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Quando o frio vira arma: o inverno brutal na Ucrânia em meio à invasão russa

Manifestação em Paris contra a guerra na Ucrânia (Foto: Christophe Petit Tesson/EFE)

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Em pleno verão brasileiro, enquanto um país de espírito acolhedor recebe pessoas com ainda mais calor humano e temperaturas elevadas, milhões de ucranianos – nossos familiares, amigos, colegas e vizinhos – atravessam o inverno na Ucrânia sob condições extremas impostas pela guerra.

Não se trata apenas de frio, mas da experiência concreta de viver em cidades onde a eletricidade, o abastecimento de água potável e os sistemas de aquecimento central são interrompidos por ataques deliberados. Em muitas regiões da Ucrânia, a temperatura externa chega a –20 °C. Dentro das casas, quando há abrigo, os termômetros frequentemente permanecem próximos de 0 °C e raramente ultrapassam os 10 °C.

Viver assim significa adaptar cada gesto cotidiano à escassez: cozinhar sem energia, racionar água, aquecer crianças e idosos com meios improvisados. O inverno no hemisfério norte não traz apenas desafios climáticos, mas expõe, de forma crua, as consequências de uma visão política ultrapassada, que ainda tenta impor esferas de influência pela força, pelo medo e pela destruição.

Essa é a realidade de um país que entra no quarto ano da invasão russa em grande escala. O frio, por si só, nunca foi uma exceção histórica para os ucranianos. O que transforma o inverno atual em uma grave crise humanitária é a combinação entre temperaturas severas e a destruição sistemática de infraestruturas civis essenciais – uma estratégia que afeta diretamente a sobrevivência da população civil.

A Ucrânia segue resistindo – não apenas no campo de batalha, mas no cotidiano de milhões de pessoas que continuam vivendo, trabalhando e cuidando umas das outras em meio a apagões, frio intenso e incertezas

Para os soldados ucranianos, que há mais de 1.400 dias mantêm uma linha de frente de quase 2.000 quilômetros contra as forças invasoras russas, enfrentando artilharia pesada, bombas aéreas, drones com inteligência artificial e até o uso de armas químicas – em violação de convenções internacionais –, o rigor do inverno não representa uma novidade. Eles vivem há anos sob condições extremas. No entanto, essa realidade se converte em uma arma psicológica quando seus entes queridos permanecem expostos ao frio, à escuridão e à insegurança em cidades congeladas.

Desde o início da agressão, a Federação Russa tem conduzido ataques direcionados contra centrais elétricas, subestações, redes de distribuição de água e sistemas de aquecimento urbano da Ucrânia. Esses ataques não são aleatórios nem simples “danos colaterais”. Seguem uma lógica clara: tornar a vida civil insustentável, pressionar a população e minar a capacidade de resistência do Estado ucraniano. Essa prática contrasta abertamente com discursos recentes de autoridades russas que, em fóruns internacionais, evocam o direito internacional e a Carta das Nações Unidas.

O impacto dessas ações é imediato e profundo. Quando a eletricidade é interrompida, não se perde apenas a luz. Hospitais passam a depender de geradores limitados, sistemas de abastecimento de água deixam de funcionar, as comunicações são prejudicadas e o aquecimento central – essencial para cidades inteiras – simplesmente desaparece. Em edifícios residenciais, famílias improvisam fontes de calor, muitas vezes arriscadas, para proteger crianças e idosos da exposição prolongada ao frio.

Mesmo em um contexto global marcado pelo aquecimento climático, o inverno deste ano tem sido particularmente rigoroso na Ucrânia. Nas últimas semanas, diversas regiões registraram temperaturas entre –15 °C e –20 °C por vários dias consecutivos, agravando de forma significativa os efeitos da destruição de infraestruturas civis.

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Diante desse cenário, a resposta interna tem sido marcada por organização, solidariedade e resiliência. Voluntários e funcionários do Serviço Estatal de Emergência da Ucrânia organizam pontos temporários de aquecimento, distribuem água potável, alimentos e itens básicos, além de prestar apoio direto às comunidades mais vulneráveis. Escolas, centros comunitários e edifícios públicos são adaptados para funcionar como abrigos emergenciais.

Essa resistência cotidiana revela a força da sociedade ucraniana, mas também seus limites. Nenhuma rede voluntária, por mais dedicada que seja, consegue substituir infraestruturas energéticas destruídas nem compensar ataques contínuos contra alvos civis. A sobrevivência durante o inverno, nessas condições, depende também de apoio internacional concreto, previsível e sustentável.

É nesse contexto que surge a iniciativa internacional #WarmthForUkraine, liderada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha. A proposta é mobilizar governos, instituições, empresas e a sociedade civil para apoiar projetos voltados à restauração de sistemas de energia e ao fornecimento de equipamentos essenciais, como geradores, transformadores e meios de aquecimento, capazes de proteger a população civil durante o inverno.

A Embaixada da Ucrânia no Brasil participa ativamente dessa iniciativa, reforçando a importância da solidariedade prática. O apoio à Ucrânia não se limita a declarações políticas ou posicionamentos diplomáticos – ainda que estes tenham seu valor. Ele se traduz, sobretudo, em ações concretas que permitem que famílias atravessem o inverno com dignidade, segurança mínima e acesso a serviços básicos.

Nesse sentido, o papel do Brasil e da comunidade internacional é fundamental. Como país que historicamente defende o multilateralismo, a proteção de civis e o respeito ao direito internacional, o Brasil pode contribuir de forma significativa para esforços humanitários voltados à população ucraniana. Solidariedade, neste caso, não significa tomar parte em um conflito, mas afirmar princípios básicos de humanidade – uma mão estendida ao próximo – diante de uma crise evidente.

A destruição deliberada de infraestrutura civil essencial da Ucrânia em pleno inverno não é apenas uma tática militar; é uma questão ética e política. Ela coloca à prova o compromisso da comunidade internacional com a proteção de civis, especialmente quando crianças, idosos e pessoas em situação de maior vulnerabilidade são os mais afetados.

A Ucrânia segue resistindo – não apenas no campo de batalha, mas no cotidiano de milhões de pessoas que continuam vivendo, trabalhando e cuidando umas das outras em meio a apagões, frio intenso e incertezas. Essa resistência se expressa em cada casa que tenta se manter aquecida, em cada ponto de apoio improvisado, em cada comunidade que se organiza para atravessar o inverno com dignidade e cuidado mútuo.

Nesse cenário, ações humanitárias promovidas pela Metropolia Católica Ucraniana São João Batista, sediada em Curitiba (PR), no Brasil, em articulação com a campanha internacional #WarmthForUkraine e com o Congresso Mundial dos Ucranianos, oferecem uma forma concreta de solidariedade. O apoio da sociedade brasileira a essas iniciativas representa um gesto humano de proximidade com civis que enfrentam um inverno particularmente difícil. Informações sobre diferentes formas de apoio podem ser encontradas nas páginas da Metropolia, da RCUB (Representação Central Ucraniano-Brasileira), bem como nos canais oficiais da Embaixada da Ucrânia no Brasil no Instagram e no Facebook.

Oleg Vlasenko é encarregado de negócios da Ucrâniano Brasil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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