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O real significado da guinada da América Latina à direita

Conferência Episcopal da Colômbia pediu que seja respeitado o resultado da eleição de junho, com Abelardo de la Espriella vencedor (Foto: Mauricio Dueñas Castañeda/EFE)

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A política latino-americana voltou a mudar de direção. O Chile elegeu um presidente de direita. A Colômbia fez o mesmo e o Peru seguiu o mesmo caminho. Bastaram alguns dias para que uma interpretação ganhasse força: depois da chamada "onda rosa", a região estaria ingressando em um novo ciclo conservador. À primeira vista, a explicação parece convincente. Afinal, não seria a primeira vez que a América Latina alterna períodos de predominância da esquerda e da direita.

Mas talvez a sucessão dessas eleições esteja revelando um fenômeno mais profundo do que uma simples mudança de orientação ideológica. Quando observamos cada eleição isoladamente, a pergunta parece inevitável: a América Latina está caminhando para a direita? Quando ampliamos a lente e analisamos essas eleições em conjunto, outra questão começa a surgir. Talvez a principal transformação já não esteja na direção do pêndulo político, mas no tempo da própria política.

Durante décadas, a alternância entre governos foi interpretada como reflexo das mudanças nas preferências do eleitorado. Em determinados momentos, a sociedade aproximava-se de projetos liberais; em outros, buscava respostas em governos progressistas. Essa leitura continua válida, mas parece insuficiente para explicar a velocidade com que esses ciclos passaram a se suceder.

Há algo que permanece relativamente constante na política latino-americana: os governos mudam, mas os problemas continuam praticamente os mesmos. Segurança pública, crescimento econômico, custo de vida, corrupção, qualidade dos serviços públicos e desigualdade seguem ocupando o centro das preocupações da população, independentemente de quem esteja no poder.

O Brasil dificilmente ficará imune a essa dinâmica. A eleição de 2026 continuará sendo decidida principalmente por fatores internos, como economia, inflação, emprego, segurança pública e avaliação do governo

O que parece estar mudando não são os desafios enfrentados pelos governos, mas o tempo de que dispõem para convencer a sociedade de que são capazes de enfrentá-los. Durante décadas, os governos dispunham de um intervalo relativamente longo para implementar políticas, corrigir rumos e demonstrar resultados antes que sua capacidade de governar começasse a ser amplamente questionada. Hoje, esse tempo parece ter encolhido.

As instituições continuam funcionando praticamente no mesmo ritmo. Os mandatos permanecem com quatro ou cinco anos. Reformas estruturais continuam exigindo negociação, implementação e tempo para produzir resultados. A sociedade, porém, acelerou. As redes sociais reduziram drasticamente o intervalo entre uma decisão política e sua repercussão pública. A circulação instantânea de informações tornou permanente a comparação entre promessas e resultados. Crises econômicas e políticas atravessam fronteiras em velocidade inédita. A avaliação dos governos deixou de acontecer apenas durante as eleições. Ela passou a ser permanente.

O resultado é um descompasso crescente entre dois tempos distintos. De um lado, o tempo das instituições, que continua exigindo negociação, construção de consensos e maturação das políticas públicas. De outro, o tempo da sociedade, marcado pela velocidade da informação, pela comparação permanente e por expectativas cada vez mais elevadas.

É nesse intervalo que a legitimidade começa a se desgastar. Os governos continuam chegando ao poder com apoio popular, mas esse apoio parece durar menos. O mandato permanece o mesmo. O crédito político, não. Antes que muitas políticas consigam produzir resultados, parte da confiança que sustentava aquele projeto já começou a desaparecer.

Essa talvez seja a melhor explicação para a aceleração do pêndulo político. Ele não oscila mais rapidamente porque os eleitores tenham se tornado mais ideológicos. Oscila porque a legitimidade dos governos passou a se deteriorar mais cedo. O problema, portanto, não parece ser a alternância entre esquerda e direita, mas o encurtamento do tempo disponível para transformar legitimidade eleitoral em capacidade de governar.

Essa perspectiva também ajuda a relativizar explicações que atribuem as mudanças da região principalmente à influência de lideranças internacionais. Donald Trump exerce influência política e simbólica sobre parte da direita latino-americana, assim como outros líderes exercem influência sobre governos de esquerda em diferentes momentos.

Essas referências ajudam a moldar discursos e estratégias, mas dificilmente explicam, por si sós, os resultados das urnas. O eleitor colombiano continua votando pensando na Colômbia. O chileno decide olhando para os desafios do Chile. O peruano reage aos problemas do Peru. A força que move o pêndulo continua sendo, essencialmente, doméstica.

O Brasil dificilmente ficará imune a essa dinâmica. A eleição de 2026 continuará sendo decidida principalmente por fatores internos, como economia, inflação, emprego, segurança pública e avaliação do governo. Mas a experiência recente dos países vizinhos oferece um alerta importante. As eleições nesses países sugerem uma transformação mais profunda na relação entre governos e sociedade. O que chama a atenção é que a legitimidade continua sendo conquistada nas urnas, mas precisa ser convertida em capacidade de governar em um intervalo cada vez mais curto.

A alternância entre projetos políticos sempre fez parte das democracias. O que parece estar mudando é o tempo político dos governos. As instituições continuam produzindo mandatos de quatro ou cinco anos, mas a sociedade parece conceder uma janela cada vez menor para que eles demonstrem sua capacidade de responder às expectativas dos eleitores. Compreender esse descompasso talvez seja mais importante do que tentar antecipar para que lado o pêndulo irá oscilar na próxima eleição.

Eduardo Galvão é especialista em Risco Político e professor do Ibmec Brasília.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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