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A “Odisseia” de Homero é um presente para nós

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Mosaico romano do século 2.º d.C. descrevendo o encontro de Odisseu (ou Ulisses) e as sereias. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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“Canta em mim, ó Musa, e por meu intermédio conta a história daquele homem hábil em todas as formas de luta e astúcia, o errante que, durante tantos anos, vagou sem descanso depois de saquear a fortaleza erguida sobre a altiva Troia.” Assim começa a Odisseia, de Homero.

Há muito tempo lancei meu navio em busca do verdadeiro, do bom e do belo. Muitas vezes, porém, parecia estar me chocando contra o rochedo do bom, do mau e do feio, de Clint Eastwood.

Nos últimos anos, tive a oportunidade de reler a Odisseia, de Homero. Também tive o prazer de ouvi-la sendo lida em voz alta, uma experiência talvez semelhante à vivida pelos ouvintes durante vários séculos após a época de Homero. Enriqueci ainda mais esse convívio com o poeta lendo Homeric Moments, de Eva Brann, como obra complementar à Odisseia.

Nessas obras – e também em minha própria vida – percebi que a existência pode ser emocionante, plena e devastadora ao mesmo tempo. Ela pode ser repleta das alegrias do amor, da família e de uma carreira frutífera. Mas, por vezes, essa alegria se transforma em angústia quando enfrentamos desafios como a perda do emprego, o rompimento de uma família ou o peso das dívidas.

Lendo, relendo e ouvindo a “Odisseia”, percebi que a existência pode ser emocionante, plena e devastadora ao mesmo tempo

Em alguns momentos, desejei juntar-me aos comedores de lótus, aqueles que se recusam a encarar a realidade e buscam refúgio no esquecimento. Mais de uma vez encontrei-me aprisionado por um ciclope, um adversário de força imensa e visão estreita. Tomando certa licença poética, admito que vivi relacionamentos que, aos olhos dos outros, pareciam ideais – verdadeiras Calipsos de beleza irresistível. Ainda assim, para crescer e florescer, precisei, como Odisseu, buscar meu lar.

Mais de uma vez contei minha história a amistosos feácios que, comovidos por minhas lágrimas pelos amigos perdidos e pela saudade de casa, ofereceram-se para levar-me, em um veloz navio, até o lar que é minha Ítaca. E, depois de vagar perdido por quase 20 anos, tive a felicidade de finalmente me encontrar em casa, nos braços do meu único e verdadeiro amor.

“Então, do peito aos olhos, subiu-lhe a dor da saudade, e ele enfim chorou. Tinha nos braços sua querida esposa, pura e fiel. Ansiava por ela como a terra aquecida pelo sol é ansiada pelo nadador exausto que sobreviveu ao mar revolto, depois que seu navio afundou sob os golpes de Posêidon, entre ventos impetuosos e toneladas de água. Poucos conseguem atravessar as ondas gigantes e alcançar, cobertos de sal, uma praia acolhedora, alegrando-se, alegrando-se por deixar o abismo para trás. Assim também ela se alegrava, contemplando o marido, apertando ao redor dele seus braços alvos, como se jamais quisesse soltá-lo.”

O reencontro de Odisseu e Penélope me inspira profundamente. Encontrei minha Penélope e sou grato por isso. Homero, criador e poeta, me inspira.

A Odisseia de Robert Fitzgerald

Robert Fitzgerald exerceu enorme influência sobre mim. Poeta, jornalista, professor e tradutor de Homero, ele dedicou seis anos de sua vida à tradução (ou melhor, à recriação poética) da Odisseia, e mais quatro anos à tradução da Ilíada. Ele escreve:

“Depois de conviver com o poema por algum tempo, senti-me profundamente ligado não apenas a Odisseu, mas também à sua protetora, a grande deusa Atena, que de tempos em tempos lhe aparecia sob forma humana para lhe dar coragem quando mais precisava. Certa vez ela até surgiu como uma menininha de tranças. Tive, então, a oportunidade de visitar a Grécia pela primeira vez... O sol resplandecente e o ar cristalino pareceram-me imediatamente uma espécie de elixir divino, um meio do qual um deus poderia surgir a qualquer instante.”

Imagino seu rosto ao voar para Creta. Os anfitriões do hotel não falavam inglês; ele, por sua vez, não conhecia o grego moderno. Sentindo-se solitário após o jantar, saiu para caminhar. Já fazia anos que trabalhava na tradução de Homero:

“Consegui jantar e depois saí vagando pelas ruas, sentindo cada vez mais aquela solidão peculiar que nasce de não conhecer ninguém e de não falar nem compreender a língua do lugar. Por fim, parei diante da vitrine de uma sapataria, muito desanimado, quando ouvi uma voz dizer: ‘Boa noite, senhor!’

