
Ouça este conteúdo
O atual conflito entre EUA e Israel contra o Irã pode ser analisado sob vários pontos de vista. Este ensaio visa abordar alguns deles e, prioritariamente, os geopolíticos e as suas consequências geoeconômicas.
A guerra atual não começou no sábado, 28 de fevereiro, mas com os ataques do Hamas, proxy iraniano, a Israel, em 7 de outubro de 2023, nos quais mais de 1.200 pessoas foram mortas e mais de 250 tornadas reféns pelo grupo terrorista. Além da resposta israelense diretamente contra o Hamas, na qual o número de fatalidades entre palestinos ultrapassa 70.000, segundo várias fontes, Israel, além de praticamente eliminar a capacidade operacional desse grupo armado, atacou e reduziu expressivamente o poder militar de vários outros proxies iranianos, como o Hezbollah, os Houthis e outros que agem na Cisjordânia, Iraque e Síria. Em determinado momento, as Forças de Defesa de Israel estavam lutando, simultaneamente, em sete frentes de combate, incluindo o próprio Irã.
Dando prosseguimento à guerra entre Israel e Irã, em 22 de junho de 2025, os EUA desencadearam, de forma combinada com Israel, a Operação Midnight Hammer, que envolveu bombardeiros B-2 Spirit, mísseis Tomahawk e cerca de 125 aeronaves, atingindo Fordow, Natanz e Isfahan. Foi o primeiro ataque direto dos EUA ao território iraniano desde 1988, no que ficou conhecido como “Guerra dos 12 Dias”. Na ocasião, americanos e israelenses obtiveram superioridade aérea significativa, voando com certa liberdade pelos céus iranianos para destruir alvos de interesse operacional, inclusive os relacionados ao programa nuclear do país. Em consequência dessas operações, dos danos sofridos ao longo de mais de dois anos de guerra, além das sanções econômicas impostas ao país persa devido a seu programa nuclear, o Irã nunca esteve tão fragilizado e vulnerável a ações militares como em fevereiro de 2026.
Do ponto de vista jurídico, todos os países envolvidos no conflito atual violaram o Direito Internacional: EUA e Israel atacaram um país soberano sem justificativa para legítima defesa e sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU. Tel Aviv descreveu a ofensiva como “operação antecipatória e precisa” para neutralizar instalações nucleares iranianas, invocando o Artigo 51 da Carta da ONU (legítima defesa) ante o risco existencial, sem esperar ataque armado direto, o que é contestado majoritariamente pelos operadores do Direito Internacional. Da mesma forma, o Irã, contrariando a mesma norma, também recorreu à autodefesa para justificar suas retaliações contra nove países da região, além de bases inglesas e francesas, sendo que nenhum desses Estados participou direta ou indiretamente dos ataques israelo-americanos. Além disso, supostamente há violações por parte do programa nuclear iraniano, que teria enriquecido urânio a 60%, muito acima do necessário para fins pacíficos, e no apoio e patrocínio a ações terroristas pelo mundo, sobretudo no Oriente Médio, além dos constantes ataques diretos e indiretos a Israel.
Objetivos políticos da guerra
Dito isso, quais seriam os objetivos políticos da guerra por parte de ambos os contendores? Da análise das ações, depreende-se que a coalizão EUA-Israel pretende assegurar o fim do programa nuclear iraniano, em primeiro lugar, já que alega que o país segue buscando o enriquecimento de urânio e a construção de artefatos nucleares, o que elevaria o risco regional, e mesmo global, a níveis intoleráveis. Em segundo lugar, busca-se uma reforma política no país, no qual impera uma ditadura teocrática cruel que, além de promover e patrocinar o terrorismo regional e global e desestabilizar toda a região, reprime sua própria população de maneira absolutamente inaceitável, como na eliminação de 3.117 pessoas, segundo a mídia estatal iraniana, podendo esse número passar de 20.000, segundo várias outras fontes, somente durante as manifestações das últimas semanas. Com o expressivo enfraquecimento do governo, somado a ações de inteligência e cognitivas junto à população, é possível que haja inclusive uma queda do atual regime. Por último, o terceiro objetivo da guerra seria uma reconfiguração interna que reduza a autonomia estratégica do regime e produza alinhamentos mais compatíveis com os interesses dos EUA na região.
Por outro lado, os objetivos da guerra para os iranianos seriam, inicialmente, a sobrevivência do regime, o que já vem ocorrendo há décadas diante de ações diretas e indiretas de inimigos diversos. O segundo grande objetivo continua sendo a eliminação do Estado de Israel, ainda que, dadas as atuais condições materiais do Irã, isso significaria apenas aumentar ainda mais o desgaste reputacional causado desde as reações aos ataques terroristas de 7 OUT, extensivos aos EUA, que também sofrem com perda do apoio de parte da opinião pública interna e externa.
