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Antonio Cabrera

Os EUA e o notável avanço da carne brasileira

A Bloomberg publicou uma matéria sobre a carne nos EUA que mostra, na realidade, o notável salto de produtividade do setor no Brasil. (Foto: Skull Kat/Unsplash)

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A Bloomberg publicou uma matéria sobre a carne nos EUA que mostra, na realidade, o notável salto de produtividade do setor no Brasil. A reportagem sugere que os preços da carne bovina podem ser o problema dos ovos do governo Biden.

Os preços subiram por oito meses consecutivos, sem ajuste sazonal, com agosto marcando o maior aumento mensal em quase quatro anos, de acordo com os dados mais recentes do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA. A publicação deixa claro que esse desabastecimento e disparada nos preços é consequência da taxação sobre a carne brasileira. Para entender a performance da pecuária brasileira, vamos conferir alguns dados.

Nesse ano de 2025, o Brasil tem 86 milhões de vacas com idade superior a 24 meses, ou seja, um número igual ao total do rebanho americano.  Basta imaginar que teremos um rebanho americano no Brasil em idade de reprodução, produzindo bezerros.

Em 2024, o que o Brasil exportou é praticamente o que a Argentina, um de nossos principais concorrentes produziu no total no mesmo ano. Mais ainda, entre 2004 e 2019 o Brasil registrou um crescimento do rebanho de 204 milhões para 213 milhões de animais sem aumentar um ha de terra sequer. Ao mesmo tempo, a produção cresceu de 5,9 milhões de toneladas (2004) para 8,2 milhões de toneladas (2019), um incremento de 39%. O peso da carcaça saltou de 228 kg para 253 kg. Considerando a produtividade da década de 1970, hoje seriam necessários ocupar 418 milhões de hectares (ha) de terra, algo como quase 3x mais os atuais 162 milhões de ha que a pecuária usa.

Isso significa que a área poupada é superior a 256 milhões de ha, ou o equivalente ao tamanho de 9 estados americanos que mais pecuária tem nos EUA (Oklahoma, Texas, Kansas, Iowa, Wisconsin, Nebraska, South Dakota, Missouri e Califórnia) e que representam 54% da pecuária americana (Embrapa). Ou representa a uma área equivalente a 10 países europeus com o maior efetivo bovino na União Europeia e que representam 84% do rebanho atual destes países: França, Alemanha, Espanha, Holanda, Bélgica, Irlanda, Itália, Holanda, Romênia e Áustria.

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O importante é que não atendemos apenas o mercado interno de carne, mas também não deixamos faltar o produto em nossas gôndolas. Pelo contrário, esse aumento de produtividade trouxe um forte aumento no poder aquisitivo do brasileiro:  em Janeiro de 1995, um salário mínimo comprava 16,32 kg de coxão de dentro.  Mas em fevereiro desse ano, o mesmo salário mínimo adquiria 31,26 kg (IEPE/UFRGS).

A matéria da Bloomberg termina afirmando que um comerciante declarou que "todos têm comprado produtos e tentado se antecipar a isso. Mas eu simplesmente não acredito que haja volume suficiente para atender à demanda.  E arremata afirmando que "a única pessoa que realmente sai prejudicada com tudo isso é o consumidor americano". Errado.

Também o consumidor de carne brasileiro sairá perdendo, ao contrário do que certos políticos propagandeiam por aqui, justificando que a carne ficará mais barata. A contrário, hoje os cortes de carne do dianteiro representam 70% das exportações de carne bovina aos EUA. Se perdermos esse cliente, haverá um descasamento nos cortes da carne e certamente teremos um reajuste de preços para os brasileiros.

Antonio Cabrera foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária. 

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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