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O cerco ao crime organizado avança, mas o Brasil fica para trás

O presidente Donald Trump durante encontro do Escudo das Américas em 22 de setembro. (Foto: Casa Branca/EFE)

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O alerta feito no artigo anterior ganhou um fato novo e objetivo. Em 22 de setembro de 2026, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e outros sete países da América Latina e do Caribe aderiram à primeira ação do Escudo das Américas contra 24 organizações tratadas como narcoterroristas. Nessa lista estão o PCC e o Comando Vermelho.

Não é apenas uma declaração política. Os países anunciaram medidas para congelar ativos, restringir vistos e responsabilizar quem forneça apoio material ou logístico às organizações. Cada governo aplicará as medidas dentro de sua própria legislação, mas a direção é inequívoca: a região começa a fechar espaços financeiros, migratórios e logísticos usados pelas facções.

O Brasil não aderiu à declaração. Também ficaram fora Uruguai, Suriname e Venezuela. O ponto central, porém, não é apenas diplomático. Quando o cerco aumenta, redes criminosas não desaparecem: deslocam dinheiro, armas, operadores, rotas e cargas para os corredores onde ainda encontram mercado, logística e menor integração de inteligência.

A nova estrutura regional já começa a ganhar consequência prática. A Força Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, ativada em agosto de 2026, reúne inteligência, vigilância e planejamento operacional com os países da coalizão. Em setembro de 2026, esse modelo resultou em interdições de embarcações de reabastecimento no Pacífico oriental, apontadas pela inteligência regional como suporte logístico de Los Choneros, facção equatoriana ligada ao tráfico internacional.

A lógica é simples e eficiente: recursos de vigilância identificam a rota; a força nacional faz a abordagem, prende, apreende e conduz o caso segundo sua própria legislação. Em outra operação, a Marinha da Colômbia, com apoio de rastreamento aéreo da Força Tarefa Interagencial Sul, interceptou uma lancha rápida ao norte de Cabo de la Vela e apreendeu 736 quilos de cocaína, prendendo dois traficantes dominicanos.

O recado para as organizações é claro: a cooperação regional começa a reduzir o intervalo entre a informação e a ação. Isso pressiona não só quem transporta a droga, mas quem abastece embarcações, fornece combustível, protege cargas, lava recursos e articula a saída internacional.

O Brasil está ficando para trás no enfrentamento regional ao crime organizado. Não ficou de fora apenas de uma reunião ou de uma fotografia diplomática. Ficou fora de um círculo de segurança que passa a cruzar inteligência, vigilância, controle financeiro e ação operacional

A fronteira entre Colômbia e Equador revela como esse modelo criminoso funciona. Os Comandos de la Frontera, grupo colombiano com base no Baixo Putumayo, formaram uma aliança operacional com Los Lobos, facção equatoriana. Os colombianos controlam áreas de produção e corredores fluviais; os equatorianos oferecem transporte, depósitos, contatos locais e acesso aos portos do Pacífico.

Os rios Putumayo e San Miguel são as artérias desse sistema. Por eles, pasta de coca e cocaína refinada saem do sul colombiano em direção ao Equador. No sentido inverso, circulam combustível usado no refino, precursores químicos, armas e munições. O mesmo circuito também movimenta ouro de mineração ilegal. Não é uma rota de mão única: é uma rede que financia, arma e protege as organizações.

O destino é a costa e, especialmente, o entorno portuário de Guayaquil, de onde contêineres contaminados seguem para os mercados internacionais. A escala da violência mostra que não se trata de crime comum: em maio de 2025, cerca de 80 militares equatorianos foram emboscados em Alto Punino durante uma operação contra a mineração ilegal; 11 morreram. A resposta estatal elevou a pressão sobre os grupos que operam entre a floresta, os rios e as saídas portuárias.

Os Comandos de la Frontera não atuam apenas na rota entre Colômbia e Equador. A organização controla áreas cocaleras em Putumayo e movimenta cargas para pontos de saída no Equador e no Brasil. O corredor amazônico, portanto, não pode ser tratado como uma fronteira distante. Ele se conecta à tríplice fronteira, aos rios da Amazônia, às estruturas de distribuição nacionais e aos portos que alimentam o mercado europeu.

O Tren de Aragua comprova que essa integração já chegou ao território brasileiro. Em 16 de junho de 2026, a Operação Rota do Norte, coordenada pela Polícia Civil de Roraima em seis estados, cumpriu mandados contra uma rede investigada por tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro. A investigação aponta que a organização fornecia ao Comando Vermelho fuzis, metralhadoras calibre .50 e lançadores de granadas, por uma rota que entraria por Roraima, passaria pelo Amazonas e teria o Rio de Janeiro como destino final.