Que alegria! Meu coração saltou de felicidade. Olhei para cima e vi uma menina de 11 ou 12 anos, de longas tranças, parada à porta e sorrindo. ‘Boa noite para você também!’, respondi. ‘Como é bom ouvir alguém falar inglês! Qual é o seu nome?’ Ela respondeu: ‘Ah, eu sou Atena’.

Aquela menina não disse que seu nome era Atena; ela disse que era Atena. Bastaram alguns minutos de conversa para devolver-me a coragem.”

Robert Fitzgerald, poeta e tradutor de Homero, inspirado por Atena, me inspira.

Vivemos em um mundo de mensagens de 280 caracteres. Estamos constantemente distraídos. Talvez fosse sábio voltar a escutar as maiores histórias de nossa tradição

A Odisseia de Eva Brann

Eva Brann deixou Berlim em 1941, viajando com sua mãe em um trem lacrado; foi o último trem com judeus que os nazistas permitiram que saísse da Alemanha. Foi expulsa por um regime monstruoso de queimadores de livros. Finalmente, em 1957, encontrou seu novo lar no St. John’s College, uma instituição dedicada aos grandes livros. Há certa justiça poética nessa jornada.

Ela escreve em Homeric Moments: Clues to Delight in Reading the Odyssey and the Iliad: “Ler os poemas de Homero é um dos prazeres mais puros e inesgotáveis que a vida pode oferecer – um segredo talvez bem guardado demais em nosso tempo”. Em toda a sua obra e em seu ensino, Eva Brann é um exemplo do aprendizado liberal. Amante de Homero e intérprete de suas histórias, ela me inspira.

Vivemos em um mundo de mensagens de 280 caracteres. Estamos constantemente distraídos. Muitas vezes esquecemos de ouvir. Talvez fosse sábio voltar a escutar as maiores histórias de nossa tradição. Penso que vale a pena retornar mais uma vez a Robert Fitzgerald, quando ele relata outro momento marcante vivido durante sua tradução da Odisseia. Ele conta ter visitado uma enseada onde, segundo a tradição, “os feácios deixaram Odisseu adormecido ao chegar à praia”. Um morador aproximou-se e lhe disse:

“‘Sabe, nós dizemos que ele nunca morreu. Dizemos que, de vez em quando, ele ainda aparece, parecendo um soldado, ou um capitão do mar... ou simplesmente... um estranho.’ O homem fez uma pausa e olhou serenamente para mim. E ali, sob o sol ardente, estremeci da cabeça aos pés. Não consegui dizer uma palavra. Apenas baixei a cabeça e continuei caminhando... Era assim que os deuses costumavam aparecer aos mortais, surgindo do luminoso ar do Mar Egeu; ou como os mensageiros do céu apareciam aos homens em outra paisagem mítica. Podemos ter tanta certeza assim de que tudo isso não passa de sonho ou fantasia? Podemos cultivar em nós mesmos – e uns nos outros – essa abertura para a expectativa, para que os misteriosos presentes da experiência, os estranhos êxtases e maravilhas, dons cuja origem desconhecemos, não passem despercebidos.” (Essas duas histórias foram contadas por Fitzgerald em um discurso de formatura no St. John’s College)

O aprendizado liberal é uma aventura para toda a vida, uma odisseia da mente e do espírito

A alegria do aprendizado liberal está justamente em nos abrir para os dons que vêm de lugares que desconhecemos. O aprendizado liberal é uma aventura para toda a vida, uma odisseia da mente e do espírito. Seu propósito não é apenas nos preparar para ganhar a vida, mas nos ajudar a construir uma vida extraordinária.

Nas tempestades inevitáveis, quando me vejo entre Cila e Caríbdis, lembro-me de que não estou sozinho. Rezo para que seus amigos compreendam que a jornada deles não estará completa sem você, que o acolham em seus braços, oferecendo-lhe conforto e conduzindo-o suavemente até sua ilha natal. Espero que uma Atena o guie e que Odisseu jamais morra em seu coração.

E lembre-se: a Odisseia de Homero é um presente.

W. Winston Elliott III é editor-chefe de The Imaginative Conservative, diretor do Santuário de Nossa Senhora de Walsingham, professor visitante de Artes Liberais no Honors College da Universidade Cristã de Houston, e tem formação em Artes Liberais, Teologia e Administração. Este artigo surgiu de uma conferência a alunos de último ano do Honors College e revisada para publicação.

©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: Homer’s “Odyssey” Is a Gift

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