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A pesquisa Quaest desta quarta-feira apontou uma margem apertada entre Flávio e Lula, de 43 a 47 versus 42 a 46, com empate técnico. Na véspera do primeiro turno, várias pesquisas nacionais colocavam o atual presidente à frente, e todas haviam subestimado o senador.
Pesquisa é diagnóstico, e não prognóstico. Mas, quando os institutos acertam um candidato e erram o outro largamente, é razoável desconfiar de que existe um grupo de eleitores que a régua não alcança. Isso tem nome: o voto envergonhado. Exercícios de futurologia são absolutamente dispensáveis, e quem diz cravar um resultado faz um exercício temerário. Este autor, diferentemente, acredita que há motivos para supor que o voto envergonhado pode crescer até domingo.
A expressão vem do Reino Unido. Em 1992, as pesquisas indicavam empate ou leve vantagem trabalhista, e o Partido Conservador de John Major venceu com cerca de sete pontos de frente. Os institutos britânicos concluíram, enfim, que parte dos eleitores conservadores não admitia o voto ou se recusava a responder. Nascia o shy Tory, o conservador tímido, que reapareceria em versões atualizadas no Brexit e na primeira eleição de Donald Trump, em 2016.
Quando os institutos acertam um candidato e erram o outro largamente, é razoável desconfiar de que existe um grupo de eleitores que a régua não alcança
É aqui que entra o “Exército do Lula”, que deu nova vida à campanha lulista. O vocabulário é militar — tropa, missão, avante, explode — e tem uma operação absolutamente disciplinada e centralizada. Mobilizar apoiadores faz parte do jogo eleitoral, é um importante sinal da vitalidade da campanha, e Flávio tem a sua própria Tropa. Mas há um efeito que é praticamente invisível: um constrangimento espalhado, que passa a tratar o voto em Flávio como socialmente mal visto, que tende a se calar para evitar um rótulo moral pronto, inclusive em pesquisas.
Não é bem a espiral do silêncio da cientista política alemã Noelle-Neumann, porque Flávio terminou o primeiro turno em vantagem e seus apoiadores são influenciadores de alto engajamento, representando um anseio de mudança. O que se percebe é que, para parte desse eleitorado, o custo de se expor ficou mais alto que o benefício. Quem vota em Flávio por antipetismo, pelo preço do supermercado ou por desconfiança do governo, e não necessariamente por devoção ao sobrenome, não quer passar a semana discutindo no grupo da família, nem ver o colega de trabalho reagir ao seu post. É como o torcedor que vai ao Maracanã com a camisa por baixo do casaco. E quem se cala na rede, com frequência, também se cala, ou não revela seu voto nas pesquisas.
Há, evidentemente, ressalvas. Nos Estados Unidos, o relatório da Associação Americana de Pesquisadores de Opinião Pública sobre 2016 concluiu que o erro se explicava menos por eleitores mentindo e mais por decisões de última hora e pela sub-representação de tipos específicos. Isso também pode ocorrer no Brasil. E também é preciso registrar que o constrangimento não é monopólio de um lado: há eleitores de Lula que preferem não se declarar em certos ambientes de trabalho, igrejas ou cidades do interior.
Ainda assim, a combinação de um erro assimétrico no primeiro turno com uma máquina de mobilização digital sem precedentes merece mais do que um dar de ombros. As pesquisas desta semana podem estar medindo o resultado do barulho da rede e não identificando o voto de quem decidiu não fazer barulho. Cabe perguntar se o Exército de Janones, ao conquistar a internet, não está empurrando para o silêncio justamente o eleitor que só vai se manifestar no domingo, diante da urna, onde ninguém comenta, curte ou compartilha, e que deseja uma mudança. É possível que a vantagem seja maior do que meio ou um ponto.
Felipe Rodrigues é cientista político, jornalista e mestre em Ciência Política. É professor de pós-graduação em Comunicação Política e Marketing Eleitoral no IDP.



