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Prejuízos e lições da greve dos caminhoneiros

Além de toda confusão, quem vai pagar a conta é a população

  • Edson Campagnolo
 | Robson Vilalba/Thapcom
Robson Vilalba/Thapcom
 
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A manifestação dos caminhoneiros, que mexeu com as estruturas da sociedade brasileira, trouxe prejuízos imensos para o setor produtivo. A paralisação do transporte de cargas, impedindo a chegada de matérias-primas e a saída de produtos acabados das empresas, afetou a atividade de todas as indústrias. Muitas, inclusive, pararam completamente suas linhas de produção.

Somente o parque industrial paranaense, o quarto mais importante do Brasil, deixou de faturar mais de R$ 3 bilhões, em estimativa da Fiep até a última quarta-feira. Essa receita que não entrou no caixa das empresas vai comprometer o pagamento dos salários de maio e das obrigações fiscais. Os empresários, no entanto, não serão os únicos prejudicados, já que os efeitos negativos na economia e nas finanças públicas vão afetar toda a sociedade.

Além do faturamento perdido, a maioria das empresas ainda vai levar meses para absorver inúmeros outros danos causados pela interrupção de suas atividades. Desperdícios, como os ocorridos na cadeia de alimentos, e multas por atrasos nas encomendas para clientes estrangeiros, como no caso da indústria da madeira e outros setores exportadores, são apenas dois exemplos de custos adicionais não previstos.

A maioria das empresas ainda vai levar meses para absorver inúmeros outros danos causados pela interrupção de suas atividades

Para dificultar ainda mais, alguns setores foram escolhidos para cobrir o rombo nos cofres públicos causado pela greve. Como umas das formas de compensar os subsídios de R$ 13,5 bilhões concedidos para diminuir o preço do diesel, o governo pressionou o Congresso Nacional para que acabasse com a chamada desoneração da folha de pagamentos. A medida, adotada há sete anos, surgiu para dar fôlego especialmente à indústria, sufocada por um ambiente de negócios que dificulta a competitividade diante de produtos importados.

Agora, ao reverter essa medida, acabando com a desoneração para 28 segmentos, o governo espera arrecadar R$ 3 bilhões ao ano. Entre os setores industriais afetados estão fabricantes de pães e massas, tintas, produtos farmacêuticos, pneus, vidros, autopeças e brinquedos. Para a indústria do Paraná, a Fiep estima um impacto de R$ 215 milhões ao ano.

Por mais que isso afete as empresas, quem vai pagar a conta é toda a população. As indústrias, que ainda lutavam para superar a crise severa dos últimos anos quando foram surpreendidas pela greve dos caminhoneiros, não têm mais condições de absorver aumentos de custos. A solução será o repasse para o valor final dos produtos. Não bastasse o impacto sobre os custos para empresas e consumidores, o fim da desoneração, em um momento em que o país segue com mais de 13 milhões de desempregados, vai retardar o ritmo de recuperação das vagas fechadas durante a crise. Ou, pior, pode até resultar em novas demissões.

Leia também: Reflexos da greve dos caminhoneiros no sistema tributário brasileiro (artigo de Marco Aurélio Pitta, publicado em 29 de maio de 2018)

Opinião da Gazeta: Oportunidade perdida (editorial de 24 de maio de 2018)

Se, por um lado, a paralisação dos caminhoneiros trouxe todos esses impactos, por outro serviu para evidenciar ainda mais os sérios problemas que o Estado brasileiro tem para administrar suas contas. Evidenciou também que nosso sistema tributário distorcido, que onera a produção e o consumo, necessita urgentemente ser revisto. O país precisa de uma reforma tributária que, ao invés de incentivar que cada setor ou categoria corra atrás de medidas fiscais que beneficiem somente a si próprios, propicie um ambiente de negócios mais favorável para todos os segmentos, incentivando investimentos e a geração de empregos.

Despertou também a reflexão de que toda essa carga tributária serve para sustentar uma máquina pública inchada e ineficiente, recheada de benesses e privilégios para algumas categorias. Uma gestão pública que não devolve o dinheiro dos impostos à população na forma de serviços públicos de qualidade, como deveria ocorrer. Mais ainda, mostrou a face cruel da corrupção, já que parte do preço elevado dos combustíveis certamente é consequência dos desvios na Petrobras, revelados pela operação Lava Jato.

Ficou nítido que precisamos de uma profunda reforma do Estado brasileiro, que resulte na diminuição da máquina pública, aumento da transparência e mais eficiência nos gastos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, em todos os níveis – federal, estadual e municipal.

A greve acabou se transformando em um movimento de insatisfação da população pela forma como o país vem sendo conduzido

Por fim, a greve acabou se transformando em um movimento de insatisfação da população pela forma como o país vem sendo conduzido. Muitos, inclusive, chegaram a pedir a renúncia do Presidente da República ou até uma intervenção militar – algo que não cabe no ambiente democrático que o Brasil precisa preservar.

É fundamental que, como principal lição desse episódio traumático, todo cidadão brasileiro reflita e entenda que o poder para transformar o país está em suas mãos. Não por meio de tumultos ou radicalismos, mas pelo voto. Os políticos que hoje ocupam o poder têm prazo de validade até 31 de dezembro de 2018. Mas é antes disso, em 7 de outubro, que nós eleitores temos a missão de mudar os rumos do Brasil, elegendo pessoas comprometidas com o bem coletivo e com a busca por caminhos que nos levem a um desenvolvimento condizente com o potencial de nossa terra e de nossa gente.

Edson Campagnolo é presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).

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