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O que esperar do Banco Central: mais segurança, mais rigor e inovação

Gabriel Galípolo
O presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

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Ao longo do ano de 2025, principalmente no segundo semestre, o Banco Central do Brasil deixou um recado bem claro: segurança, compliance e governança devem ser agendas prioritárias nas instituições. Depois de uma sequência de escândalos e incidentes envolvendo instituições do mercado financeiro em 2025, o BC endureceu o tom. A postura foi mais firme e mais presente.

Vimos um aumento das ações de supervisão, um rigor maior nas exigências prudenciais e uma cobrança mais forte por controles internos consistentes. E, principalmente, cresceu a expectativa de responsabilização efetiva de administradores e instituições. Na prática, isso significa elevar o nível de compliance, com estruturas mais robustas, rastreáveis e capazes de responder rapidamente quando algo falha.

Nos últimos anos, o Banco Central promoveu uma intensa agenda de inovação, digitalização e abertura do mercado, favorecendo a entrada de novos modelos de negócio. Esse ambiente mais aberto foi fundamental para ampliar a competição e a inclusão financeira. No entanto, 2025 também mostrou, na prática, que inovação sem maturidade institucional cobra um preço. O acúmulo de incidentes evidenciou que o avanço da inovação precisava ser acompanhado por um grau muito maior de maturidade institucional, controles, governança e responsabilidade.

Por isso, a sensação ao longo de 2025 foi de que o pêndulo começou a inverter. Depois de anos de uma agenda mais aberta à experimentação, o movimento passou a ser de endurecer regras, elevar o nível de exigência e, na prática, afunilar a entrada de novos players no mercado. Ao mesmo tempo, ficou evidente o reforço da supervisão, com mais inspeções, mais cobrança por estruturas robustas e menos tolerância a modelos que crescem sem governança, controles e compliance minimamente maduros.

O recado do Banco Central ao mercado é direto: o sistema financeiro brasileiro seguirá inovando, mas sob um padrão mais alto de governança e controle

Importante deixar claro que a inovação continua sendo parte central na estratégia do Banco Central, mas que ela só se sustenta quando está apoiada em estruturas sólidas de governança, segurança da informação, gestão de riscos, compliance e proteção efetiva do consumidor e do próprio sistema. A porta da inovação permanece aberta, mas dentro de um ambiente mais estruturado, mais seguro e mais exigente.

Essa lógica foi reforçada por um aumento relevante nas atualizações regulatórias. Entre os temas que ganharam destaque estão as novas regras de capital mínimo, as diretrizes sobre nomenclatura para instituições e produtos e o endurecimento das regras de segurança da informação. Na prática, isso aumenta a régua de compliance e reduz o espaço para modelos que operam no limite: quem quer crescer e permanecer no mercado precisa sustentar a operação com estrutura, controles e governança compatíveis com o novo padrão regulatório.

Esse cenário impõe mudanças estruturais para instituições financeiras, fintechs, instituições de pagamento e demais participantes do ecossistema digital. Temas como compliance, privacidade, segurança da informação e gestão de riscos deixam de ser tratados como áreas de suporte e passam a ocupar posição central na estratégia do negócio. Não se trata mais de diferencial competitivo ou de discurso institucional, mas de requisito mínimo de sobrevivência e credibilidade no mercado.

Esse direcionamento institucional ficou ainda mais evidente com a divulgação do Planejamento Estratégico do Banco Central para o ciclo 2026 a 2029, apresentado na última LiveBC do ano, realizada em 19 de dezembro, pelo secretário executivo da instituição, Rogério Lucca. O slogan escolhido para o período, Compromisso com a Estabilidade, sintetiza com precisão a lógica que orientará a atuação do Banco Central nos próximos anos.

O novo planejamento do Banco Central reafirma como prioridades centrais a estabilidade monetária e financeira, a segurança do sistema, a ampliação da transparência e da comunicação institucional e a oferta de serviços financeiros mais acessíveis, eficientes e seguros. A própria missão institucional foi reforçada, com foco na garantia da estabilidade de preços, na preservação de um sistema financeiro sólido e eficiente e na promoção do bem-estar econômico da sociedade.

As diretrizes estratégicas apresentadas para o ciclo 2026 a 2029 reforçam de forma objetiva essa visão. Entre os objetivos estão o fortalecimento da transmissão da política monetária, a garantia da solidez do sistema financeiro, o aumento da eficiência das infraestruturas digitais públicas, o aprimoramento da comunicação institucional e o fortalecimento da própria institucionalidade do Banco Central. Há também destaque para temas como resiliência cibernética, prevenção a fraudes, modernização regulatória alinhada a padrões internacionais e exigência crescente de maturidade operacional das instituições supervisionadas.

Ao mesmo tempo, o plano mantém viva a agenda de inovação. Permanecem como prioridades projetos como a expansão do Pix, o aprofundamento do Open Finance, o desenvolvimento do Drex, a tokenização de ativos e o aperfeiçoamento das infraestruturas digitais. O que muda não é o compromisso com a inovação, mas o enquadramento dessa inovação dentro de um ambiente mais estruturado, mais seguro e mais exigente.

Para 2026, a expectativa é que o Banco Central continue e aprofunde esse conjunto de medidas. A tendência é de reforço das inspeções, intensificação das ações de supervisão, elevação do nível de exigência quanto à governança e aos controles internos e adoção de iniciativas adicionais voltadas a assegurar a segurança e a estabilidade do sistema financeiro. A porta da inovação permanece aberta, mas não se trata mais de uma abertura irrestrita. Trata-se de uma inovação condicionada à responsabilidade institucional.

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Esse cenário impõe mudanças estruturais para instituições financeiras, fintechs, instituições de pagamento e demais participantes do ecossistema digital. Temas como compliance, privacidade, segurança da informação e gestão de riscos deixam de ser tratados como áreas de suporte e passam a ocupar posição central na estratégia do negócio. Não se trata mais de diferencial competitivo ou de discurso institucional, mas de requisito mínimo de sobrevivência e credibilidade no mercado.

O planejamento estratégico do Banco Central deixa claro que confiança é o insumo central desse novo ciclo. A sustentabilidade do sistema financeiro depende da capacidade de equilibrar inovação com segurança, eficiência com integridade e crescimento com responsabilidade. O objetivo é manter a tecnologia como vetor de inclusão e eficiência, sem comprometer a solidez das instituições e a proteção dos usuários.

O recado do Banco Central ao mercado é direto: o sistema financeiro brasileiro seguirá inovando, mas sob um padrão mais alto de governança e controle. As instituições que entenderem esse movimento e investirem em estruturas sólidas, processos maduros e cultura organizacional orientada à responsabilidade estarão mais bem posicionadas para atravessar esse novo ciclo. As que insistirem em modelos frágeis e baixa estruturação tendem a enfrentar dificuldade crescente de sustentação.

O que se consolida, portanto, é um novo paradigma: inovação, segurança, governança e compliance deixam de competir entre si e passam a ser dimensões indissociáveis. Esse cenário ficou mais claro em 2025 e tende a se aprofundar ao longo de 2026.

Nayara Sales é advogada, membro da Comissão Especial de Direito Bancário da OAB/SP e diretora de compliance, regulatório e privacidade do Mêntore.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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