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Qual o limite e o valor da inteligência humana na era da IA?

Se não resgatarmos a capacidade de pensar por conta própria, a inteligência artificial deixará de ser um braço direito do homem para tornar-se a muleta (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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O que é Inteligência Artificial (IA)? Trata-se de sistemas computacionais capazes de perceber o usuário, aprender a partir de dados e tomar decisões de forma autônoma para resolver problemas específicos. Entre as aplicações mais difundidas estão plataformas como GPT, Gemini, Copilot, entre outras.

As possibilidades oferecidas pela IA são amplas e crescem rapidamente. Na saúde, destacam-se o diagnóstico por imagem, a aceleração de diagnósticos, a triagem de pacientes por meio de chatbots e até atendimentos e orientações médicas em regiões remotas e de difícil acesso. Na indústria, a IA impulsiona a automação de processos e a manutenção preventiva, aumentando a eficiência e reduzindo custos. Já os assistentes virtuais, como Siri, Alexa e Google Assistant, utilizam IA para compreender perguntas e fornecer respostas adequadas em linguagem natural.

Na educação, entretanto, o avanço da IA traz desafios importantes. O surgimento de tutores virtuais e a necessidade de políticas acadêmicas para o uso responsável dessa tecnologia tornaram-se pautas centrais. O uso inadequado pode levar à desonestidade intelectual, popularmente conhecida como “cola”. Com aplicativos de IA, torna-se possível não apenas resolver provas complexas, mas até concluir cursos inteiros sem a assimilação dos conteúdos essenciais à formação acadêmica.

Ao comparar Inteligência Artificial e Inteligência Natural, percebe-se que elas diferem profundamente em aspectos como criatividade, emoções, interpretação de ambiguidades e adaptação a contextos extremos

É inegável que a IA veio para ficar e que seus benefícios são significativos. No entanto, ela não deve ser vista como uma ferramenta destinada a substituir completamente determinadas profissões. Um sistema de IA jamais substituirá um médico ao segurar a mão de um paciente ou ao consolar familiares em momentos críticos. Da mesma forma, um professor não compete com a IA em termos de volume de informações ou rapidez na resolução de problemas e na produção instantânea de textos acadêmicos. Ainda assim, nenhuma tecnologia substitui o incentivo humano, a empatia e o acompanhamento individual do aluno.

Nesse contexto, é fundamental recordar o valor da Inteligência Natural (IN). Para isso, vale recorrer a uma história emblemática do engenheiro militar e matemático francês Jean-Victor Poncelet (1788–1867), amplamente reconhecido como um dos fundadores da geometria projetiva moderna.

Nascido em Metz, na França, Poncelet ingressou na École Polytechnique, onde recebeu sólida formação científica e matemática. Atuou como engenheiro do exército napoleônico e, durante a campanha da Rússia, em 1812, foi capturado e mantido prisioneiro na cidade de Sarátov por cerca de dois anos. Em condições extremamente adversas, com pouquíssimos livros, praticamente nenhum material acadêmico, sem instrumentos de desenho e dispondo apenas de um caderno, um lápis e muita força de vontade, passou a desenvolver ideias matemáticas fundamentais.

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Foi nesse período de isolamento que formulou conceitos centrais da geometria projetiva, entre eles: o princípio da continuidade; a concepção de pontos imaginários e pontos no infinito; a perspectiva como base da geometria; a visão unificada das cônicas como projeções de um círculo.

Ao retornar à França, Poncelet organizou o trabalho desenvolvido na prisão e publicou, em 1822, sua obra monumental Traité des propriétés projectives des figures (Tratado das propriedades projetivas das figuras), considerada o marco fundador da geometria projetiva moderna. Hoje, essa área da matemática possui aplicações diretas em campos como visão computacional, realidade estendida, correção de perspectiva, jogos 3D, robótica e navegação autônoma, CAD e arquitetura, fotogrametria com drones e o uso de coordenadas homogêneas.

Ao comparar Inteligência Artificial e Inteligência Natural, percebe-se que elas diferem profundamente em aspectos como criatividade, emoções, interpretação de ambiguidades e adaptação a contextos extremos. A IA é, em última instância, produto da inteligência humana. Já a inteligência natural é capaz de evoluir, criar e florescer mesmo em condições adversas – como demonstrou Poncelet ao desenvolver uma nova geometria dentro de uma prisão.

Olimpio de Paula Xavier é professor da Escola Politécnica da PUCPR.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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