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Por que a mídia precisa mudar a forma como noticia a violência contra a mulher

O enfrentamento à violência contra a mulher exige uma mudança de postura em que a comunicação deixe de ser um espelho passivo da tragédia e passe a ser uma ferramenta ativa de prevenção (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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A cobertura jornalística sobre crimes de violência contra a mulher no Brasil costuma seguir um roteiro que, embora pareça meramente informativo, carrega lacunas críticas para a segurança pública. Ao noticiar um feminicídio, o foco recai quase invariavelmente sobre o desfecho trágico e os detalhes do crime, mas raramente se dedica o mesmo espaço para responder como uma mulher que esteja passando por uma situação semelhante deve agir e onde pode encontrar amparo.

Como advogada e ex-coordenadora de Políticas para Mulheres em São Paulo, tenho observado que a comunicação é uma dimensão estrutural da violência. Não é apenas um reflexo do que acontece na sociedade, mas uma engrenagem que pode acelerar ou frear a barbárie. Ocupar esse espaço de fala é urgente para introduzirmos no Brasil o que a ciência e a saúde pública chamam de Método Papageno.

O enfrentamento à violência contra a mulher exige uma mudança de postura em que a comunicação deixe de ser um espelho passivo da tragédia e passe a ser uma ferramenta ativa de prevenção

O conceito, emprestado das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a prevenção do suicídio, é perfeitamente aplicável ao feminicídio. Enquanto o "Efeito Werther" explica como a cobertura sensacionalista gera um contágio social – estimulando agressores em potencial a repetirem o ato por identificação ou busca por notoriedade –, o Método Papageno propõe o oposto: uma comunicação que protege, educa e oferece saídas.

Ao analisarmos casos emblemáticos, de Ângela Diniz, nos anos 70, a episódios recentes como os de Erika Satelis ou Tatiane Spitzner, vemos um padrão de "revitimização institucional". Quando a imprensa foca na roupa da vítima, no seu comportamento ou em uma suposta "paixão avassaladora" do assassino, ela retira a responsabilidade do criminoso e a transfere para a mulher. Mais do que isso: ao transformar tragédias em entretenimento de massa (a chamada espetacularização), a mídia dessensibiliza a sociedade. O crime deixa de ser uma violação de direitos humanos para virar um capítulo de novela.

Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP) revelam um padrão alarmante: picos de registros de feminicídios muitas vezes sucedem períodos de hipervisibilidade midiática de casos extremos. Isso sugere que a forma como narramos a morte de uma mulher pode estar servindo de "manual" silencioso para o agressor vizinho.

A aplicação do Método Papageno no contexto brasileiro, alinhada aos princípios da Lei Maria da Penha, defende que o dever de cuidado deve se sobrepor ao desejo pela audiência imediata. Uma cobertura ética é aquela que não apenas relata o fato, mas que se torna um elo entre a mulher em situação de vulnerabilidade e o serviço público que pode salvá-la.

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Portanto, a responsabilidade institucional sobre o que é veiculado precisa ser compartilhada entre o Estado, as empresas de comunicação e as plataformas digitais. Não se trata de restringir a liberdade de imprensa, mas de qualificar o exercício dessa liberdade para que ela cumpra sua função social.

Precisamos entender que a comunicação responsável é uma estratégia de segurança pública. O silêncio não é a solução, mas a palavra sem critério é uma arma. O enfrentamento à violência contra a mulher exige uma mudança de postura em que a comunicação deixe de ser um espelho passivo da tragédia e passe a ser uma ferramenta ativa de prevenção. Afinal, informar com responsabilidade é, acima de tudo, um compromisso com a vida.

Daniele Akamine, advogada, membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP e especialista em políticas públicas. Foi coordenadora de Políticas para Mulheres da cidade de São Paulo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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