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Faixa de protesto às políticas americanas de imigração, colocada no muro de fronteira com o México, perto do Rio Grande.
Faixa de protesto às políticas americanas de imigração, colocada no muro de fronteira com o México, perto do Rio Grande.| Foto: Herika Martinez/AFP

Angelica Lopez se agachou ao lado dos trilhos que atravessam esta cidade quente, no sul do México, abraçando a filha de dois anos e pedindo ao filho de sete que não se afastasse muito dela. Depois que foram parados por policiais mexicanos ao tentarem embarcar em um trem de carga, eles dormiram no chão duro e lamacento, de olho na aproximação dos federais, torcendo para conseguirem pegar a próxima composição.

"Voltar para Santa Rosa de Copán, em Honduras, está fora de cogitação. Há duas semanas, os membros de uma gangue vieram à minha casa para exigir que eu e minha prima começássemos a namorar dois deles", diz a mãe solteira de 23 anos. Chocadas e apavoradas, elas fugiram para o norte, atravessando primeiro a fronteira com a Guatemala e depois o Rio Suchiate, para chegarem ao México.

Sentadas entre outros migrantes espalhados pelos trilhos, as duas jovens me confessaram não saber bem o que fazer: não tinham certeza se se inscreviam para pedir asilo, com pouquíssimo dinheiro para custear a viagem. "Estamos vivendo de um dia para o outro, torcendo para Deus nos guiar", revela Lopez.

Quando conversei com elas, a dupla ainda não tinha ouvido falar das ameaças que Donald Trump fizera de aumentar as tarifas dos produtos mexicanos se o país não impedisse os migrantes de chegar à fronteira norte-americana. Não tinham nem ideia de que sua tragédia pessoal tinha virado moeda de troca nas negociações que poderiam causar um caos econômico no México e uma alta de preços nos EUA.

O México tem mostrado uma atitude inconstante em relação à migração no norte

Trump chegou a um acordo com o vizinho em sete de junho; de acordo com a Declaração Conjunta EUA-México, o país concordou em "tomar medidas inéditas para aumentar o patrulhamento, com o objetivo de assim reduzir a migração irregular", mas a manobra toda amarra questões que não deveriam ter nada a ver umas com as outras, mesclando o comércio bilateral com refugiados e migrantes de países terceiros. O ponto central do diálogo eram os centro-americanos que seguem para o norte, mas estes não tiveram representação nenhuma à mesa. Segundo o acordo, o México vai reprimir ainda mais os pobres e desesperados que chegarem à sua fronteira meridional – só que isso não resolve a crise de refugiados na América Latina.

Para os problemas da violência, pobreza e corrupção que estão forçando as pessoas a deixarem suas casas na América Central, não há nem sinal de solução; enquanto isso, um pouco mais para o sul, na Venezuela, quatro milhões de pessoas já fugiram, de acordo com os cálculos da ONU. O México prometeu um aumento no número de policiais militares dedicados a impedir que os migrantes tentem entrar no país pelo sul, além de também ter formalizado um acordo para abrigar os requerentes de asilo para os EUA enquanto aguardam o resultado do processo.

Muitos aqui suspiraram, aliviados, ao ouvir no noticiário do dia sete que, graças ao acordo, as tarifas norte-americanas sobre os produtos mexicanos não aumentariam. Eles temiam que, se Trump levasse adiante as ameaças que fez na semana passada, o México acabasse enfrentando uma recessão. Não se sabe exatamente quando as medidas serão implantadas, mas uma coisa é certa: os mexicanos terão de enfrentar dois desafios colossais, ou seja, cuidar de milhares de requerentes de asilo na fronteira do norte, o que pode acabar se traduzindo em campos de refugiados lotados, e manter a vigilância e a repressão constantes no sul, em um território poroso marcado por rios, montanhas e florestas.

Mais que isso, Trump pode voltar a ameaçar tarifar os produtos mexicanos a qualquer momento – e, se isso acontecer, vai desestabilizar ainda mais uma região sabidamente instável.

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A impressão que se tem é a de que a motivação por trás da intimidação do norte-americano é a promessa que fez na campanha, isto é, a redução da imigração ilegal. De fato, o número de apreensões de migrantes sem documentos na fronteira com o México, em maio, foi o maior total mensal desde 2007.

De lá para cá, o tipo de migração mudou significativamente. No início dos anos 2000, muitos mexicanos iam para o norte para trabalhar nos setores que bombavam antes da crise financeira, como o da construção; hoje, o volume é engrossado pelos centro-americanos, entre os quais há muitas crianças pequenas e gente fugindo da violência. Mais de 84 mil das 132.887 pessoas detidas em maio estavam com a família; 11.500 eram menores desacompanhados.

Há muitos motivos forçando esse êxodo familiar em Honduras, El Salvador, Guatemala e Nicarágua, incluindo pobreza, estiagem e governos autoritários e corruptos, mas o que realmente destrói essas comunidades é a violência das gangues. E não é só uma questão de homicídios sumários, mas também de crimes predatórios, como extorsão, sequestro e estupro, que fazem as vítimas como Angelica Lopez fugirem para salvar a vida, sem dinheiro nem planos concretos.

Ao entrevistar dezenas de imigrantes que atravessaram o México nos últimos meses, ouvi inúmeros relatos da brutalidade que os fez deixar o país, apesar das condições horrorosas ao longo do caminho. É por isso que Angelica estava se arriscando nos trens de carga com os filhos pequenos.

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O México tem mostrado uma atitude inconstante em relação à migração no norte: depois que Andrés Manuel López Obrador assumiu o poder, em dezembro passado, prometeu vistos humanitários e trabalho para quem chegasse, mas logo mudou o tom, falando de detenções em massa e deportações. Em abril, prendeu mais de vinte mil estrangeiros sem documentos, o dobro do registrado em fevereiro – e, com o novo acordo, tentará deter ainda mais.

Entretanto, o país talvez não queira ou não possa manter esse nível de repressão ao longo dos anos, enquanto as causas do problema continuarem em ação na América Central. Mais ajuda humanitária às comunidades, especialmente aquela fornecida por organizações independentes que lutam para acabar com a violência e proteger os vulneráveis, talvez seja a solução para impedir essas fugas em massa. Sem contar que sairia mais barato do que manter os refugiados em condições miseráveis.

Taxar os produtos mexicanos é a pior solução. Há mais de duas décadas a economia do país se tornou independente da dos EUA; no ano passado, o comércio transfronteiriço movimentou mais de US$ 600 bilhões, mas agora está nas mãos de um parceiro que resolve fazer chantagem com tarifas relacionadas a questões nada comerciais a qualquer hora.

O fato é que, se o México acabar na recessão, terá ainda menos condições de lidar com os fluxos de migrantes e refugiados. A desaceleração econômica pode jogar ainda mais gente no crime e fragilizar os esforços públicos de conter os cartéis do tráfico.

Trump erroneamente crê que os EUA podem se tornar mais fortes graças à coerção e ao bullying, mas, quanto mais pobre e mais instável se tornar a região ao sul do Rio Grande, maior a dor de cabeça para seu país.

Ioan Grillo é o autor de "Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields and the New Politics of Latin America" e contribui para a coluna de opinião.

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