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Na manhã de 4 de outubro, a fila preferencial nos locais de votação será uma fotografia do Brasil que vem aí. Dos 158,7 milhões de eleitores, 37,5 milhões têm 60 anos ou mais: quase um em cada quatro. No Rio Grande do Sul, são 2,54 milhões entre 8,53 milhões de pessoas aptas a votar – quase três em cada dez, a maior proporção entre os estados. Mais de 1,2 milhão de gaúchos já chegaram aos 70 anos, quando o voto se torna facultativo. A demografia muda devagar. O cálculo eleitoral, não.
Anthony Downs mostrou, em Uma teoria econômica da democracia (1957), que eleitores e partidos respondem a incentivos. Os primeiros comparam os benefícios esperados de cada alternativa; os segundos ajustam propostas para conquistar votos. Antes dele, Duncan Black havia demonstrado que, sob preferências de pico único e em uma disputa unidimensional, a posição do eleitor mediano vence as demais em decisões por maioria.
A ideia é simples, mas seu uso exige cuidado. O Brasil tem muitos partidos, eleições em dois turnos e disputas que envolvem economia, segurança, costumes e identidade. Não há um único eleitor mediano para todos os assuntos. O centro das preferências sobre saúde pode não ser o mesmo da tributação ou da segurança. A pressão para a convergência partidária tende a aparecer com mais clareza no segundo turno.
O eleitor mediano tampouco é o eleitor médio ou o integrante do grupo mais numeroso. É aquele cuja preferência divide os votantes ao meio. O envelhecimento, portanto, não transforma automaticamente um aposentado no árbitro da eleição.
O eleitorado está envelhecendo. A política precisa amadurecer no mesmo ritmo. O futuro não vota nem faz lobby – mas é ele que recebe as contas que o presente prefere adiar
Idade não é ideologia. Uma pessoa de 62 anos que continua trabalhando pode avaliar a Previdência de maneira diferente de outra, aos 78, que vive apenas do INSS. Renda, saúde, patrimônio e história de vida atravessam qualquer identidade geracional. Não existe um “voto idoso” homogêneo.
A demografia ganha força política quando muda o peso dos temas. Saúde, medicamentos, cuidados de longa duração, acessibilidade, segurança e Previdência tendem a ocupar mais espaço à medida que cresce o número de eleitores diretamente afetados por essas políticas. Os partidos não precisam descobrir uma preferência comum a todos os idosos. Basta perceber quais assuntos se aproximam do centro da disputa.
Cadastro, porém, não é voto. Para a maioria dos eleitores entre 18 e 69 anos, o comparecimento é obrigatório; depois dos 70, torna-se facultativo. Em 2024, compareceram 66,4% dos eleitores de 70 a 74 anos e 49,6% daqueles entre 75 e 79. O peso político de um grupo depende de tamanho, comparecimento e capacidade de transformar demandas dispersas em prioridades reconhecíveis. O crescimento do eleitorado mais velho importa, mas não se converte automaticamente em poder político.
O desafio mais difícil começa depois da eleição. Segundo o IBGE, a população brasileira deverá atingir o pico em 2041 e então diminuir. Em 2070, 37,8% dos habitantes terão 60 anos ou mais. O envelhecimento aumenta a procura por Previdência, saúde e assistência, enquanto a população em idade ativa perde participação relativa.
A contabilidade pública é menos criativa que a propaganda eleitoral. Benefícios e serviços são pagos com impostos e contribuições, cortes em outras despesas ou dívida, que transfere parte da conta para o futuro. Maior produtividade, mais participação no mercado de trabalho e serviços públicos eficientes aliviam a pressão, mas não a fazem desaparecer.
A public choice acrescenta um ponto menos confortável. Quem recebe um benefício é visível, pode se organizar e vota hoje. Os custos costumam ser distribuídos entre milhões de contribuintes ou empurrados para pessoas que ainda não votam – algumas nem sequer nasceram.
Isso não significa que os idosos sejam egoístas. Famílias ligam gerações, e avós também se preocupam com escolas, empregos e o futuro dos netos. O problema está nos incentivos da competição política, que premiam benefícios imediatos e tornam custos distantes mais fáceis de esconder. Uma política séria para o envelhecimento deveria responder a três perguntas: quanto custará em dez, vinte e trinta anos? Quem pagará? E a medida preservará autonomia ou apenas ampliará dependência?
Prevenção, atenção primária, cuidados domiciliares, cidades acessíveis, requalificação profissional e condições flexíveis para continuar trabalhando podem produzir mais autonomia do que a simples multiplicação de transferências. É preciso distinguir gasto com idosos de política para o envelhecimento. A melhor política não é necessariamente a que transfere mais, mas a que permite viver mais anos com saúde, renda e independência.
Novas despesas permanentes exigem fontes duradouras de financiamento e projeções de longo prazo. Seus efeitos sobre diferentes gerações precisam ser explicitados. Educação, primeira infância, infraestrutura e produtividade também devem preservar espaço no orçamento – justamente porque seus maiores beneficiários têm pouca ou nenhuma voz nas eleições de hoje.
O envelhecimento não ameaça a democracia. O risco está em distribuir benefícios no presente e esconder seus custos no futuro. A resposta madura não é ignorar as demandas dos mais velhos nem disputar seus votos com promessas sem financiamento. É conciliar proteção social, responsabilidade fiscal e justiça entre gerações. O eleitorado está envelhecendo. A política precisa amadurecer no mesmo ritmo. O futuro não vota nem faz lobby – mas é ele que recebe as contas que o presente prefere adiar.
Giacomo Balbinotto Neto é professor do Programa de Pós-Graduação em economia (PPGE/UFRGS) desde 2000 e pesquisador na área de crescimento econômico. Atualmente é professor de Macroeconomia II da FCE/UFRGS e revisor técnico de livros de economia.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



