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Por que o Brasil derruba presidentes

O sistema político, por sua vez, seleciona para esse homem-massa. Ele é fácil de satisfazer com lisonjas e promessas de curto prazo. O homem de caráter, que oferece a verdade dolorosa em vez da mentira reconfortante, torna-se eleitoralmente inviável. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo))

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A história recente mostra que quem não organiza o Congresso não governa, não importa a ideologia. O Brasil não derruba presidentes por mudança de humor político. Derruba quando o Estado deixa de funcionar. Em cada crise, a narrativa pública fala em corrupção, traição ou ideologia. No fundo, porém, o que se rompe é a capacidade de um governo organizar o sistema de poder que o cerca.

Fernando Collor foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização. Chegou ao Planalto carregando o simbolismo da reconstrução democrática. Ainda assim, caiu. Não por falta de legitimidade popular, mas porque perdeu o controle do Congresso. Dilma Rousseff também não foi eleita como ruptura. Veio indicada por Lula e pelo PT como continuidade de um ciclo que parecia politicamente sólido. Caiu quando subestimou o custo institucional de governar sem uma maioria parlamentar estável.

A polarização faz barulho, mas o poder real já opera por acomodação entre forças moderadas. Falta uma liderança que transforme isso em projeto explícito de governo

Esses episódios não são exceções. São padrão. O presidencialismo brasileiro funciona, na prática, como um parlamentarismo informal. Nenhuma agenda sobrevive sem coalizão. Nenhuma reforma passa sem negociação. Nenhum presidente resiste sem base. Quando essa engrenagem falha, o Judiciário avança, o mercado trava e o país entra em paralisia.

O Centrão, tão demonizado no debate público, é apenas o nome mais visível desse mecanismo. Ele existe porque o sistema exige maioria. Em democracias parlamentaristas, isso se faz por pactos programáticos. No Brasil, por arranjos de sobrevivência. Quando essa lógica sai do controle, surgem os excessos, como no Mensalão, quando governabilidade virou promiscuidade.

Jair Bolsonaro tentou prescindir da negociação parlamentar tradicional, apostando que poderia governar por meio de pressão pública e relação direta com sua base, apesar de ter passado seis mandatos no Congresso. Para sobreviver, acabou entregando ao Centrão mais poder do que qualquer outro presidente desde a redemocratização, inclusive a Casa Civil, com a nomeação de Ciro Nogueira.

Lula, em seu terceiro mandato, governa de outra forma. Não por força política própria, mas por um arranjo de contenção entre Congresso, Judiciário, mercado e governadores. O país funciona, mas sob tensão permanente. Esse quadro não é uma anomalia brasileira. Alemanha, Dinamarca e Áustria viveram fragmentação e perda de governabilidade. A resposta não foi ideológica, mas institucional. Construíram grandes coalizões de centro para proteger o funcionamento do Estado.

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Essas experiências mostram que estabilidade dos presidentes não nasce de discursos, mas de engenharia política. Menos risco, mais previsibilidade, mais investimento, menos conflito social. O Brasil está no mesmo limiar. A polarização faz barulho, mas o poder real já opera por acomodação entre forças moderadas. Falta uma liderança que transforme isso em projeto explícito de governo.

A eleição de 2026 não será vencida por quem falar mais alto, mas por quem convencer o país de que consegue fazê-lo funcionar. Não é uma disputa entre direita e esquerda. É uma disputa entre conflito permanente e Estado funcional. A história recente deixa uma lição clara. Collor caiu. Dilma caiu. Bolsonaro se rendeu. Lula governa sob contenção. O sistema não muda. O que precisa mudar é a forma de ocupá-lo. O Brasil não precisa de um salvador. Precisa de um Estado que volte a funcionar.

João Zisman é jornalista, economista e pós-graduado em Ciência Política e Gestão Pública.

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