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O maior risco que a direita enfrenta hoje não vem da esquerda, nem da imprensa, nem das instituições. Vem de dentro. Quando um campo político que nasceu defendendo valores como responsabilidade, verdade e caráter passa a reproduzir os mesmos vícios que critica, algo essencial se perde.
A direita brasileira cresceu denunciando a cultura da manipulação, da narrativa conveniente e do oportunismo travestido de virtude. Mas parte dela começou a operar exatamente sob essa lógica: reputação acima de caráter, performance acima de lealdade. O problema não é ideológico. É moral.
Se a direita quiser continuar sendo alternativa civilizatória, precisa começar pela própria casa. Caráter não pode ser apenas discurso de palco. Precisa ser prática nos bastidores
Criou-se um ecossistema em que imagem virou moeda. Quem tem mais seguidores, mais trânsito, mais acesso a microfones, acumula poder simbólico. E, onde há poder simbólico, surge a tentação de instrumentalizar relações. A retórica continua falando em valores. A prática passa a obedecer à conveniência.
Vivi, há pouco, um episódio de uma conversa privada, feita em ambiente de “confiança”, reaparecer na rede social da pessoa que se tornou conhecida há pouco tempo, com milhares de seguidores, como “análise”, “alerta” ou “reflexões”. Sem nomes. Sem contexto. Mas com endereço reconhecível. Foi um baque, confesso. Ver a dor virar pauta de Instagram. A ambiguidade protege quem publica e expõe quem confiou.
O problema moral aqui é claro: violação de confiança e instrumentalização da vulnerabilidade. Quando isso é feito sob o discurso de defesa de valores, a incoerência se torna ainda mais grave.
Também vivi, no campo profissional, a experiência de apresentar um projeto em parceria dentro desse mesmo ambiente e receber entusiasmo, alinhamento, promessas de construção conjunta, e depois ver a ideia surgir viabilizada de forma unilateral, como se tivesse sido concebida isoladamente. Não se trata de coincidência criativa. Trata-se de deslocamento de autoria.
E deslocar autoria é um ato moralmente relevante. Envolve quebra de boa-fé. Quem tem mais acesso institucional consegue absorver ideias com menor risco de questionamento. A reputação pública funciona como blindagem.
O mais preocupante é que tudo isso acontece sob a bandeira da própria direita. Fala-se em honra, mas pratica-se cálculo. Denuncia-se oportunismo na esquerda, enquanto se tolera oportunismo interno se ele vier acompanhado de influência e de muitos seguidores, de preferência.
É como se vivêssemos uma carência de salvadores, de ídolos, e, então, a gente se agarra à ilusão dos milhares de seguidores. E aí viram “ídolos da direita”, já de cara. Superconfiáveis e dignos de aplausos. Quando a direita começa a agir como aquilo que critica, perde sua força moral. E, sem força moral, resta apenas disputa de poder, exatamente o que sempre condenou.
Escrevo isso como alerta. Porque acredito que valores são critérios de conduta, sobretudo quando ninguém está olhando ou quando ninguém saberia. Se a direita quiser continuar sendo alternativa civilizatória, precisa começar pela própria casa. Caráter não pode ser apenas discurso de palco. Precisa ser prática nos bastidores. Caso contrário, não será a esquerda que derrotará a direita.
Fernanda Mayrinck é publicitária.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







