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A retórica política em torno da riqueza e da desigualdade revela cada vez mais uma postura emotiva em vez de um argumento econômico, visto que o discurso público agora trata o sucesso como uma provocação moral e a prosperidade como uma forma de agressão silenciosa. Consequentemente, as propostas políticas chegam envoltas em uma linguagem moral que enquadra a redistribuição como justiça e o ressentimento como compaixão.
Essa mudança cultural se alinha estreitamente com o que Tomás de Aquino identificou como inveja, que ele definiu como tristitia de bono alterius, “tristeza pelo bem alheio” (Suma Teológica II–II, q. 36, a. 1). Portanto, a luta de classes moderna parece menos inovadora do que se alardeia, já que sua força motriz reflete um vício antigo que ganhou forma institucional.
Tomás de Aquino considerava a inveja uma disposição singularmente corrosiva porque distorce a percepção moral em vez de apenas restringir a ação. A raiva reage à ofensa percebida, enquanto a ganância busca a posse, mas a inveja se ressente da própria excelência. Portanto, a pessoa invejosa experimenta o florescimento alheio como uma diminuição pessoal, mesmo quando nenhum dano ocorre.
Aquino observou ainda que a inveja gera vícios secundários como a difamação, a alegria com o infortúnio alheio e o ódio (ST II–II, q. 36, a. 4). Consequentemente, uma vez que a inveja penetra na política social, ela multiplica a disfunção em vez de corrigir a injustiça.
Esse diagnóstico encontra expressão narrativa precoce no relato de Caim e Abel. Gênesis descreve a oferta de Caim como sendo desprezada por Deus, enquanto a de Abel recebe favor, após o que o semblante de Caim se fecha (Gênesis 4:5). A resposta do Senhor visa o estado interior de Caim, e não a disparidade externa: “O pecado está à porta, à sua espreita; o seu desejo é contra ti; contudo, deves dominá-lo” (Gênesis 4:7). Portanto, as Escrituras localizam a crise na alma antes que ela se manifeste em violência.
O ressentimento de Caim busca resolução por meio da eliminação do outro, em vez da transformação de si mesmo, estabelecendo assim um padrão que se repete ao longo da história sempre que a queixa substitui a virtude como motor social.
O Talmud aborda a inveja com sobriedade semelhante, por meio da lente do desejo ordenado e da disciplina racional. A Torá adverte contra disposições cobiçosas que se fixam nas posses ou no status de outrem, visto que tal fixação distorce o julgamento e mina a harmonia comunitária. Portanto, o remédio para a inveja envolve o hábito da moderação e da gratidão, em vez da coerção estrutural.
Os estudiosos judeus reformistas Bruce e Barbara Kadden, em Teaching Mitzvot, observaram de forma pertinente que “de acordo com o Talmud, o décimo mandamento resume todos os anteriores, porque a inveja leva a outros pecados (Pesachin 107a). O desejo por algo pode levar à cobiça, que pode levar ao roubo e, então, à tirania”. Maimônides, em seus comentários sobre o lo tachmod (“não cobiçarás”), observou:
A cobiça leva ao roubo. Pois, se os donos não desejam vender, apesar de uma oferta generosa e muita súplica, motivados pelo desejo pelo bem, alguém pode recorrer ao roubo, como está escrito no livro de Miquéias: “Cobiçaram casas e roubaram”. E se o dono resistir e tentar salvar sua propriedade… então os perpetradores podem ser levados ao assassinato.
Ele e os autores talmúdicos compreenderam que o nivelamento externo sem reforma interior amplifica o vício em vez de curá-lo, uma vez que a alma permanece inquieta mesmo após a redistribuição.
Adam Smith, frequentemente mal interpretado como um apóstolo do interesse próprio desenfreado, ofereceu uma perspectiva complementar por meio de sua análise da simpatia e do sentimento moral.
Em A Teoria dos Sentimentos Morais, Smith observou que os seres humanos instintivamente admiram o sucesso, mas ressentem-se da superioridade; contudo, a sociedade civilizada requer formação moral para canalizar esses instintos de forma produtiva, sob pena de a inveja influenciar negativamente a visão dos cidadãos sobre o bem-estar alheio. Portanto, a sociedade comercial prospera quando a admiração incentiva a emulação em vez do ressentimento.
Smith alertou que o ressentimento em relação à excelência corrói a confiança social, uma vez que os cidadãos passam a interpretar a conquista como exploração em vez de contribuição
Considerando essas ideias, a análise de Marx falha no nível da psicologia moral, uma vez que trata a inveja como discernimento em vez de desordem. Ele também reformula o ressentimento como consciência histórica. Ao reduzir a vida econômica ao antagonismo de classes, Marx reduz a agência moral à posição material, absolvendo assim a vida interior da análise. Consequentemente, a virtude desaparece da análise, substituída por um determinismo estrutural que interpreta o sucesso como roubo e a excelência como dominação.
Essa estrutura oferece validação emocional à queixa, ao mesmo tempo que desencoraja o autocontrole, a gratidão e a aspiração moral. Portanto, o marxismo funciona menos como uma ciência econômica e mais como um catecismo do ressentimento, santificando a hostilidade em relação à realização produtiva enquanto promete libertação por meio de uma equiparação coercitiva que a história repetidamente confirma como socialmente corrosiva.
Nessa linha de pensamento, a economia da inveja moderna rejeita a formação moral virtuosa em favor da moralização do ressentimento. Impostos sobre a riqueza e esquemas regulatórios punitivos apresentam cada vez mais o sucesso como evidência de transgressão, em vez de serviço criativo. Consequentemente, o discurso político se desloca da expansão de oportunidades para a gestão de queixas.
