
Ouça este conteúdo
Antes de ser alvo de uma ação militar dos EUA, a capital do Irã viu sua população se levantar inicialmente por um motivo universal: o dinheiro deixou de comprar o básico. O colapso do poder de compra tornou inviável o acesso a alimentos, energia e itens essenciais, detonando uma reação em cadeia que, em pouco tempo, espalhou-se por todas as 31 províncias do país, com a participação de milhões de pessoas, representando diversos setores sociais. O erro de leitura começa quando se reduz esse movimento a uma crise econômica. O que se viu foi algo mais profundo: uma insurreição contra a má governança em todas as suas camadas – da distribuição de água ao controle do petróleo, da repressão cotidiana ao sequestro do Estado por uma elite política blindada e ideologicamente aparelhada.
Mesmo diante de dezenas de milhares de mortes, segundo organizações internacionais de direitos humanos, o fenômeno persistiu por um bom tempo. Não por heroísmo romântico, mas porque, como regra, quando qualquer regime já não consegue garantir sobrevivência mínima e passa a massacrar sua população, a repressão deixa de funcionar como freio.
O Brasil, evidentemente, não é o Irã. Ainda não. Mas a semelhança inquietante está no processo: a tolerância progressiva à má governança, a naturalização da mediocridade administrativa, a substituição do debate estrutural por disputas simbólicas intermináveis
Há menos de cinquenta anos, os iranianos também se levantaram. Em 1979, derrubaram uma monarquia percebida como corrupta e alheia à realidade popular. O que poucos anteciparam foi a velocidade com que esse vácuo de poder seria ocupado por um regime teocrático xiita, ainda mais fechado, censor e violento. A promessa de libertação deu lugar a uma estrutura de poder impermeável, sustentada pela repressão e pela sacralização da política.
O erro histórico não foi derrubar o antigo regime, mas imaginar que qualquer alternativa seria necessariamente melhor. A geração que protestava no Irã cresceu apenas sob o domínio dos aiatolás. Não carrega nostalgia da monarquia, mas começa a flertar com a ideia de retorno do herdeiro do Xá como símbolo de ruptura com a “ordem” vigente – elemento que diferencia as atuais manifestações de movimentos anteriores. Mais revelador ainda é o realinhamento externo explícito, sobretudo com os Estados Unidos e Israel – antigos inimigos retóricos do regime - e que culminou nos ataques ao Irã.
Quando a vida cotidiana se torna insustentável, a política vira detalhe. É aqui que a analogia com o Brasil começa a incomodar – e justamente por isso merece atenção. Não se trata de comparar regimes, religiões ou contextos culturais, mas de observar padrões e trajetórias possíveis.
Crises econômicas persistentes corroem a legitimidade política. Narrativas morais substituem projetos concretos. Instituições passam a operar mais para se preservar do que para representar. O debate público se empobrece, enquanto decisões estruturais são adiadas indefinidamente.
Na América Latina, esse roteiro não é estranho. Ao longo das últimas décadas, países que apostaram reiteradamente em projetos de esquerda alinhados ao Foro de São Paulo começaram, na prática, a rever esse caminho. Argentina, Chile, Uruguai e até a Colômbia oscilaram ou recuaram diante do desgaste econômico e social. Ainda assim, o núcleo duro desse alinhamento persiste em países como Brasil, México, Nicarágua e Bolívia, sustentado menos por resultados e mais por controle narrativo e institucional.
O Brasil, evidentemente, não é o Irã. Ainda não. Mas a semelhança inquietante está no processo: a tolerância progressiva à má governança, a naturalização da mediocridade administrativa, a substituição do debate estrutural por disputas simbólicas intermináveis e a crença de que o sistema aguenta indefinidamente. Aguenta – até não aguentar mais.
O risco não é teocrático; é institucional. Não nasce da religião, mas da erosão silenciosa dos freios e contrapesos, da captura de agendas, da desresponsabilização política e da apatia social. Quando a economia deixa de funcionar como amortecedor e as instituições passam a girar em torno de si mesmas, a ruptura deixa de ser hipótese teórica, e o Brasil corre o risco de viver esse processo.
O Irã serve, portanto, menos como espantalho ideológico e mais como advertência histórica. Revoluções não começam pedindo ditaduras. Começam pedindo comida, previsibilidade e dignidade. O problema é quem costuma chegar ao poder quando o sistema colapsa.
Se o Brasil ainda tem uma chance, ela não está garantida. Depende de reconhecer que crises prolongadas não se resolvem com retórica, nem com a eternização de projetos políticos que já deram sinais claros de esgotamento. Ignorar isso não é prudência institucional. É repetir, com atraso, erros que outros povos já pagaram caro demais para aprender.
Hudson Alves da Silva Lima, advogado, é pós-graduado em Processo Civil.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







