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Existe uma sensação de aposta por todo lado, com aplicativos cada vez mais viciantes roubando o tempo de tela das redes sociais. Porém, por trás das bets que dominaram os esportes, surge outro fenômeno invadindo a home do seu smartphone: as plataformas do mercado de previsão. Nomes como Kalshi e Polymarket ainda circulam pouco na roda de conversa do brasileiro, mas dois fatores contribuem para que esses dias estejam contados.
O primeiro fator é a descoberta de que a fundadora da Kalshi é Luana Lopes, a brasileira mais jovem a entrar para o clube de bilionárias, emplacando, neste mês, manchetes em praticamente todos os veículos de imprensa. O segundo evento são as eleições presidenciais que se aproximam.
Lá fora, plataformas de previsão como Kalshi e Polymarket passaram a se integrar às casas de investimento, atraídas por reputação e capital de apostadores sofisticados. Em março deste ano, a Kalshi, da fundadora brasileira, firmou acordo com a corretora de bolsa Robinhood, liberando apostas dentro do mesmo aplicativo. Isso significa que, em um mesmo ambiente, é possível apostar, por exemplo, no próximo político americano a sofrer um impeachment e, ao mesmo tempo, investir no fundo de previdência que vai garantir sua aposentadoria.
Se antes as corretoras brasileiras ofereciam uma curadoria de ações para surfar o chamado trade Tarcísio, agora basta abrir uma conta no Polymarket e apostar no principal adversário do presidente incumbente. A evolução dos candidatos na plataforma de previsão já divide o noticiário com as tradicionais pesquisas eleitorais.
Gráficos mais dinâmicos e imediatos, como se fossem a cotação de uma ação em bolsa de valores, chamam mais atenção do que as próprias pesquisas eleitorais, com seus graus de confiança indecifráveis, números estáticos e divulgações esporádicas.
Cada abordagem encontra limites quando utilizada como ferramenta preditiva, e precisamos entender essas diferenças. Mercados de previsão são ágeis; alterações de probabilidades surgem no mesmo instante. O anúncio antecipado do candidato Flávio Bolsonaro ilustrou isso no dia 5 de dezembro. As cotações a favor do candidato Tarcísio despencaram logo após a notícia.
Essa velocidade transmite o humor imediato dos apostadores. Outra vantagem surge porque os apostadores assumem compromisso financeiro. Dinheiro entra em jogo por convicções pessoais. Não descarto apostas contrarian, ou seja, em candidatos com chances remotas de vencer, mas com recompensa atrativa. Seria como apostar numa zebra no futebol: colocar todas as fichas em quem tem a mínima chance de ganhar.
Por outro lado, os mercados de apostas são frágeis como fator preditivo. Em cenários eleitorais, uma aposta gigante aplicada por um indivíduo isolado altera o peso das probabilidades. E, no mundo real das eleições, cada voto tem o mesmo valor refletido na pesquisa eleitoral.
Um caso de 2012 ilustra isso. Um lance final de US$ 40 milhões puxou as cotações de Mitt Romney e distorceu o cenário na disputa pela Casa Branca. Já na pesquisa eleitoral tradicional, o principal desafio é o shy voter, eleitores que escondem a própria intenção de voto quando respondem às pesquisas. Em resumo, pesquisas eleitorais medem como as pessoas votam; mercados de previsão medem como as pessoas apostam.
Podemos entender o mercado de previsão das plataformas como como Kalshi e Polymarket como um derivativo da pesquisa eleitoral. Pense na relação que os contratos de juros negociados em bolsa têm com o Boletim Focus. O primeiro reflete apostas sobre o cenário de juros. Já o Boletim Focus é uma pesquisa de opinião com participantes do mercado financeiro sobre um mesmo indicador. E, se o mundo real reflete o mercado financeiro, não existe, na literatura acadêmica, estudo conclusivo sobre o melhor previsor de futuro entre a opinião e a aposta. O que a realidade ensina é que opinião influencia aposta, e aposta também forma opinião.
Beto Saadia é economista-chefe da Nomos.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