Pode-se argumentar que as sociedades que entram em colapso sob o domínio da inveja tentam suprimir as diferenças visíveis em vez de cultivar padrões compartilhados de excelência. Portanto, a equiparação torna-se um substituto para a aspiração, e a coerção substitui a admiração como principal mecanismo social.
A inveja prospera em culturas que perdem a confiança no significado transcendente
Quando a honra, a vocação e a excelência se desvinculam do propósito moral, a competição por status se intensifica sem restrições. Portanto, os resultados econômicos tornam-se indicadores de valor moral, e a disparidade torna-se intolerável, independentemente de sua origem.
A antropologia bíblica antecipou esse perigo ao fundamentar a dignidade humana na imagem divina, e não no sucesso comparativo: “Deus criou o homem à sua imagem” (Gênesis 1:27). Consequentemente, as Escrituras removem o combustível metafísico necessário para que a inveja floresça sem controle.
Tomás de Aquino reforçou esse ponto ao localizar a paz no amor corretamente ordenado. A caridade, argumentou ele, alegra-se com o bem do outro como se fosse o seu próprio (ST II–II, q. 23, a. 1). Portanto, a alma virtuosa experimenta a prosperidade como expansão, e não como ameaça.
A economia da inveja inverte essa lógica ao tratar o ganho como um jogo de soma zero, garantindo assim um conflito permanente. Uma vez que a política internaliza essa antropologia, ela legitima a coerção como uma necessidade moral, já que a força se torna o único meio de resolver queixas perpétuas.
A experiência histórica confirma essa trajetória. Sociedades que elevam a inveja a princípio gradualmente abandonam a criatividade em favor da exploração. O empreendedorismo torna-se suspeito, a inovação torna-se perigosa e a conformidade torna-se o caminho mais seguro. Consequentemente, o talento migra ou se retira, enquanto a gestão burocrática se expande para preencher o vácuo.
Deus, por meio de Samuel, advertiu Israel sobre esse padrão muito antes do surgimento da economia política moderna: “Ele tomará o dízimo do seu trigo e das suas vinhas e o dará aos seus oficiais” (1 Samuel 8:15). Portanto, a redistribuição centralizada surge como um sinal de desconfiança social, e não de força comunitária.
As consequências psicológicas da economia da inveja também merecem atenção. O ressentimento externaliza o fracasso, livrando os indivíduos da autoanálise. Tomás de Aquino descreveu esse processo como acídia espiritual em forma social, em que a tristeza em relação à excelência embota a aspiração e corrói a esperança (ST II–II, q. 35).
Consequentemente, culturas moldadas pela inveja experimentam um declínio na iniciativa ao lado de um aumento na sensação de merecimento. Os sistemas de bem-estar social, então, se expandem para administrar a estagnação resultante, reforçando assim o ciclo que buscam combater.
Em contraste, as sociedades que cultivam a virtude incentivam o empreendedorismo criativo juntamente com a responsabilidade moral. A literatura sapiencial bíblica elogia a diligência e condena a preguiça, sem romantizar a pobreza: “A mão do diligente enriquece” (Provérbios 10:4). Portanto, a prosperidade surge como um resultado moral, e não como um acidente.
A caridade funciona de forma relacional, e não burocrática, e a assistência preserva a dignidade por meio da proximidade e da responsabilidade
Maimônides articulou essa hierarquia em sua famosa escada da caridade, em que a forma mais elevada envolvia a promoção da autossuficiência, em vez da dependência permanente (Mishneh Torá, “Dádivas aos Pobres”, 10:7).
A retórica de classe moderna frequentemente descarta essa formação como ingênua, embora suas alternativas tenham produzido um declínio consistente. Sistemas movidos pela inveja tendem a exigir uma expansão constante da vigilância e da aplicação da lei, uma vez que a obediência depende da coerção em vez do consentimento. Portanto, a liberdade se erode gradualmente à medida que a confiança moral se dissolve. Tomás de Aquino antecipou esse resultado ao insistir que a lei funciona melhor quando pressupõe a virtude, em vez de tentar fabricá-la (ST I–II, q. 96, a. 2).
A visão bíblica oferece um caminho diferente, enraizado na gratidão e na vocação. A parábola dos trabalhadores na vinha confronta a inveja diretamente, pois aqueles que trabalharam por mais tempo se ressentem dos salários iguais pagos aos que chegaram depois. O proprietário responde com clareza moral: “Tenho o direito de fazer o que quero com o que me pertence? Ou vocês me invejam?” (Mateus 20:15). Portanto, as Escrituras reformulam a justiça por meio da generosidade da aliança, em vez do ressentimento comparativo. O problema reside na percepção, e não no salário.
Tomás de Aquino e Maimônides explicam a luta de classes contemporânea com maior precisão do que Marx, pois diagnosticam a psicologia moral subjacente ao conflito econômico. Sociedades movidas pela inveja institucionalizam a tristeza pelo bem alheio, caminhando, assim, para a coerção, a estagnação e o declínio.
Em contrapartida, sociedades que cultivam a virtude, a gratidão e a criatividade geram prosperidade em meio à paz. A escolha permanece perene e inevitável, visto que Caim ainda está à porta, aguardando o domínio ou a rendição.
©2026 Acton Institute. Publicado com permissão. Original em inglês: Envy Economics: Why Aquinas and Maimonides Explain Class Warfare Better Than Marx



