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Quando Clausewitz derrota Kant: querer paz sem ter capacidade real de preservá-la é ilusão

Socorristas em frente a um prédio residencial de Kiev. (Foto: SERGEY DOLZHENKO/EFE/EPA)

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A guerra voltou a sentar-se à mesa da política internacional – não como exceção, mas como linguagem. Ela aparece nos tanques que redesenham fronteiras, nos drones que barateiam a destruição, nos cabos submarinos que se convertem em infraestrutura vulnerável, nos semicondutores tratados como ativos de soberania, nas sanções econômicas usadas como armas e nas narrativas que procuram vencer antes mesmo do primeiro disparo. O mundo não abandonou os tratados de paz, as organizações internacionais ou os discursos de cooperação. Apenas descobriu, outra vez, que eles têm menos força quando não são sustentados por poder.

Durante parte considerável do pós-Guerra Fria, consolidou-se a expectativa de que comércio, instituições multilaterais, direito internacional e interdependência econômica seriam suficientes para reduzir, progressivamente, a possibilidade da guerra. Era uma leitura kantiana do mundo: a paz como resultado racional da convivência entre Estados, sustentada por normas comuns, instituições estáveis e alguma confiança na força civilizatória do direito. Esse horizonte não desapareceu. Mas foi brutalmente limitado pela realidade.

Kant permanece necessário como ideal normativo. Clausewitz, porém, voltou a ser indispensável como chave de leitura. Em À paz perpétua, Kant imaginava uma ordem em que Estados submetidos a regras públicas tenderiam a substituir a guerra pela razão. Clausewitz, em Da guerra, partia de premissa mais dura: a guerra não é a negação da política, mas sua continuação por outros meios. Quando a negociação falha, quando a dissuasão não convence ou quando um ator calcula que pode alterar a realidade pela força, a política abandona a linguagem dos tratados e reaparece sob a forma da coerção.

O desafio brasileiro está em construir uma síntese madura: permanecer fiel à paz, ao direito internacional e à cooperação, sem ignorar que a política mundial voltou a ser atravessada pela força, pela coerção e pela competição entre vontades

O cenário atual confirma essa tensão. A Carta das Nações Unidas continua a proibir a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados. No entanto, a permanência formal da norma não impede sua erosão prática quando Estados testam limites, exploram zonas cinzentas e apostam na paralisia das instituições coletivas. O artigo 2.º, § 4.º, da Carta da ONU expressa a ambição kantiana da ordem; sua violação recorrente revela a persistência clausewitziana da política de potência.

Ucrânia, Oriente Médio, Mar do Sul da China, Sahel, competição por semicondutores, energia, minerais críticos, cabos submarinos e rotas marítimas indicam que o conflito deixou de ser apenas territorial. A economia, antes apresentada como antídoto contra a guerra, tornou-se também instrumento de pressão. Sanções, bloqueios tecnológicos, dependência energética, ataques cibernéticos e guerras informacionais mostram que a interdependência não aboliu a disputa: apenas multiplicou os seus meios.

Os números reforçam essa percepção. Segundo o Sipri, os gastos militares globais alcançaram US$ 2,887 trilhões em 2025, com crescimento real de 2,9% em relação a 2024 e o 11.º ano consecutivo de alta. Estados Unidos, China e Rússia responderam, juntos, por 51% do total mundial. O Brasil, no mesmo recorte, ocupou a 21.ª posição entre os maiores orçamentos militares do mundo e manteve-se como principal gasto militar da América do Sul, com US$ 23,9 bilhões em 2025, alta real de 13% em relação ao ano anterior. Ainda assim, esse esforço representou cerca de 1,1% do PIB brasileiro, abaixo da média global de 2,5%.

Não se trata apenas de estatística orçamentária. Trata-se de um sintoma material de que os Estados voltaram a desconfiar do ambiente estratégico e passaram a investir mais em dissuasão, prontidão e capacidade militar. No caso brasileiro, a questão central é saber se esse gasto se converte, de fato, em poder nacional disponível, inovação operacional e capacidade concreta de proteger interesses em um mundo cada vez menos kantiano e cada vez mais clausewitziano.

A frase “Clausewitz derrota Kant” não deve ser lida como celebração da guerra. Ela funciona como advertência contra a ingenuidade. A paz continua sendo o objetivo superior da política internacional. O problema está em imaginar que ela possa ser preservada apenas por declarações de princípio, sem poder, sem capacidade de defesa, sem inteligência estratégica, sem resiliência logística e sem credibilidade dissuasória.

Para o Brasil, essa constatação é particularmente relevante. Um país de dimensões continentais, com vasta fronteira terrestre, Amazônia, Atlântico Sul, recursos naturais estratégicos, infraestrutura crítica e crescente exposição às disputas globais, não pode compreender sua inserção internacional apenas pela chave da boa vontade. A tradição brasileira de solução pacífica de controvérsias é valiosa e deve ser preservada. Mas não deve ser confundida com passividade estratégica.

O desafio brasileiro está em construir uma síntese madura: permanecer fiel à paz, ao direito internacional e à cooperação, sem ignorar que a política mundial voltou a ser atravessada pela força, pela coerção e pela competição entre vontades. Kant deve orientar o horizonte. Clausewitz deve lembrar o caminho. Porque, no século XXI, desejar a paz sem capacidade real de preservá-la talvez seja apenas outra forma de ilusão.

Eduardo Barros é bacharel em Administração e pesquisador de temas relacionados a segurança, tecnologia e direitos humanos.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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