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O dinheiro em papel está sumindo da Europa e quem ganha com isso não é o povo

União Europeia quer ampliar o controle sobre o comportamento econômico dos europeus. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Sob o pretexto de combater a lavagem de dinheiro, a União Europeia está tornando progressivamente mais difícil a atividade econômica anônima.

A partir de julho de 2027, os europeus não poderão mais pagar empresas ou profissionais valores superiores a €10.000 em dinheiro (cerca de US$ 11.500). Qualquer transação acima de €3.000 (pouco menos de US$ 3.500) exigirá identificação obrigatória do cliente. Este é mais um passo em direção à uniformidade política na Europa, retirando autonomia dos países e empurrando sutilmente os cidadãos para o euro digital.

Essa medida, parte do novo Regulamento de Combate à Lavagem de Dinheiro (AMLR), aplica-se diretamente a todos os Estados-membros. Sob o pretexto de combater a lavagem de dinheiro, Bruxelas impõe mais uma forma de harmonização forçada que ignora o princípio da subsidiariedade: a ideia de que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo dos cidadãos e dos governos nacionais.

O que antes era uma questão regulada por cada país passa agora a ser um mandato uniforme vindo de Bruxelas.

Trata-se de uma restrição pouco disfarçada não apenas à liberdade política, mas sobretudo à liberdade econômica. O dinheiro em espécie continua sendo um dos últimos meios verdadeiramente privados de troca ainda disponíveis; ao contrário das transações digitais, ele não gera automaticamente um registro centralizado acessível a bancos ou autoridades públicas.

O uso de dinheiro em espécie é frequentemente associado à intenção de ocultar atividades ilícitas. No entanto, a capacidade de realizar transações privadas e discretas é uma extensão natural do direito de propriedade e da liberdade contratual. Muitos cidadãos que cumprem a lei preferem o dinheiro em espécie por razões totalmente legítimas, incluindo proteção contra instabilidade financeira ou possíveis controles de capital.

A partir dessa data, profissionais serão obrigados a transformar qualquer transação acima de €3.000 em um processo burocrático que envolve verificação de identidade, coleta de dados e risco de penalidades. Trata-se de mais uma imposição regulatória que eleva o custo de fazer negócios, semelhante à introdução do IVA na Europa décadas atrás, que levou muitos pequenos negócios a fechar as portas ou migrar para a informalidade devido ao aumento da burocracia e dos custos de conformidade. Pequenos empreendedores, já pressionados por altos impostos e excesso de regras, voltarão a suportar o maior peso.

O que antes eram trocas voluntárias simples se tornará fonte de custos adicionais, atrasos e maior intervenção estatal.

Mais uma vez, autoridades centralizadas criam complexidade regulatória sob a justificativa difícil de contestar de combate ao crime, embora cada país já possua suas próprias regras nessa área.

Países mais liberais, como a Alemanha, perderão flexibilidade, já que anteriormente não havia um limite geral para pagamentos em dinheiro. A uniformidade imposta por Bruxelas ignora diferenças culturais, especialmente os diferentes níveis de confiança nas instituições. Em alguns países, a cultura do uso de dinheiro em espécie permanece profundamente enraizada, e a confiança em sistemas digitais é significativamente menor.

Essa medida representa uma erosão gradual da autonomia individual. Se o uso de dinheiro em espécie se tornar cada vez mais inconveniente para comerciantes e consumidores, as pessoas migrarão naturalmente para pagamentos digitais. Com o tempo, essa mudança inicialmente conveniente tornará muito mais fácil a introdução do euro digital.

É difícil acreditar que seja mera coincidência que essas restrições entrem em vigor em julho de 2027 aproximadamente ao mesmo tempo em que o Banco Central Europeu planeja lançar os primeiros testes do euro digital. O dinheiro em espécie torna-se inconveniente e potencialmente arriscado ao mesmo tempo em que o dinheiro digital é apresentado como a alternativa prática.

Uma vez estabelecido o princípio de que o Estado pode limitar transações privadas em dinheiro, há uma forte tendência de que esses limites se tornem progressivamente mais rígidos. Os próprios países europeus já demonstraram esse padrão quando ainda controlavam essas regras em nível nacional. A Bélgica, por exemplo, reduziu gradualmente ao longo dos anos o teto para pagamentos em dinheiro até o nível atual de €3.000.

O resultado mais provável é que o novo limite europeu de €10.000, que hoje pode parecer relativamente alto, seja gradualmente reduzido até que o uso de dinheiro em espécie para a maioria das transações relevantes se torne impraticável. Na prática, a grande maioria das transações em dinheiro já está bem abaixo desse limite. Segundo estudos do Banco Central Europeu (BCE), cerca de 81% de todos os pagamentos no ponto de venda são inferiores a €25, e o dinheiro em espécie é utilizado predominantemente para pequenas compras do dia a dia. Isso significa que o limite de €10.000 afetará principalmente transações legítimas de maior valor, como o pagamento de certos serviços profissionais que muitos cidadãos e pequenos negócios ainda preferem realizar em dinheiro.

O euro digital, apresentado como um complemento ao dinheiro em espécie, chegará em um momento em que o dinheiro físico já terá sido substancialmente enfraquecido. Ao contrário do dinheiro em espécie, esse sistema é rastreável, programável e potencialmente sujeito a limites de saldo, mecanismos de expiração ou restrições de uso.

A China já ofereceu exemplos reais. Em vários testes do yuan digital, autoridades experimentaram datas de expiração para os recursos, o que significa que o dinheiro perderia valor se não fosse gasto até determinada data. Isso transforma o dinheiro de uma reserva confiável de valor em uma ferramenta que incentiva o consumo de acordo com os prazos definidos pelo governo. Tais características demonstram como moedas digitais programáveis podem ser usadas para controlar o comportamento econômico, punir a poupança e direcionar o consumo conforme as prioridades estatais.

Essas são condições fundamentalmente incompatíveis com a liberdade que o dinheiro em espécie proporciona.

Esse caminho acelerado, porém discreto, rumo a um sistema monetário totalmente digital abre espaço para um nível sem precedentes de vigilância e controle financeiro na história europeia. Ao sobrepor-se ao princípio da subsidiariedade, afetará praticamente todo o continente.

O caminho para o controle total da sociedade passa pela restrição da liberdade econômica.

Cláudia Ascensão Nunes é uma escritora e comentarista política portuguesa. Ela é presidente da Ladies of Liberty Alliance – Portugal.

©2026 Foudation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: The Slow desappearence of cash in Europe.

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