
Ouça este conteúdo
A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations – FTO) gerou reações intensas. Especialistas em segurança pública e autoridades brasileiras levantaram preocupações que, embora aparentemente legítimas, carecem de fundamentação técnica. Este artigo refuta sistematicamente os principais argumentos contrários à medida.
Críticos argumentam que o PCC e o CV não podem ser classificados como terroristas porque sua motivação é puramente financeira, e não ideológica. Segundo essa lógica, organizações terroristas "reais" possuem objetivos políticos, religiosos ou xenófobos, enquanto as facções brasileiras buscam apenas lucro.
Esse argumento confunde a definição técnica de terrorismo com uma categorização obsoleta. O terrorismo moderno não é definido exclusivamente pela motivação ideológica, mas pelos métodos e pelo impacto. Quando uma organização utiliza violência sistemática contra civis para criar pânico, controlar territórios e desestabilizar o Estado, ela pratica terrorismo – independentemente de sua motivação ser lucro ou ideologia.
O PCC e o CV queimam ônibus, fecham cidades inteiras, assassinam policiais e civis e controlam vastas porções do território brasileiro por meio do terror. Essas ações não diferem metodologicamente do terrorismo praticado por grupos ideológicos. A diferença é que, enquanto um terrorista ideológico busca mudar um governo, um terrorista mafioso busca lucrar com a instabilidade que cria. Ambos utilizam o terror como ferramenta de dominação.
Além disso, a motivação financeira torna uma organização mais perigosa, não menos. Um grupo ideológico pode ser negociado ou convencido a abandonar sua causa. Um grupo motivado por lucro nunca cessará suas operações enquanto houver demanda e oportunidade. Essa é precisamente a razão pela qual máfias internacionais são tão difíceis de combater.
É importante ressaltar que, se o argumento da "falta de motivação ideológica" fosse levado à prática, o Terceiro Comando Puro (TCP), liderado por Peixão (Alvaro Malaquias Santa Rosa), já deveria ter sido classificado como terrorista. O TCP é um exemplo de narcopentecostalismo – a vinculação entre facções do narcotráfico e o cristianismo neopentecostal – que demonstra motivação ideológica e religiosa clara.
Peixão expulsou de seus territórios religiões que não fossem a sua, usa a bandeira de Israel e frases da Bíblia para marcar território e utiliza interpretações fundamentalistas para justificar violência contra outras religiões. Se esse critério fosse aplicado consistentemente, o TCP já seria terrorista. Mas não é. Isso demonstra que o argumento contra a classificação do PCC e do CV baseado na "falta de motivação ideológica" é seletivo, inconsistente e insustentável.
Críticos argumentam que a classificação do PCC e do CV como terroristas é "precipitada" e "sem precedentes". Essa afirmação é completamente falsa. A aliança entre crime organizado brasileiro e grupos terroristas internacionais não é nova – ela remonta à década de 1990.
O Brasil está perdendo a guerra. O PCC cresceu 800% em três décadas – de 5 mil para 40 mil membros, mais que os exércitos de Portugal, Paraguai e Uruguai combinados. O CV expandiu seus territórios em 45%. Ambas as organizações operam em 26 países, controlam entre R$ 46 bilhões e R$ 52 bilhões em ativos
Fernandinho Beira-Mar, um dos maiores traficantes de drogas e armas da América Latina, fugiu do Brasil e se viu sem recursos. Quando isso ocorreu, aliou-se às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) – uma organização terrorista reconhecida internacionalmente. As FARC deram proteção e abrigo a Beira-Mar na Colômbia. Esse não foi um caso isolado ou esporádico – foi uma aliança operacional entre crime organizado brasileiro e terrorismo internacional.
O que é ainda mais relevante: dissidentes das FARC agora se aliam ativamente com o PCC e o CV na Amazônia. Relatório da Abin confirma a atuação conjunta entre grupos dissidentes das FARC e facções brasileiras que operam no Brasil. O PCC e o CV dominam uma rede que liga dissidentes das FARC e Venezuela ao tráfico no Brasil. A fragmentação do crime colombiano após o acordo de paz com as FARC apenas fortaleceu essas redes.
Portanto, a classificação do PCC e do CV como terroristas não é precipitada – é o reconhecimento de uma realidade que já existe há décadas. Os críticos que argumentam que isso é "novo" simplesmente ignoram a história. Um dos argumentos mais fortes para a classificação do PCC como organização terrorista é precisamente aquilo que os críticos tentam ignorar: a conexão comprovada entre o PCC e grupos terroristas reais, como o Hezbollah.
Na Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), o PCC e o Hezbollah operam em conjunto em atividades de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e contrabando de armas. Segundo Joseph Humire, subsecretário-adjunto de Defesa para o Hemisfério Ocidental dos EUA, autoridades norte-americanas sancionaram 11 pessoas que vivem no Brasil e no Paraguai por financiar o Hezbollah. Esses indivíduos abriram ao menos 18 empresas nos dois países especificamente para lavar dinheiro, mesmo depois das punições do Departamento do Tesouro americano.