A dimensão financeira também é reveladora. A Justiça bloqueou R$ 429 milhões em ativos de 34 pessoas físicas e jurídicas investigadas como parte do braço financeiro da rede. Segundo a investigação, empresas, veículos, contas e criptoativos foram usados para ocultar e movimentar recursos. A relação descrita pela Polícia Civil não é de disputa territorial: é de complementaridade criminosa. Um lado oferece rotas, armas e contatos transfronteiriços; o outro, capital e canais de distribuição.

Isso explica por que uma facção não precisa transferir todos os seus integrantes para outro país para ampliar seu poder. Basta deslocar um fornecedor de armas, um operador financeiro, um contato de lavagem, um articulador portuário ou uma carga de cocaína. A expansão ocorre por funções criminosas complementares, conectadas por aliados locais.

As Forças Armadas e as forças de segurança brasileiras têm demonstrado capacidade operacional em áreas de fronteira e na Amazônia. A faixa de fronteira terrestre tem 16,9 mil quilômetros, conecta o Brasil a dez países e exige presença em rios, estradas, pistas clandestinas e áreas remotas. Operações integradas já produziram resultados expressivos contra drogas, armas, contrabando, garimpo ilegal e estruturas logísticas criminosas.

A questão não é transferir responsabilidade às instituições que atuam na linha de frente. O desafio é transformar capacidade operacional em estratégia nacional permanente: integrar inteligência financeira, controle migratório, investigação patrimonial, monitoramento das rotas fluviais, rastreabilidade de cargas portuárias e cooperação efetiva com os países vizinhos.

Como tenho escrito em artigos anteriores, o Brasil está ficando para trás no enfrentamento regional ao crime organizado. Não ficou de fora apenas de uma reunião ou de uma fotografia diplomática. Ficou fora de um círculo de segurança que passa a cruzar inteligência, vigilância, controle financeiro e ação operacional. Enquanto os países participantes identificam rotas, compartilham alvos e fecham canais logísticos, as facções observam o mapa em busca do caminho de menor risco.

O PCC e o Comando Vermelho não vão esperar. Vão continuar crescendo da forma como vêm crescendo há anos, ampliando alianças, recrutando operadores financeiros, comprando proteção, procurando rotas e ocupando cada espaço que o Estado deixa aberto. É isso que sempre venho alertando: facções não avançam somente pela força das armas. Elas avançam quando encontram dinheiro para lavar, fronteiras para atravessar, portos para utilizar e ausência de uma resposta coordenada.

A aliança entre Comandos de la Frontera e Los Lobos mostra que o crime organizado já trabalha em rede. A Operação Rota do Norte demonstra que o Tren de Aragua encontrou no Brasil parceiros, rotas de armas e estrutura financeira. As interdições marítimas de setembro de 2026 revelam que os países vizinhos estão elevando o custo de operar fora de suas fronteiras. Quem não integra esse esforço conjunto corre o risco de receber aquilo que os demais começam a expulsar.

O Brasil é o maior mercado, a maior estrutura logística e a principal potência econômica entre os países que ficaram fora desse círculo. Por isso, tende a ser o destino mais atraente para operadores, recursos, cargas e alianças criminosas que precisem se reorganizar. Uruguai, Suriname e Venezuela também ficam mais expostos ao permanecerem fora dessa rede de cooperação, mas nenhum deles possui a escala de mercado, fronteiras, rios, aeroportos e portos que tornam o território brasileiro tão estratégico para o crime transnacional.

O risco não é uma hipótese distante. Ele já aparece nas armas que entram por Roraima, no dinheiro que circula por empresas e criptoativos, nas cargas que percorrem rios amazônicos e nas conexões que ligam facções brasileiras a grupos colombianos, equatorianos e venezuelanos. Se o Brasil insistir em reagir sozinho, deixará de ser apenas uma rota de passagem. PCC e Comando Vermelho encontrarão aqui as condições para recompor rotas, lavar dinheiro, armazenar armas e ampliar alianças. Assim, o país se consolidará como a retaguarda estratégica do crime organizado no continente.

Márcio Bueno, advogado, gestor e analista de políticas em segurança pública, gestor de inteligência em segurança pública, palestrante em segurança pública e crime organizado, professor de pós-graduação em Segurança Pública, é presidente do Consem – Conselho de Segurança do Município de Chapecó (SC).

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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