Objetivos militares
Para alcançar os seus objetivos políticos, a coalizão EUA-Israel estabeleceu os seguintes objetivos militares: o primeiro deles seria a decapitação da liderança política e militar do Irã, eliminando líderes e comandantes e destruindo a infraestrutura de quartéis-generais e de comando em geral. Espera-se, com isso, que o país mergulhe em uma crise política e institucional e que seja incapaz de conter eventuais revoltas populares. O segundo objetivo seria a redução do poder militar do Irã, principalmente suas estações de lançamento de mísseis balísticos, defesa antiaérea, depósitos de munição, ativos navais (destruirá toda a Marinha de Guerra iraniana?), bem como instalações e meios da Guarda Revolucionária, principal força militar do país. Com isso, espera-se que o regime não disponha mais de meios para atacar países vizinhos ou mesmo para oprimir sua própria população. Por último, também seria um objetivo militar a destruição completa dos meios utilizados para o programa nuclear, já bastante debilitados durante a Guerra dos 12 Dias.
Cabe destacar que esta é uma operação multidomínio altamente complexa e sincronizada, com ações navais, aéreas, terrestres (ainda que, até o momento, muito limitadas), cibernéticas, espaciais e cognitivas, e vai muito além de um simples ataque à infraestrutura iraniana, como eram essas ações em muitas guerras passadas. Está coordenada com a decapitação do regime e com movimentos populares internos, orgânicos e/ou patrocinados por órgãos de inteligência da coalizão.
O Irã, por seu lado, pode tentar restringir voos sobre seu território, o que já não alcançou na Guerra dos 12 Dias, causar baixas nas tropas atacantes e preservar sua cadeia de comando e a integridade de suas forças militares, principalmente a Guarda Revolucionária. Tem atacado países árabes na região e aqueles que considera que, de alguma forma, tenham apoiado a coalizão, esperando algum tipo de reação estratégica favorável, possivelmente a escalada do conflito. Nos dois primeiros dias de guerra, nove países regionais foram atingidos, além de bases americanas, francesas e inglesas. Por enquanto, esse objetivo não foi atingido, exceto por este último país, que, em patrulhas aéreas defensivas, já derrubou dois drones iranianos, no Qatar e no Iraque, além de autorizar o uso da Base de Diego Garcia pela coalizão. Além de ataques diretos, os proxies iranianos também estão realizando ações hostis, como o Hezbollah, que disparou mísseis sobre Israel, e milícias iraquianas, que atacaram com drones a base americana em Erbil, ao norte do país.
Outro objetivo esperado é o fechamento do Estreito de Ormuz por meio de ações cinéticas e/ou não cinéticas. Três navios-tanque foram atingidos, sistemas de navegação por GPS sofreram interferência e houve ameaças generalizadas pelo rádio, fazendo com que, devido a riscos altos, não mais cobertos por seguro, esse objetivo tenha sido atingido. Isso pode ser agravado se o Irã lançar minas no mar, retardando a abertura do estreito por tempo indeterminado após o final do conflito.
Internamente, o Irã deve empregar suas forças de segurança para manter a estabilidade por meio de repressão armada contra a própria população, como a usada nas manifestações do início do ano. Pode, ainda, fomentar ações de terrorismo na região ou globalmente.
Objetivos geopolíticos
Chegamos, por fim, aos objetivos geopolíticos dos EUA com esta guerra, capazes de, tendo a geografia como condicionante, alterar a distribuição de poder mundial. O primeiro objetivo seria obter o controle do território e das condições de acesso ao petróleo do Golfo – especialmente o Estreito de Ormuz e as linhas marítimas – como alavanca de contenção/estrangulamento estratégico da China, ampliando sua vulnerabilidade energética e reduzindo sua liberdade de manobra sistêmica. Com isso, exerceria o controle sobre cerca de 25% das exportações mundiais de óleo que, somadas ao produzido no Hemisfério Ocidental, que chegam a cerca de 35%, trariam uma vantagem estratégica enorme aos EUA com relação à China, que produz apenas 5% e importa cerca de 10% de tudo o que é produzido no mundo. Pequim, talvez se preparando para choques como esse, já vinha estocando óleo em grandes quantidades ultimamente. Soma-se a isso o controle atual exercido pelos americanos sobre o petróleo venezuelano, que, até dois meses, também abastecia a China.
O segundo objetivo, bastante conectado com esse primeiro, é o isolamento da China e da Rússia, também por via terrestre, do Oriente Médio. Esses dois países vinham usando ligações ferroviárias com o Golfo Pérsico para reduzir tempo e, no caso da China, evitar os Estreitos de Ormuz e de Málaca, além de aumentar as chances de burlar as sanções ao Irã e à Rússia. Com o bombardeio aos portos de Bandar Abbas e de Asaluyeh, somado ao fechamento de Ormuz, a China perdeu temporariamente o acesso ao petróleo do Golfo, responsável por 40% de suas necessidades diárias. Já Moscou também perderia o controle sobre importante rota terrestre, o Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul, ligando Moscou a Bandar Abbas por ferrovias, e um país aliado importante na região. Essas ferrovias possivelmente foram usadas para a importação de meios militares pelo Irã entre a Guerra dos 12 Dias e o início do atual conflito.