Os mesmos indivíduos que operam para o PCC canalizam recursos para o Hezbollah, criando uma rede integrada de crime organizado e financiamento de terrorismo. A cooperação vai além da lavagem de dinheiro: inclui compartilhamento de áreas de operação, troca de informações de inteligência e uso de táticas semelhantes.
Essa conexão é precisamente o que justifica a classificação do PCC como FTO (Foreign Terrorist Organization) pelos EUA. Não se trata apenas de uma organização criminosa que pratica terror – trata-se de uma organização que trabalha em parceria com grupos terroristas internacionais reconhecidos. Isso não é uma suposição teórica. É uma realidade operacional documentada e confirmada por autoridades americanas.
O argumento de que o PCC não pode ser classificado como terrorista porque sua motivação é financeira desmorona completamente quando se reconhece que o PCC está financiando grupos terroristas. Se o PCC está canalizando recursos para o Hezbollah, então o PCC é, por definição, um financiador de terrorismo. E qualquer financiador de terrorismo deve ser tratado como terrorista.
Críticos argumentam que a classificação como FTO viola a soberania brasileira e abre espaço para intervenção militar americana. Essa preocupação é fundamentalmente equivocada. A soberania brasileira já foi perdida – não para os EUA, mas para o crime organizado.
O Brasil precisa de um remédio amargo. Rápido. Agora. A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA é esse remédio. Não é perfeito. Mas o paciente está em estado crítico
O PCC e o CV estabeleceram tribunais paralelos que julgam e executam cidadãos. Controlam territórios onde o Estado não consegue exercer sua autoridade. Infiltraram-se nas estruturas do governo, do Judiciário e das forças de segurança. Essa é a verdadeira violação da soberania: a perda do monopólio estatal da força e da autoridade.
A classificação como FTO pelos EUA não representa uma intervenção militar iminente. Representa o reconhecimento internacional de uma ameaça que o Brasil já não consegue conter sozinho. Os EUA não precisam invadir o Brasil para combater o crime organizado – eles já o fazem por meio de cooperação policial e compartilhamento de inteligência. A classificação como FTO simplesmente formaliza e intensifica essa cooperação.
Críticos argumentam que a classificação como FTO causará sanções econômicas contra o Brasil, afetando bancos, empresas e inovações como o Pix. Essa preocupação é baseada em especulação, não em evidência. Os EUA não sancionam o Brasil por causa do PCC e do CV – eles sancionam o PCC e o CV.
É verdade que empresas brasileiras podem sofrer sanções se forem descobertas transações com facções. Mas isso não é um risco novo criado pela classificação como FTO. Qualquer empresa que negocie com o crime organizado já está violando leis americanas e internacionais.
Quanto ao Pix, o argumento de que ele será afetado porque facilita lavagem de dinheiro é absurdo. Qualquer sistema de pagamento pode ser abusado por criminosos. O problema não é o Pix – é a falta de regulação adequada e fiscalização.
O risco econômico de não classificar o PCC e o CV como terroristas é muito maior. Enquanto essas organizações continuarem operando livremente, elas continuarão infiltrando-se na economia formal, corrompendo instituições e criando insegurança jurídica. A classificação como FTO, ao sinalizar que o Brasil está tomando medidas sérias contra o crime organizado, pode, na verdade, atrair investimentos.
Para demonstrar a profundidade da infiltração do PCC no sistema financeiro, basta observar a Operação Carbono Oculto. A operação revelou que o PCC evoluiu de uma "gangue violenta" para uma "corporação criminal e financeira" sofisticada.
O PCC controla mais de 1.000 postos de combustível utilizados para lavagem de dinheiro. Controla 40 fundos de investimento com patrimônio superior a R$ 30 bilhões. Utilizou seis fintechs que movimentaram R$ 26 bilhões em operações atípicas. Em quatro anos, movimentou entre R$ 46 bilhões e R$ 52 bilhões por meio de esquemas sofisticados de lavagem.
Por intermédio desses fundos de investimento, o PCC adquiriu um terminal portuário, quatro usinas de álcool, 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e participações em diversos setores da economia. Isso não é crime organizado tradicional – é infiltração econômica massiva.
A classificação como FTO permite que os EUA e o Brasil sancionem essas instituições financeiras e fundos de investimento que sabem ou deveriam saber que estão recebendo recursos do PCC. Sem a classificação como FTO, é muito mais difícil responsabilizar essas entidades. Com a classificação, torna-se possível identificar, bloquear e punir as instituições que financiam terrorismo.
Portanto, o medo do sistema financeiro é infundado. A classificação como FTO não prejudica instituições legítimas – ela as protege ao remover os recursos ilícitos que as infiltram. As sanções são direcionadas a entidades específicas que financiam terrorismo, não contra o sistema financeiro como um todo.
Os críticos brasileiros argumentam que a classificação como FTO destruirá a economia brasileira. Mas a prática internacional demonstra exatamente o oposto. Os números não mentem, e a realidade internacional fala mais alto que o medo especulativo.
