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No dia 14 de fevereiro de 2026, na Conferência de Segurança de Munique, Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos da América, fez mais do que um discurso diplomático. Ele apresentou um diagnóstico civilizacional e uma proposta explícita: Estados Unidos e Europa precisam agir juntos para impedir o declínio do Ocidente. Não se tratava apenas de Otan, Ucrânia ou orçamento militar. Tratava-se de identidade, herança e sobrevivência cultural.
Rubio começou lembrando que a aliança transatlântica derrotou o comunismo e reconstruiu um continente em ruínas. Mas fez a pergunta central: o que exatamente estamos defendendo? Exércitos não lutam por abstrações. Lutam por um povo, uma nação, um modo de vida. Ao recolocar essa questão no centro, ele deslocou o debate da técnica para a essência.
O diagnóstico é claro: o pós-Guerra Fria produziu uma ilusão. A crença no fim da história prometeu que comércio global, instituições multilaterais e fronteiras cada vez mais porosas substituiriam soberania, identidade e tradição. O resultado, segundo Rubio, foi desindustrialização, dependência estratégica e fragilização social.
A Europa tornou-se o exemplo mais visível desse processo. A potência industrial alemã enfrenta crise energética. A União Europeia convive com fragmentação política crescente. Estados de bem-estar ampliaram-se enquanto a base produtiva encolhia. Cadeias críticas de suprimento foram terceirizadas. A autonomia estratégica virou retórica.
Quando Rubio fala em apagamento civilizacional e mal-estar de desesperança, ele está descrevendo o efeito acumulado dessa corrosão intelectual que dissolveu fundamentos morais e substituiu herança por ressentimento
A isso se soma a migração em massa, que Rubio tratou não como tema moralizante, mas como questão de soberania. Controlar fronteiras não é xenofobia; é dever elementar de qualquer Estado. Sociedades não sobrevivem indefinidamente se perdem a coesão cultural que as sustenta.
Mas o declínio não começou em 1989. Ele tem raízes intelectuais mais profundas. Em Marx, a luta de classes substituiu a visão orgânica da sociedade por um conflito permanente entre opressores e oprimidos. Em Gramsci, a revolução deixou de ser apenas econômica e tornou-se cultural, com a tomada das instituições formadoras de consciência. A Escola de Frankfurt, com sua teoria crítica, passou a questionar não apenas o capitalismo, mas a própria tradição ocidental, incluindo família, religião e moralidade objetiva.
Dessa matriz nasceram desdobramentos contemporâneos como feminismo radical, ideologia de gênero, multiculturalismo acrítico, relativização da verdade e o chamado wokismo, dentre outros. A verdade deixou de ser objetiva para tornar-se construção social. A identidade passou a ser definida por pertencimento a grupos vitimizados. A cultura majoritária foi reclassificada como estrutura opressora. Quando Rubio fala em apagamento civilizacional e mal-estar de desesperança, ele está descrevendo o efeito acumulado dessa corrosão intelectual que dissolveu fundamentos morais e substituiu herança por ressentimento.
O pano de fundo filosófico do discurso remete diretamente à tese de O Lado Certo da História, em que Shapiro demonstra que o Ocidente floresceu porque uniu Jerusalém e Atenas, propósito moral judaico-cristão e razão grega. Quando essa síntese se rompe, resta apenas relativismo, hedonismo ou coletivismo autoritário.
Rubio ecoa essa leitura ao afirmar que a civilização ocidental está enraizada em fé, cultura e herança compartilhadas. Ele não pede nostalgia estética. Pede consciência histórica. A Capela Sistina, as universidades europeias, o Estado de Direito e a revolução científica são frutos de uma tradição moral específica.
Há também um claro traço burkiano no discurso. Edmund Burke ensinava que sociedades são contratos entre os vivos, os mortos e os que ainda nascerão. Rubio rejeita abstrações utópicas e defende reformas prudentes. Não destruir instituições internacionais, mas reformá-las. Não abandonar alianças, mas revitalizá-las.
O conservadorismo de Russell Kirk também está presente. Ordem moral permanente, continuidade histórica, prudência política e ligação entre liberdade e propriedade atravessam o discurso. Reindustrializar não é apenas política econômica. É recuperar soberania material. Defender fronteiras é preservar a forma concreta da comunidade política.
Politicamente, Rubio propõe um soberanismo cooperativo. Ele afirma que os Estados Unidos preferem uma Europa forte e capaz de se defender. Mas deixa claro que não aceitarão administrar o declínio alheio. O objetivo não é romper a aliança, mas restaurá-la em bases mais realistas e menos ideológicas.
A mensagem que fica é incômoda, mas desconcertantemente verdadeira. O declínio não é destino inevitável. É escolha. O Ocidente pode continuar relativizando seus valores, terceirizando sua soberania e desconstruindo sua identidade ou pode recuperar a confiança na tradição que o tornou próspero e livre. Munique não foi apenas um discurso diplomático. Foi um chamado à reconstrução civilizacional.
Zizi Martins é presidente do Instituto Solidez, graduada e mestre em direito, doutora em Educação, pós-doutora em Política, Comportamento e Mídia e estudante de jornalismo.



