
Ouça este conteúdo
O olhar sobre a problemática geopolítica no Estreito de Ormuz, neste momento, envolve diversas facetas, desde aquelas vinculadas aos efeitos imediatos na economia. Basta ver que, em poucos dias, o Brent já encosta em quase 100 dólares o barril, isso só enquanto este artigo estava sendo elaborado. As operadoras marítimas já buscam rotas alternativas, aumentando o custo do frete, da logística, do seguro etc. Essas variáveis econômicas e o estrangulamento do estreito já começam a gerar efeitos na ponta, nos países importadores de petróleo, gás e até mesmo fertilizantes.
Todavia, eu gostaria de trazer reflexões sobre a inflexão marítima em Ormuz do ponto de vista estratégico, militar e geopolítico clássico, com contornos essenciais ao entendimento do que pode se tornar uma guerra de atrito marítima. Pela lógica do atrito, neste contexto, Teerã ainda possui grande domínio, como mísseis navais, drones [os famosos drones enviados aos russos], pequenas embarcações rápidas, mísseis antinavio na costa, minas navais, guerra híbrida e sabotagem. Em resumo, cada navio passa a ser um risco geopolítico.
Israel está nesta conjuntura como um catalisador, deixando uma complexidade adicional ao sistema naval liderado pelos americanos. O desafio para Washington será a manutenção de uma mínima ordem operacional no estreito, protegendo parceiros no Golfo e impedindo que o Irã utilize Ormuz como uma chantagem permanente, em termos estratégicos e assimétricos. Mesmo que os Estados Unidos e aliados criem um corredor protegido, os comboios não eliminam o atrito, seja com um drone barato, mísseis costeiros ou minas navais, gerando uma saturação complexa.
No plano tático, uma guerra de atrito em Ormuz beneficia o Irã; todavia, em termos estratégicos e de longo prazo, inclina-se a favorecer a tecnologia marítima americana, mas castigando o plano econômico e comercial. Quem perde mais, por primeiro, é o comércio. Quem tem de pagar rápido são os importadores de energia. Quem, porventura, subestima o gargalo marítimo terá de aprender geopolítica com um alto investimento.
Washington não necessariamente precisa invadir o Irã para manter o estreito de Ormuz aberto, ao mesmo tempo em que não consegue garantir segurança plena sem a neutralização da costa iraniana
Para que os Estados Unidos passem a ter o controle relativo de Ormuz, não se exige necessariamente uma incursão terrestre [mesmo que essa já esteja de prontidão]. Agora, um controle mais duradouro exigiria uma incursão terrestre no Irã. A cada dia que passa, esta é a dúvida do gabinete de crise, da sala de guerra. Assim, poderíamos projetar três níveis de controle possíveis, que exigem, por certo, distintas capacidades táticas e estratégicas.
O primeiro seria um controle naval temporário, onde os Estados Unidos conseguem manter o estreito por meios navais e aéreos [sem uma invasão terrestre]. Isso envolveria porta-aviões, patrulha aérea de forma constante, navios varredores [guerra de minas], destróieres (que são navios mais rápidos) com defesa antimíssil e logística para escolta de petroleiros e navios mercantes. Isso funciona para reduzir ataques, mas não elimina os riscos por completo.
O segundo seria uma espécie de supremacia marítima relativa, com algum nível avançado de neutralização costeira. Aqui entra o desafio mais perturbador, uma vez que, em um contexto de guerra híbrida, Teerã possui suas minas navais, drones, mísseis antinavio (na costa), baterias móveis e embarcações de ataque rápido. Tudo isso está, em grande parte, concentrado na província iraniana de Hormozgan, ao longo do Golfo.
Para enfrentar este cenário, Washington teria prioridades como a destruição de radares costeiros, neutralização de depósitos de minas, ataque direto às bases da Guarda Revolucionária e destruição dos lançadores móveis de mísseis. Este cenário ainda não necessitaria de uma incursão terrestre. Isso pode ser conduzido com ataques aéreos, com auxílio de inteligência de Israel e com ataques de precisão. O Irã ainda manteria uma capacidade de assédio intermitente.
VEJA TAMBÉM:
O terceiro seria o controle absoluto do estreito. Isso garantiria zero interferência iraniana no processo e demandaria algumas ações relevantes como, por exemplo, a ocupação terrestre de grande parte da costa iraniana, a destruição definitiva da infraestrutura militar da Guarda Revolucionária e o controle de algumas ilhas estratégicas, como as ilhas de Ormuz, Larak e Qeshm. Aqui, as operações anfíbias e a consequente ocupação seriam inevitáveis. Tal atitude significaria abrir uma guerra direta com o Irã, certamente com um alto custo econômico, político e militar, enquanto o pivot estratégico dos Estados Unidos, pela sua nova Estratégia de Segurança Nacional, está focado no Hemisfério Ocidental.
A grande questão é se realmente seria racional investir nesta guerra marítima assimétrica. O ponto mais estreito em termos de largura em Ormuz é de aproximadamente 39 km, sendo que as rotas utilizáveis de navegação têm poucos quilômetros cada, trazendo uma vantagem tática para o Irã, já que um míssil costeiro pode ameaçar um petroleiro de milhões. Assim, esta conjuntura de atrito marítimo acaba favorecendo o lado mais fraco.
As questões conclusivas que posso trazer são que Washington não necessariamente precisa invadir o Irã para manter o estreito de Ormuz aberto, ao mesmo tempo em que não consegue garantir segurança plena sem a neutralização da costa iraniana. Assim, se buscarmos um funil de futuro, o cenário que aponta ser o mais provável até aqui são os ataques aéreos em larga escala contra toda a infraestrutura costeira, escolta naval e uma guerra de minas intensa. Uma guerra marítima limitada, sem ocupação territorial.
Há outra questão relevante também. O Irã não precisaria fechar o estreito por semanas. Basta demonstrar que consegue parar o fluxo quando quiser, elevando o valor do petróleo e gerando excessivas inseguranças no maior corredor energético do planeta. Isso é o que estamos vendo no momento: aumento do Brent, queda em bolsas, aumento no custo do transporte marítimo. Estamos a vivenciar uma possível guerra assimétrica neste corredor e os Estados Unidos, juntamente com Israel, devem determinar qual cenário seria o “menos pior”. Este artigo não pretendeu analisar as revoluções internas e políticas do Irã, senão o componente de uma frente relevante e de alto impacto: como conduzir a melhor estratégia em Ormuz.
Cezar Roedel, doutor em Filosofia, mestre em Relações Internacionais, bacharel em Relações Internacionais, é docente universitário, palestrante e consultor em política internacional.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