O terceiro objetivo seria garantir a estabilidade no Oriente Médio por meio de um Irã fraco e subordinado aos interesses dos EUA e de um reconhecimento formal iraniano à existência do Estado de Israel. Com isso, os EUA poderiam deslocar grande parte do poder militar estacionado nessa região para outras, como o Extremo Oriente, objetivo geopolítico mais importante para os americanos. Por último, os EUA também impediriam o Irã de promover e exportar o terrorismo para a região e outras partes do mundo, incluindo o próprio território americano.
À luz de Mahan, o Estreito de Ormuz é um clássico chokepoint, cuja garantia, ou negação ao oponente, condiciona a projeção de poder marítimo global. Já, segundo Spykman, outro clássico da Geopolítica, o Oriente Médio integra o Rimland, ou as fímbrias euroasiáticas, espaço decisivo de contenção ou cerco de potências continentais, especialmente a China e a Rússia. Isso reforça a tese de que o conflito não é apenas regional, mas, principalmente, parte da rivalidade sistêmica entre EUA e China pela configuração do tabuleiro euroasiático e global.
Convém destacar que esses objetivos geopolíticos, de guerra (políticos) e militares podem ser alcançados no campo de batalha ou em uma negociação, neste caso com o Irã muito mais enfraquecido e isolado. Há indícios de que os lados consideram voltar à mesa para conversas.
Em pouco mais de 72 horas desde o início do conflito, ainda é cedo para predições sobre a consecução desses objetivos. Por enquanto, não há sinais de que Rússia e China, dois aliados internacionais, prestarão algum apoio material ao Irã. A coalizão, com supremacia aérea sobre o território inimigo, continua a reduzir o poder militar persa. A decapitação do regime iraniano, que criou um vácuo inicial de poder, incluindo a morte do aiatolá Khamenei, aparentemente não resultou em efeitos práticos imediatos. O Irã e seus grupos proxies continuam a atacar alvos em toda a região, mas, por enquanto, nenhum Estado entrou na guerra, mantendo apenas suas ações de autodefesa, protestos diplomáticos e medidas econômicas. A única expansão observada foi contra grupos armados, principalmente o Hezbollah, que passou a ser atacado duramente por Israel após lançar mísseis contra aquele território. Mesmo sem desfecho temporal à vista, já se podem antever algumas consequências geoeconômicas da guerra no curto e no médio prazo.
Consequências geoeconômicas
No curto prazo, a primeira consequência é a alta do preço do petróleo, fruto da diminuição da produção e exportação através do Estreito de Ormuz. JP Morgan e Barclays estimam que o preço do barril possa chegar a 130 dólares. Mesmo com o aumento da produção anunciado pela Opep, o risco continua alto, principalmente se o Irã lançar minas nesse chokepoint, o que prolongaria a situação por tempo muito mais longo. Outro risco é o ataque iraniano a instalações de produção e exportação do produto, o que já começou a acontecer no terceiro dia de guerra. Estimuladas pelo preço do petróleo, podem subir também a inflação e os juros. Também pode haver atrasos em cadeias globais e aumento do custo do frete e da logística como um todo. Outra consequência esperada é o aumento do dólar e do ouro, fruto da demanda, como forma de atenuar riscos econômicos. Por último, a guerra também poderá ocasionar turbulência nas bolsas ao redor do mundo.
No médio prazo, Israel pode se tornar uma potência ainda mais relevante no nível regional e, ainda, expandir o Acordo de Abraão para outros países, fortalecendo-se e isolando mais o Irã. Os EUA, por sua vez, aumentarão seu poder no nível global, ampliando as vulnerabilidades chinesas na área estratégica da energia, além de permitir aos EUA maior foco militar face ao maior rival, China, deslocando tropas do Oriente Médio para o Extremo Oriente. Uma derrota do Irã, uma das chamadas “potências revisionistas”, também poderá causar danos à imagem de China e Rússia como pretensos líderes em uma nova ordem multipolar, principalmente se esses dois países não prestarem nenhum tipo de apoio material adicional ao aliado durante o conflito.
Esse aumento de poder poderá ter reflexos também para o Hemisfério Ocidental, particularmente sobre o Brasil, com consequências para sua soberania. O risco de pressões diretas ou indiretas por alinhamento, sobretudo em áreas estratégicas, como minerais críticos, energia e cadeias tecnológicas, aumentará. Outro alvo provável seria o regime de Cuba, já em situação bem crítica no momento.
Se fracassarem e o regime iraniano sobreviver, voltando a se fortalecer, com apoio da China e da Rússia, únicas capazes de ainda fornecer suporte material a Teerã, a grande estratégia americana sofrerá alto impacto negativo, levantando questionamentos sobre sua alegada superioridade global. Também provavelmente trará elevado impacto interno nos EUA, com reflexos nas eleições do final de 2026.
André Luis Novaes Miranda, general de Exército da reserva, foi comandante de Operações Terrestres do Exército e, atualmente, é assessor especial de Geopolítica na Diretoria Internacional da Fundação Getúlio Vargas.







