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O mundo enlouqueceu? Sim, e há um método por trás dessa loucura

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante participação no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça (Foto: GIAN EHRENZELLER/EFE/EPA)

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Da forma mais ingênua possível, comecei 2026 muito confuso. Maduro e sua esposa sendo levados a julgamento em Nova York, o regime iraniano em colapso, Nova York elegendo um prefeito comunista-jihadista, a mídia tendenciosa confundindo muito mais do que esclarecendo, conflitos regionais aumentando (Rússia/Ucrânia, Etiópia/Eritreia, Índia/Paquistão, Congo, Sudão, Líbano, Israel/Gaza/Hezbollah etc.), o antissemitismo em alta no mundo, o extremismo islâmico dominando a Europa etc.

Da forma mais ingênua possível, perguntei separadamente em inglês a várias fontes de inteligência artificial: o que o Putin, a China e o Trump querem? Com algumas variações, as respostas tiveram um ponto importante em comum: eles se preocupam com suas fronteiras, sua soberania e em aumentar sua esfera de influência por meio de relações econômicas externas.

Ou seja, a contradição é óbvia: enquanto o mundo fica cada vez menor e mais global devido às comunicações e à tecnologia, os líderes mundiais querem reafirmar sua soberania e ampliar sua influência econômica. De certa forma, sempre foi assim. A Primeira e a Segunda Guerras Mundiais começaram por razões parecidas.

Então, da forma mais ingênua possível, também perguntei a várias fontes: e o que as pessoas comuns querem? As respostas mostram um outro tipo de contradição. Por um lado, todos querem um mundo sem desigualdade, sem pobreza extrema, com direitos humanos para todos e sem conflitos. Ao mesmo tempo, todos querem dinheiro no bolso, vida confortável e acesso fácil a bens de consumo. De certa forma, sempre foi assim.

Tudo está conectado. Você não está confuso por acaso. Saiba que boa parte da confusão é intencionalmente planejada e que, como disse Shakespeare, há método nessa loucura

Ou seja, países líderes tentam fortalecer sua soberania nacional e sua influência em um mundo global cada vez mais concentrado e conectado. O lado egoísta das pessoas comuns quer desfrutar uma vida boa, enquanto seu lado idealista sonha com um mundo mais justo. De modo geral, e sem qualquer ingenuidade, cidadãos comuns e países inteiros parecem viver um paradoxo econômico-ideológico que torna impossível qualquer sonho harmonioso de paz.

Por exemplo, segundo o FMI, a riqueza global do planeta medida pelo PIB das nações foi de US$ 115 trilhões em 2025. Isso daria US$ 14.400 para cada pessoa do planeta por ano, cerca de US$ 1.200 por mês ou R$ 6.300, o equivalente a menos de quatro salários-mínimos. Você consegue imaginar um Brasil no qual TODOS, incluindo juízes, ministros, políticos de direita e de esquerda, ganhariam apenas quatro salários-mínimos, como ingenuamente queria Trotsky? Se isso parece impossível, você vai concordar que a desigualdade infelizmente faz parte da solução. Ou, pelo menos, concorde que isso faz parte da realidade. Sempre foi assim, até nos chamados países comunistas. Hoje a China tem mais bilionários (em dólar) do que a Europa: segundo a Forbes são 450 e segundo o instituto de pesquisa Hurun são 823 bilionários, todos membros do partido comunista. Ou você pensava que apenas quem ganha menos de quatro salários-mínimos seria atraído pelo comunismo?

Quando o ilegítimo presidente pseudo-socialista Maduro enviou 127 toneladas de ouro para a Suíça, 8 milhões de venezuelanos acabaram fugindo do país, enquanto muitos dos que ficaram passaram fome; alguns tiveram que comer cachorros para sobreviver. Por sinal, pesquisas de IA em português criam dúvidas sobre esse fato, enquanto fontes em inglês confirmam essa realidade.

Tentando ser mais realista e menos ingênuo nesse início de 2026, entendi que a “Terceira Guerra Mundial” é isso: o mundo em conflito permanente. Só que agora tudo parece ser mais sutil, hipócrita e perigoso. Não há lugar para ingenuidades. Quero citar alguns exemplos concretos.

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Não se fazem mais guerras como antigamente. Em 2015, o Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos definiu em um documento estratégico o conceito de “Grey Zones” (Zonas Cinzentas) para explicar um novo tipo de conflito situado entre a guerra e a paz. Exemplos: uso de “milícias marítimas” (embarcações de pesca civis não identificadas) e da Guarda Costeira da China para invadir águas disputadas, assediar embarcações estrangeiras e cortar cabos submarinos. Guerra híbrida contra a OTAN: intensificação das operações da Rússia na Europa, incluindo sabotagem de infraestrutura, sondagens do espaço aéreo e interferência eleitoral. Terrorismo por procuração financiado pelo Irã por meio de grupos como Hamas, Hezbollah e Houthis. Parcerias espúrias entre agentes de governos e narcotraficantes. A recente apreensão, pelos EUA, do petroleiro Marinera (anteriormente Bella 1), de bandeira russa, é amplamente considerada um exemplo de conflito na zona cinzenta. Esse incidente e o uso de uma “frota paralela” pela Rússia, em geral, são frequentemente citados como exemplos dessa estratégia. Entenda: Trump pode não ser tão louco como você pensa. Caso não tenha percebido, há vários conflitos cinzentos em andamento. São caracterizados pela informalidade (sem aparente participação direta de governos) e incrementalismo (começam aos poucos para não justificar uma resposta forte por parte de governos democráticos).

Alucinação da inteligência artificial. Por definição, é uma resposta gerada por IA que contém informações falsas ou enganosas apresentadas como fato. Parte disso é o chamado “astroturfing”, uma prática enganosa de criar um movimento popular falso e artificial para ocultar os patrocinadores de uma mensagem, fazendo tudo parecer uma opinião pública espontânea quando, na verdade, é orquestrado por algum grupo oculto (corporações, campanhas políticas etc.) para seu próprio benefício, frequentemente usando contas falsas em redes sociais ou endossos pagos. O antídoto para as artificialidades da IA seria nunca depender apenas de uma única fonte e checar com cuidado as fontes usadas em cada resposta automática de IA. Por experiência própria, tenho certa desconfiança da imparcialidade do ChatGPT, por exemplo. Se você fala inglês, cheque as fontes de IA também em inglês, já que as informações apenas em português parecem ser parciais, limitadas ou tendenciosas.

Conclusão: 2026 começa com o mundo enfrentando uma crise multidimensional. Há uma convergência de instabilidade econômica, intensificação de conflitos geopolíticos, nova corrida armamentista e sérios riscos tecnológicos. Tudo está conectado. Você não está confuso por acaso. Saiba que boa parte da confusão é intencionalmente planejada e que, como disse Shakespeare, há método nessa loucura.

Feliz Ano Novo.

Jonas Rabinovitch é arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior para Inovação e Gestão Pública da ONU em Nova York.

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