O México classificou seis cartéis como terroristas em janeiro e fevereiro de 2025 – há apenas alguns meses. A economia mexicana continuou funcionando normalmente. Bancos mexicanos continuaram operando. Investimentos estrangeiros continuaram fluindo. O sistema de pagamentos mexicano não foi afetado. Empresas legítimas não foram bloqueadas indiscriminadamente. Nenhum colapso econômico ocorreu.
A Colômbia classificou as FARC como terroristas em 1997 e manteve essa classificação por 24 anos. Durante esse período, a economia colombiana não sofreu sanções econômicas indiscriminadas. O sistema financeiro colombiano não foi destruído. Empresas colombianas legítimas continuaram operando. Investimentos estrangeiros na Colômbia não cessaram. O país desenvolveu uma economia robusta apesar da classificação das FARC como terroristas. Duas décadas de experiência comprovam que a classificação não destrói países.
O Líbano convive há décadas com o Hezbollah classificado como terrorista pelos EUA. Bancos libaneses continuam operando. Não houve colapso total do sistema financeiro. As sanções foram direcionadas a operativos específicos do Hezbollah, não ao país inteiro. Mesmo em um contexto de instabilidade regional, a classificação como terrorista não destruiu a economia libanesa.
Essa é a realidade internacional: os EUA conseguem sancionar organizações terroristas sem destruir a economia dos países onde operam. As sanções são precisas e direcionadas. Não são indiscriminadas. Não afetam instituições legítimas. Não destroem sistemas de pagamento. Não cessam investimentos estrangeiros.
Os críticos brasileiros que alegam que a classificação destruirá a economia brasileira ignoram essa realidade comprovada. México, Colômbia e Líbano demonstram que é possível ter organizações classificadas como terroristas sem destruir a economia do país. O Brasil não sofrerá o colapso econômico que os críticos alegam – porque nenhum outro país sofreu.
VEJA TAMBÉM:
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya é inquestionavelmente um dos maiores conhecedores do Primeiro Comando da Capital no Brasil. Sua experiência, dedicação e contribuição para o combate ao crime organizado são inegáveis e merecem profundo respeito. Seus argumentos técnicos e sua experiência prática são sempre dignos de consideração séria.
No entanto, é importante distinguir entre suposições teóricas e efeitos práticos já comprovados. Gakiya argumenta que a classificação como FTO pode prejudicar a troca de informações entre as polícias brasileiras e agências americanas, alegando que as informações sobre facções podem ser classificadas como "secretas" ou "confidenciais". Essa é uma preocupação legítima em teoria, mas não encontra respaldo em evidência prática.
Ao contrário, a classificação como FTO intensifica e qualifica o compartilhamento de informações. Quando o PCC é designado como organização terrorista, a inteligência da CIA e do Departamento de Defesa dos EUA passa a se envolver diretamente. Essas agências possuem capacidade de coleta, análise e disseminação de inteligência muito superior à de policiais americanos isolados. As informações esparsas de policiais federais americanos são consolidadas, cruzadas com inteligência de satélite, interceptação de comunicações e compartilhadas com o Brasil de forma muito mais relevante e precisa.
Portanto, a classificação como FTO não prejudica a cooperação policial – ela a eleva a um nível muito mais sofisticado e eficaz. A preocupação de Gakiya, embora compreensível, permanece no campo da suposição, não da realidade prática.
Os argumentos contra a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA carecem de fundamentação técnica. São baseados em preocupações legítimas, mas infundadas, ou em resistências políticas que refletem a captura do Estado pelo crime organizado.
O Brasil está perdendo a guerra. O PCC cresceu 800% em três décadas – de 5 mil para 40 mil membros, mais que os exércitos de Portugal, Paraguai e Uruguai combinados. O CV expandiu seus territórios em 45%. Ambas as organizações operam em 26 países, controlam entre R$ 46 bilhões e R$ 52 bilhões em ativos e infiltraram-se em estruturas do governo, do Judiciário e das forças de segurança. Trinta anos de política tradicional não conseguiram conter esse crescimento. Pelo contrário, as organizações se fortaleceram, se sofisticaram e se internacionalizaram.
Rejeitar a ajuda internacional é suicídio estratégico. A classificação como FTO não viola a soberania – reconhece uma realidade que o Brasil não consegue conter sozinho. A verdadeira violação da soberania já ocorreu: o Estado perdeu o monopólio da força para o crime organizado.
O Brasil precisa de um remédio amargo. Rápido. Agora. A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA é esse remédio. Não é perfeito. Mas o paciente está em estado crítico. Se não for administrado agora, a morte será certa.
Márcio Bueno, advogado, gestor e analista de políticas em segurança pública, gestor de inteligência em segurança pública, palestrante em segurança pública e crime organizado, professor de pós-graduação em segurança pública e presidente do Consem – Conselho de Segurança do Município de Chapecó (SC).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







