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O paradoxo iraniano no Oriente Médio

A ofensiva contra o Irã levanta a velha dúvida das guerras no Oriente Médio: derrotar um inimigo é mais fácil do que mudar o regime
A ofensiva contra o Irã levanta a velha dúvida das guerras no Oriente Médio: derrotar um inimigo é mais fácil do que mudar o regime (Foto: EFE/EPA/Abedin Taherkenareh)

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O tabuleiro geopolítico do Oriente Médio passou por profundas transformações nos últimos anos, impulsionado por conflitos que envolveram diferentes movimentos políticos islâmicos e o Estado de Israel. Desde os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, mudanças sensíveis ocorreram na região. Ao anunciar uma forte resposta ao Hamas e a seus aliados, o governo de Benjamin Netanyahu enfraqueceu um amplo arco de alianças que tinha no Irã sua principal referência.

A nova escalada de tensões ocorre em um ambiente no qual diversos atores regionais e globais buscam redefinir o equilíbrio de poder. A ofensiva inicial do Hamas pretendia provocar uma reação militar israelense que, além de causar danos, comprometesse a imagem de Israel perante a comunidade internacional. A estratégia, porém, não obteve o efeito desejado no que diz respeito às ações conduzidas por Netanyahu.

O debate central entre diplomatas e analistas concentra-se em até que ponto o enfraquecimento do poder iraniano poderá desencadear o colapso do frágil equilíbrio construído após a redução da influência de grupos radicais apoiados por Teerã

Com o retorno de Donald J. Trump à presidência dos Estados Unidos, Washington e Tel Aviv reforçaram sua aliança militar e diplomática. O governo israelense passou a agir com menor preocupação diante da pressão internacional, priorizando o objetivo de enfraquecer ou desarticular a estrutura militar e política do Hamas. Paralelamente, grupos aliados ao movimento – como o Hezbollah, no Líbano, e os houthis, no Iêmen – intensificaram suas ações, sustentados pelo Irã por meio do fornecimento de armas, treinamento, inteligência e cooperação estratégica.

Diante desse cenário, Israel e Estados Unidos desenvolveram uma estratégia conjunta para atingir as principais lideranças dessas organizações, cuja hierarquia rígida as torna particularmente vulneráveis a ataques direcionados. Vários comandantes foram eliminados por meio de tecnologia avançada – como beepers, armadilhas utilizadas no Líbano – e por operações de inteligência que permitiram neutralizar os houthis no Iêmen.

Em uma fase seguinte, a aliança EUA–Israel ampliou seu escopo e passou a atacar diretamente estruturas estratégicas do Irã. As ofensivas enfraqueceram partes do programa nuclear iraniano e de seu aparato bélico, agravando ainda mais a situação interna de um país já pressionado por anos de sanções internacionais. A alta generalizada de preços, a inflação crescente e a deterioração das condições de vida alimentaram protestos populares e ampliaram a rejeição ao regime iraniano, historicamente criticado por sua postura repressiva ao longo do século XXI.

O ponto de inflexão desse processo reside justamente na deterioração da imagem do governo iraniano perante sua população e no aumento da pressão norte-americana por uma possível mudança de regime. Contudo, o ritmo e os rumos dessa transformação não dependem exclusivamente de Washington. O Oriente Médio abriga países com lideranças fortemente centralizadoras – como Turquia e Arábia Saudita –, cujos interesses divergem dos iranianos, mas que também podem ser profundamente impactados por uma ruptura brusca na ordem regional.

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Uma eventual queda do regime iraniano poderia desestabilizar alianças, reacender conflitos e alterar a correlação de forças entre múltiplos atores – de Israel ao Golfo, passando por Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. A própria Síria vive um processo de reconfiguração política apoiado pela Turquia; as monarquias da Península Arábica, lideradas pela Arábia Saudita, buscam ampliar sua influência; e Israel, sob Netanyahu, atravessa um período de forte centralização do poder. Esses elementos tornam ainda mais complexa a formulação de uma estratégia clara diante da República Islâmica do Irã.

Assim, o debate central entre diplomatas e analistas concentra-se em até que ponto o enfraquecimento do poder iraniano poderá desencadear o colapso do frágil equilíbrio construído após a redução da influência de grupos radicais apoiados por Teerã. Os desdobramentos – tanto externos quanto internos – definirão não apenas o futuro da política regional, mas também o contorno de uma possível nova ordem no Oriente Médio.

Victor Missiato, doutor em História e analista político, é professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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