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O que vejo nos olhos das pessoas forçadas a fugir em quase quatro anos de guerra na Ucrânia

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Mulher em frente a um prédio residencial atacado pela Rússia em Sloviansk, uma das cidades-fortalezas da Ucrânia, em 2023. (Foto: YEVGEN HONCHARENKO/EFE/EPA)

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Em dezembro, minha querida avó Rita completou 99 anos, e quatro gerações da nossa família se reuniram em Buenos Aires neste dia para celebrar sua vida e a sabedoria que ela compartilhou com cada um de nós. Cercada por filhos, netos e bisnetos, ela irradiava alegria, mas eu não conseguia parar de pensar na realidade muito diferente enfrentada por muitos idosos a milhares de quilômetros de distância, na Ucrânia, onde milhões de pessoas enfrentam neste momento o inverno mais rigoroso desde o início da guerra em grande escala, que já dura quatro anos.

Liderando o trabalho da Agência da Onu para Refugiados (Acnur) no leste da Ucrânia, vejo diariamente o impacto da guerra nas famílias. As áreas onde minha equipe e eu prestamos assistência humanitária estão entre as mais afetadas, situadas próximas a uma linha de frente em constante mudança. Meu trabalho significa conhecer e apoiar pessoas que precisam tomar uma das decisões mais difíceis de suas vidas: ficar em suas casas e arriscar a vida ou abandonar tudo e fugir para o desconhecido.

A Ucrânia e os ucranianos precisam de paz – dos ataques e assassinatos incessantes de civis e da destruição de casas e infraestrutura civil. Mas essa paz precisa ser duradoura, ancorada na justiça e no respeito ao direito internacional

“Sair não foi fácil; a incerteza era assustadora. Ainda sinto falta da nossa casa – até da sopa que cozinhei no dia anterior à nossa partida”, disse-me Svitlana, de 63 anos. Ela foi evacuada recentemente de uma área na linha de frente, na região de Zaporizhizhia, e eu a encontrei em uma instalação que oferece acomodação temporária para pessoas deslocadas internas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Svitlana estava sentada em uma cadeira de rodas, arrancada de sua casa, com toda a sua vida anterior desaparecida. Quando ela e o marido finalmente concordaram em evacuar, sua casa já havia sido danificada por bombardeios, e quase nada restava de sua aldeia. Eles foram retirados em um veículo blindado, sem saber para onde iriam.

A história de Svitlana reflete a realidade de milhões de ucranianos cujas vidas foram transformadas pela guerra. E os idosos são os que mais sofrem, muitas vezes enfrentando esses desafios sozinhos. Minha avó, que viveu o turbulento século XX e a Segunda Guerra Mundial – e que foi ativista pelos direitos dos idosos –, sempre me lembrava que o deslocamento afeta os idosos de maneira diferente: deixar o lar é mais difícil, a adaptação é mais lenta e as perdas são mais profundas.

Na Ucrânia, vejo isso todos os dias. Muitos idosos se recusam a deixar as áreas com hostilidades ativas porque se sentem ligados às suas casas, que podem estar com a família há gerações. Ou precisam cuidar de familiares vulneráveis, proteger animais de estimação ou o gado – ou simplesmente porque não suportam deixar suas casas. “Preferimos morrer aqui, onde toda a nossa família está enterrada” é um sentimento frequentemente compartilhado por moradores de comunidades na linha de frente. Aqueles que fogem deixam para trás vidas inteiras e contam com sua própria resiliência e força para reconstruí-las em outro lugar, com o apoio de organizações humanitárias como o Acnur para ajudá-los a lidar com a situação, recuperar-se e manter sua dignidade.

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Só no último ano, mais de 250 mil moradores deixaram a região de Donetsk, no leste da Ucrânia, foco da ofensiva russa em curso, e evacuações também estão ocorrendo nas regiões vizinhas. Quase metade dos que estão evacuando e passando pelos locais de trânsito – estabelecidos pelo governo, com o apoio do Acnur e outras organizações – são idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.

A Ucrânia já está no quarto ano desta guerra em grande escala, e eu acompanho as tentativas globais de encontrar uma maneira de acabar ou pelo menos cessar as hostilidades. A Ucrânia e os ucranianos precisam de paz – dos ataques e assassinatos incessantes de civis e da destruição de casas e infraestrutura civil. Mas essa paz precisa ser duradoura, ancorada na justiça e no respeito ao direito internacional.

Também vejo claramente que as necessidades de ajuda humanitária não diminuíram – elas aumentaram. Neste inverno rigoroso, milhões de famílias passaram semanas sem aquecimento e energia elétrica, com temperaturas chegando a -18 graus. Pessoas, incluindo meus próprios colegas, dormem totalmente vestidas em casas frias e escuras, sem poder cozinhar, tomar um banho quente ou recarregar seus celulares. Para idosos, pessoas com deficiência e famílias com recursos limitados, essas condições representam risco de vida. Quando há financiamento disponível, fornecemos ajuda vital, como o reparo de casas danificadas e a instalação de isolamento e aquecedores para ajudar as pessoas a sobreviver às duras condições do inverno.

Quando penso novamente em Svitlana, lembro-me da energia em seus olhos quando conversamos. Apesar do medo, da perda e da situação difícil imposta a ela, seus olhos ainda estavam cheios de esperança. “Aqui é quente e tranquilo, e as pessoas são gentis. Nunca pensamos que seríamos tratados com tanto carinho.” Svitlana e seu marido estão seguros agora e receberam apoio do Acnur.

Mas existem milhões de pessoas como elas em toda a Ucrânia. Pessoas que foram deslocadas à força, famílias enfrentando mais um inverno em casas enquanto o conflito continua. O Acnur continuará a apoiar aqueles que foram forçados a fugir ou afetados pela guerra na Ucrânia. Minha mensagem é simples: esses não são números abstratos, mas representam pessoas que não deveriam enfrentar mais um ano de guerra.

Federico Sersale é chefe do escritório do Acnur no leste da Ucrânia.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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