretário-Executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é Doutor em Segurança Internacional.  

Conteúdo editado por: Jônatas Dias Lima

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