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A adoção da escala 5x2 – cinco dias de trabalho e dois de descanso – já alcança quase 30 milhões de trabalhadores formais no Brasil e promete transformar profundamente a dinâmica empresarial. Embora seja vista como um avanço em qualidade de vida e produtividade, entendo que esse modelo também expõe setores inteiros a custos adicionais e a uma complexidade tributária ainda maior.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), os gastos extras podem chegar a R$ 267 bilhões por ano, exigindo contratações em massa ou pagamento de horas extras. Exportadoras alertam para perda de competitividade frente a concorrentes internacionais. A saída apontada por especialistas seria acelerar a automação, mas esse processo exige investimentos elevados e uma estratégia de longo prazo.
Na minha avaliação, micro e pequenas empresas tendem a ser as mais vulneráveis, enquanto grandes corporações conseguem diluir custos da escala 5x2 com maior facilidade, embora enfrentem desafios relacionados ao aumento da complexidade fiscal.
A implantação imediata da escala 5x2 pode trazer benefícios sociais relevantes, mas também tende a representar aumento significativo de custos para diferentes setores econômicos
Os setores mais afetados pela escala 5x2 são o comércio: supermercados e pequenos lojistas podem ter custos até 40% maiores; o varejo farmacêutico: redes do setor relatam maior atração de profissionais, mas enfrentam gargalos em horários de pico; a hotelaria: um hotel em São Paulo investiu R$ 2 milhões e contratou 27 pessoas para implementar o modelo; a saúde: hospitais e clínicas precisam redistribuir tarefas sem comprometer a continuidade do atendimento; os shopping centers: equipes menores poderão precisar ampliar quadros, elevando custos trabalhistas; os serviços imobiliários: revisão de turnos e treinamento tornam-se necessários para manter o padrão de atendimento; as companhias aéreas: gestão de escalas e renegociação de jornadas de pilotos, comissários e equipes de solo podem reduzir riscos de passivos trabalhistas; os aeroportos: reorganização de turnos e revisão operacional tornam-se essenciais para manter atividades contínuas sem necessidade de contratações excessivas; e os serviços de apoio e logística: dimensionamento da mão de obra em áreas como manutenção, limpeza e segurança.
A mudança da escala 5x2 não afeta apenas a operação das empresas, mas também a forma como impostos e encargos são absorvidos pelos negócios, com folha maior devido à elevação de encargos como INSS e FGTS; impacto direto nos balanços e aumento da proporção da folha frente ao faturamento; no Simples Nacional, pequenos comerciantes podem ultrapassar limites e migrar para regimes tributários mais pesados.
Ao comparar a legislação trabalhista do Brasil e do Paraguai, dois países integrantes do Mercosul, observamos modelos bastante distintos em relação à proteção social e à flexibilidade do mercado de trabalho.
No Brasil, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece um conjunto amplo de direitos. A jornada máxima é de 44 horas semanais, com limite de oito horas diárias e possibilidade de até duas horas extras, remuneradas com adicionais de 50% em dias úteis e 100% em domingos e feriados. O trabalhador brasileiro tem direito a férias de 30 dias anuais, ao 13º salário, ao depósito mensal do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e ao aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, que pode chegar a 90 dias.
Já no Paraguai, a legislação é mais enxuta e flexível. A jornada pode chegar a 48 horas semanais, com oito horas diárias para homens e seis horas para mulheres em determinados setores. As férias são progressivas: 12 dias após um ano de serviço, 18 dias após cinco anos e 30 dias apenas após dez anos de vínculo. Não existe 13º salário, mas há um bônus anual equivalente a um salário mínimo. O aviso prévio é fixo em 30 dias, sem escalonamento. O país não possui FGTS; em caso de demissão, a indenização depende do tempo de serviço. A licença-maternidade é de 18 semanas, superior à brasileira, enquanto a licença-paternidade é de apenas duas semanas.
Em termos comparativos, o Brasil oferece um pacote de benefícios mais amplo e protetivo, mas com maior custo para o empregador e maior judicialização. O Paraguai, por outro lado, adota um modelo mais flexível, com menos garantias trabalhistas, o que reduz encargos, mas também oferece menor proteção ao trabalhador. Essas diferenças impactam diretamente a competitividade regional.
Vejo que a implantação imediata da escala 5x2 pode trazer benefícios sociais relevantes, mas também tende a representar aumento significativo de custos para diferentes setores econômicos. O impacto pode ser especialmente sensível para micro e pequenas empresas, que tradicionalmente operam com margens mais reduzidas.
Junior Rozante é CEO da RZ3 e especialista em gestão estratégica e transformação organizacional.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



