Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

O erro elegante: sustentabilidade não se reduz ao meio ambiente

A sustentabilidade, portanto, não é apenas uma vantagem competitiva – é uma necessidade urgente. (Foto: Jennifer Delmarre/Unsplash )

Ouça este conteúdo

Existe um erro recorrente elegante, bem-intencionado e socialmente aceito: insistir no que não funciona, apenas com mudanças no discurso. Quando algo falha, não paramos para questionar o modelo. Apenas o reforçamos com novos nomes, novos relatórios e mais indicadores. Parece evolução. Na prática, é repetição sofisticada.

É exatamente isso que acontece quando sustentabilidade vira apenas agenda ambiental, quando defesa é tratada como custo inevitável e quando créditos de carbono são usados como propaganda de governo.

A verdadeira mudança começa quando paramos de perguntar quanto isso custa e passamos a perguntar o que acontece se não mudarmos

Ao reduzir sustentabilidade ao verde, criamos um álibi confortável. Falamos de árvores, mas evitamos falar de produtividade, eficiência, desenho de incentivos e tomada de decisão difícil. Sustentabilidade real mexe em modelo de negócio, cadeia de valor e lógica de crescimento. O resto é cosmética.

Quando olhamos para defesa apenas como despesa, ignoramos seu papel estrutural. Não como Força Armada apenas, mas como capacidade de proteger sistemas: energia, dados, infraestrutura, alimentos, logística. Tratar isso como gasto é confundir seguro com desperdício até o dia em que o risco se materializa e, além dos anéis, perdemos os dedos.

VEJA TAMBÉM:

E os créditos de carbono onde ficam nesse debate? Em tese, um instrumento econômico poderoso. Certamente, se fosse levado a sério, seria nossa quarta safra de commodities. Na prática, muitas vezes viram uma licença para adiar mudanças. Compensa-se no balanço o que não se corrige na operação. A lógica é simples e perigosa: “pago para continuar igual”. Isso não é transição. É postergação e relaxamento. Enquanto isso, lacradores de plantão se utilizam das máximas verdes para ganhar likes. O ponto central não é clima, segurança ou carbono. É modelo mental.

Problemas sistêmicos não se resolvem com departamentos isolados, métricas desconectadas ou narrativas reconfortantes. Resolver exige integrar temas que preferimos manter separados: economia e clima, risco e investimento, curto e longo prazo. Enquanto tratarmos esses assuntos como caixas independentes, continuaremos reforçando o erro com aparência de progresso.

A verdadeira mudança começa quando paramos de perguntar quanto isso custa e passamos a perguntar o que acontece se não mudarmos. O resto é insistência bem apresentada e o mundo e o mercado, cedo ou tarde, cobram a conta.

Luiz Alberto Cureau Júnior é general da reserva do Exército.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.