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Em uma noite de domingo, no fim de julho, Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping conversaram por mais de uma hora. O tom foi cordial e discretamente triunfalista. Ao fim da conversa, os dois governos anunciaram a intenção de acelerar as negociações de um acordo comercial entre a China e o Mercosul, que há anos permanecem travadas. Também foram anunciados planos para ampliar a cooperação em satélites e no processamento de minerais críticos, além da eliminação da exigência de visto para estadias de curta duração.
Para o Brasil, trata-se de uma mudança importante. Durante anos, foi Brasília quem liderou a resistência a um acordo desse tipo dentro do Mercosul. A mudança de posição foi tão repentina quanto surpreendente: levou apenas duas semanas para se desenhar, depois que uma nova tarifa americana entrou em vigor e o presidente brasileiro concluiu que, finalmente, os custos do alinhamento com os Estados Unidos haviam superado seus benefícios.
Diante de um Estados Unidos que passou de parceiro a antagonista, o Brasil não parece disposto nem a retaliar na mesma moeda nem a capitular. Em vez disso, adotou deliberadamente uma estratégia de equilíbrio, procurando manter abertas várias frentes ao mesmo tempo. Para muitos observadores, trata-se de uma reação racional ao surgimento de um mundo cada vez mais multipolar. Mas essa estratégia não é exatamente nova. Há pouco menos de um século, o Brasil a definia como “equidistância pragmática”: uma política externa voltada a equilibrar as relações com potências rivais sem se comprometer inteiramente com nenhuma delas.
A atual guerra comercial internacional, que vem se intensificando à medida que os países respondem às tarifas uns dos outros, foi o principal catalisador dessa mudança. No fim de julho, entrou em vigor uma tarifa de 25% sobre uma ampla variedade de produtos brasileiros. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, quase metade das exportações brasileiras para os Estados Unidos está agora sujeita a algum tipo de tarifa adicional. Além das tarifas gerais, os Estados Unidos também impuseram uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos relacionados ao “trabalho forçado”, como parte dos esforços para impedir a entrada de mercadorias produzidas nessas condições no exterior. Na prática, isso amplia para outros países uma política que os Estados Unidos já aplicavam a produtos chineses fabricados com trabalho forçado.
Com isso, estima-se que os produtos mais afetados estejam sujeitos a uma tarifa total de 37,5%.
A resposta de Lula foi apresentar as novas tarifas como um erro de Washington, e não do Brasil. Em artigo publicado no Washington Post, chamou a medida de “erro estratégico” e advertiu que ela levaria empresas brasileiras a substituir fornecedores americanos por parceiros de outros países.
Mas a retórica é apenas uma parte da estratégia. O Brasil também recorreu à Organização Mundial do Comércio (OMC), solicitando consultas para contestar tanto as tarifas gerais quanto a sobretaxa sobre produtos ligados ao trabalho forçado. Brasília argumenta que ambas violam o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) de 1994. A eficácia desse recurso é discutível, dada a paralisia em que a OMC se encontra. Mais importante, porém, é o que a iniciativa revela sobre a estratégia internacional brasileira: a equidistância pragmática em plena operação. O Brasil leva a disputa à OMC, mas, ao mesmo tempo, mantém as negociações com os Estados Unidos.
Paralelamente, o Brasil procura reduzir sua dependência de qualquer mercado específico, ampliando sua presença na economia global. Neste mês, a ApexBrasil, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, lançou um programa de R$ 105 milhões (US$ 20,5 milhões) para apoiar cerca de 2.500 exportadores de 57 setores na busca por novos mercados, entre eles a União Europeia, o Sudeste Asiático e a Ásia Central.
Ao mesmo tempo, o Mercosul vem buscando novos acordos comerciais com Índia, Japão e Canadá, com o Brasil desempenhando papel central nessa estratégia. Lula também promulgou o acordo Mercosul–Singapura, o primeiro firmado pelo bloco com uma economia do Sudeste Asiático. Pelo acordo, as exportações brasileiras passarão gradualmente a entrar no mercado de Singapura sem tarifas.
As novas tarifas também tiveram consequências políticas dentro do próprio Brasil. Muitos brasileiros interpretaram a medida como uma tentativa direta de interferir nas eleições presidenciais de outubro de 2026. Isso, por sua vez, permitiu que Lula se apresentasse como defensor da soberania brasileira diante da interferência estrangeira. A estratégia parece ter funcionado por um tempo: Lula manteve-se estável nas pesquisas, na faixa dos 40 e poucos por cento, enquanto Flávio Bolsonaro — o único outro candidato de peso — perdeu popularidade entre abril e o início de agosto.
A imagem de Bolsonaro no lançamento de sua candidatura talvez também não tenha ajudado. Na ocasião, ele apareceu ladeado por Javier Milei e Benjamin Netanyahu, enquanto havia poucos políticos brasileiros na sala. A presença de líderes estrangeiros em campanhas eleitorais é cada vez mais comum, mas, em um ambiente marcado pela desconfiança em relação à interferência externa, o gesto pode ter soado bastante deslocado — sobretudo diante do crescente desgaste nas relações entre Argentina e Brasil.
Houve ainda outro episódio significativo. Quando os Estados Unidos enviaram autoridades eleitorais ao Brasil para verificar a integridade do sistema eleitoral, seus vistos foram simplesmente negados. Para uma população fortemente resistente à ideia de receber orientações ou sofrer interferência do exterior, a mensagem dificilmente poderia ter sido mais clara.
Mas o movimento mais importante talvez seja a tentativa brasileira de contornar parte desse conflito por meio do fortalecimento das relações comerciais entre o Mercosul e a China. O Mercosul é uma união aduaneira, o que significa que seus membros precisam negociar em conjunto. Por isso, um possível acordo com a China está formalmente em discussão e “sob estudo” desde aproximadamente 2017. Nesse processo, o Brasil vinha sendo o principal freio, enquanto o Uruguai passou anos defendendo o acordo e conduzindo suas próprias conversas com Pequim, enquanto os demais membros permaneciam paralisados.
Em janeiro de 2023, Lula foi a Montevidéu justamente para defender que o Mercosul deveria primeiro concluir um acordo com a União Europeia e só depois negociar com a China. Agora, esse obstáculo foi removido: o acordo com a União Europeia foi assinado em Assunção em janeiro de 2026, depois de 26 anos de negociações, e entrou em vigor no Brasil em abril.
Pelo menos do lado de Brasília. Na Argentina, o cenário é mais complicado. O presidente Javier Milei é ideologicamente contrário à China e provavelmente se oporia a qualquer acordo negociado pelo Mercosul. Para o Brasil, porém, os incentivos são claros. A China já é seu maior parceiro comercial, com um comércio bilateral de US$ 188 bilhões, e um acordo poderia atender a outros interesses estratégicos brasileiros, como a ampliação do acesso ao mercado chinês para produtos agrícolas.
No fim das contas, o Brasil vem tentando equilibrar suas relações comerciais e diplomáticas por meio de uma série de movimentos cuidadosamente calculados. Em um mundo cada vez mais multipolar e marcado por disputas entre grandes potências, essa estratégia de manter várias portas abertas pode, no longo prazo, revelar-se uma escolha inteligente.
Jake Scott é um teórico político especializado em populismo e sua relação com a constitucionalidade política. Ele lecionou em diversas universidades britânicas e produziu relatórios de pesquisa para vários think tanks.
©2026 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: Brasília Makes Friends with Beijing



