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Portas fechadas: como o flerte com ditaduras está isolando a ciência brasileira

A ciência, que deveria ser uma ponte baseada em valores compartilhados, está sendo minada por escolhas políticas que nos afastam das democracias liberais. (Foto: Julia Koblitz/Unsplash )

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No último ano, tentei fazer algo que sempre me deu orgulho: abrir portas para pesquisadores brasileiros em universidades dos Estados Unidos. Não eram aventureiros. Eram cientistas de instituições renomadas, com currículos sólidos e bolsas garantidas pelo Estado. O sonho de qualquer laboratório anfitrião: talento de ponta a custo zero.

O roteiro, antes previsível, mudou. Após o entusiasmo inicial, surgia um padrão inquietante: mensagens curtas – “infelizmente não vamos poder ajudar” – e o silêncio. Não era burocracia. Era um corte seco. Só comigo, foram 12 casos. Colegas relatam o mesmo na Europa, com parcerias históricas sendo subitamente “pausadas”.

A ciência, que deveria ser uma ponte baseada em valores compartilhados, está sendo minada por escolhas políticas que nos afastam das democracias liberais

Não se trata de vitimização. A pergunta é: por que áreas como cibersegurança, infraestrutura crítica e ciência forense passaram a ser tratadas com desconfiança quando o interlocutor é brasileiro? Estamos pagando um preço silencioso – mas caríssimo – por uma política externa ambígua.

O contraste é gritante. Por décadas, o Brasil manteve cooperação ativa no campo da ciência com os EUA, incluindo exercícios militares conjuntos e troca de inteligência cibernética. Havia confiança mútua. A porta estava aberta; hoje, ela se fecha silenciosamente.

Para quem está fora do meio, cibersegurança pode parecer apenas “TI”. Não é. É a proteção da energia, da água, das finanças e dos hospitais. Nos EUA e na Europa, isso é segurança nacional. Quando um brasileiro busca colaboração nessa área – seja com americanos, franceses, suecos ou alemães –, a intenção é trazer excelência para proteger o Brasil. Mas, hoje, nossa nacionalidade toca um nervo exposto no tabuleiro geopolítico.

O Ocidente apertou o cerco. Universidades e departamentos de compliance aplicam agora ao Brasil a mesma cautela reservada a rivais estratégicos. Em conversas reservadas, ouvi de colegas americanos que o “risco geopolítico” brasileiro aumentou.

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Vamos falar como adultos: quando o Brasil se aproxima de países vistos como beligerantes – a Rússia, que mantém uma sangrenta guerra contra a Ucrânia; o Irã, que atacou diretamente Israel; e a China, que ameaça invadir Taiwan –, o respingo é inevitável. Ao incluir o Irã no Brics, enviamos um sinal. O gestor de risco lá fora captou a mensagem: melhor não apertar essa mão.

O resultado é trágico para a ciência. Muitos pesquisadores, eu incluído, estamos reposicionando agendas para áreas “inofensivas”, como aplicações em saúde – por recomendação até de colegas americanos –, para manter o diálogo aberto. É uma escolha de sobrevivência, mas desastrosa para o país: nossos experts em defesa e infraestrutura estão fugindo dos temas vitais por medo de barreiras. O Brasil enfraquece justamente onde precisa ser forte.

Para quem, como eu, fundamenta sua pesquisa na fé católica e no desejo de servir ao bem comum e à proteção da vida, essa distorção é dolorosa. A ciência, que deveria ser uma ponte baseada em valores compartilhados, está sendo minada por escolhas políticas que nos afastam das democracias liberais.

Se quisermos manter parcerias com quem lidera o mundo em ciência, tecnologia e resiliência, precisamos lembrar que confiança é a moeda do jogo. O Brasil precisa debater esses trade-offs com honestidade. Porque, em 2026, a fronteira de defesa não está apenas no mapa; ela passa, decisivamente, por dentro do laboratório de ciência.

Filipe Augusto da Luz Lemos é doutor em Engenharia Elétrica e Informática Industrial pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), mestre em Ciências Forenses pela Syracuse University (EUA) e pós-doutorando em Engenharia de Defesa pelo Instituto Militar de Engenharia (IME). Atua como professor no Forensic and National Security Sciences Institute da Syracuse University e tem mais de 15 anos de experiência como engenheiro e perito forense, com foco em infraestrutura cloud, segurança de sistemas, computação forense e tecnologias aplicadas.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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