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Na política, como no futebol, a premiação deveria depender do desempenho. O Centrão chegou ao segundo turno, mas será que merece participar de um eventual governo Flávio Bolsonaro sem antes provar seu valor nas urnas?
Ninguém ignora que somar parlamentares num bloco de apoio para obter governabilidade é, sim, importante. Mas, estando ainda disputando a eleição, isso nem é moeda de troca, especialmente quando se pode entregar mais e garantir atravessar a linha de chegada.
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com 56,1 milhões de votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, superando Lula e surpreendendo boa parte da classe política. O resultado foi conquistado antes da adesão formal dos partidos que agora se apresentam como aliados. Foi, sobretudo, uma vitória política do bolsonarismo, de sua militância e da força eleitoral construída em torno de Jair Bolsonaro.
O candidato demonstrou que não dependia das cúpulas do Centrão para chegar à frente. Agora, com a possibilidade concreta de vitória, os antigos espectadores começam a entrar em campo e, como é histórico, devem estar exigindo bem mais do que vão entregar.
O movimento é revelador. União Brasil e PP, comandados por Antônio Rueda e Ciro Nogueira, respectivamente, anunciaram apoio em 6 de outubro. O Republicanos, presidido por Marcos Pereira, aderiu no dia seguinte, seguido pelo Podemos, de Renata Abreu. O MDB, sob a presidência de Baleia Rossi, chegou dividido, com 17 dos 27 diretórios estaduais favoráveis a Flávio e dez ao lado de Lula.
Também desembarcaram no segundo turno figuras como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Ratinho Junior. É certamente benéfico ampliar alianças para vencer uma eleição. O que não parece legítimo é confundir adesão tardia com direito antecipado a cargos em um eventual governo.
O bolsonarismo e os aliados que estiveram em campo desde o primeiro turno conquistaram uma vantagem que merece ser reconhecida. Aos recém-chegados cabe provar que vieram para somar, não apenas para participar da premiação
Há, entretanto, uma diferença fundamental entre quem ajudou a construir o resultado e quem chegou depois. No primeiro turno, Flávio contou com o apoio declarado de candidatos a governador como Jorginho Mello, em Santa Catarina; Sergio Moro, no Paraná; Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul; Marcos Rogério, em Rondônia; e Tarcísio de Freitas, em São Paulo. Otaviano Pivetta, em Mato Grosso, e Eduardo Riedel, em Mato Grosso do Sul, também estiveram entre seus apoiadores.
Ao todo, dez governadores eleitos no primeiro turno haviam declarado apoio a Flávio. Esses aliados não podem ser colocados na mesma condição de quem resolveu aderir somente depois de conhecer o placar.
O Nordeste é a melhor demonstração da força eleitoral conquistada pelo bolsonarismo. Mesmo enfrentando a estrutura política de governadores ligados a Lula, Flávio obteve 10,4 milhões de votos na região, contra 8,79 milhões alcançados por Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022. São mais de 1,6 milhão de votos adicionais, conquistados sem o apoio formal das principais cúpulas do Centrão.
É impossível determinar a origem individual de cada voto, mas é inegável o papel da militância bolsonarista nessa expansão. Agora, os novos aliados precisam demonstrar que são capazes de ampliar esse resultado, especialmente nos estados em que dispõem de prefeitos, deputados e estruturas políticas consolidadas.
A Bahia oferece o exemplo mais expressivo dessa cobrança. ACM Neto disputou o governo estadual e perdeu para Jerônimo Rodrigues, apesar de conquistar 43,72% dos votos válidos, cerca de 3,6 milhões de eleitores. Flávio Bolsonaro, sem seu apoio no primeiro turno, recebeu 28,53%, aproximadamente 2,44 milhões de votos. Enquanto o bolsonarismo defendia seu candidato presidencial, Neto havia declarado preferência por Ronaldo Caiado. Agora, derrotado e com Flávio à frente da disputa nacional, decidiu apoiá-lo.
A pergunta é inevitável: quantos votos a mais ACM Neto será capaz de entregar ao candidato do PL? Seus quase 44% na eleição estadual não constituem um patrimônio eleitoral automaticamente transferível, mas é precisamente essa capacidade de transferência que precisa ser demonstrada.
A cobrança se torna ainda mais necessária quando observamos que Lula obteve 66,17% dos votos na Bahia e que, em todo o Nordeste, sua vantagem sobre Flávio ultrapassou 11 milhões de votos. Os novos aliados dispõem de estruturas que o bolsonarismo não controlava no primeiro turno. União Brasil, PP, Republicanos e MDB possuem lideranças municipais com capacidade de mobilização. Portanto, não basta anunciar uma aliança nacional, posar para fotografias ou prometer empenho. É preciso transformar a chegada dessas lideranças em votos efetivos.
No futebol profissional, existem contratos e premiações vinculados à performance. O jogador pode receber bônus conforme metas de gols, participação em partidas, desempenho individual ou conquistas coletivas. A própria Lei Geral do Esporte, no artigo 85, reconhece os prêmios por desempenho ou resultado.
A lógica é simples. Quem produz resultados merece reconhecimento. Por que a política não poderia adotar raciocínio semelhante? Se um jogador chega ao segundo tempo, quando o time já está vencendo, não pode reivindicar a mesma premiação de quem enfrentou toda a partida e construiu a vantagem.
Curiosamente, o próprio sistema eleitoral brasileiro já conhece a lógica do desempenho. A Emenda Constitucional 97/2017 instituiu uma cláusula que condiciona o acesso dos partidos ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita ao cumprimento de requisitos eleitorais. Em 2026, exige-se um mínimo de 2,5% dos votos válidos nacionais para deputado federal, com determinada distribuição territorial, ou a eleição de pelo menos 13 deputados federais distribuídos por nove unidades da Federação.
Evidentemente, essa regra jurídica não se confunde com a proposta política aqui defendida. Mas revela que não é absurdo vincular benefícios institucionais à representatividade demonstrada nas urnas. Flávio poderia, portanto, estabelecer uma espécie de cláusula política de performance para os aliados que chegam agora.
Na Bahia, por exemplo, ACM Neto deveria trabalhar para elevar a votação presidencial de 2,44 milhões para pelo menos 3 milhões de votos. No Nordeste, uma meta coletiva poderia ser superar 11,5 milhões, contra os 10,4 milhões do primeiro turno. São parâmetros propostos para discussão, não projeções eleitorais.
A avaliação precisaria considerar a evolução dos votos em cada estado, sobretudo nos municípios em que essas lideranças possuem maior influência. Assim, eventuais espaços políticos em um governo Flávio seriam discutidos a partir de resultados efetivos, sem dispensar a competência e os requisitos legais para o exercício dos cargos.
A chegada do Centrão pode ser importante para vencer Lula e assegurar sustentação parlamentar a um eventual governo. Mas apoio político não deveria funcionar como ingresso antecipado para a distribuição de ministérios e outros cargos. O bolsonarismo e os aliados que estiveram em campo desde o primeiro turno conquistaram uma vantagem que merece ser reconhecida. Aos recém-chegados cabe provar que vieram para somar, não apenas para participar da premiação.
Se a política pretende valorizar o mérito, que comece exigindo desempenho de quem deseja ocupar o poder. Afinal, quem chega no segundo tempo também precisa fazer gols para merecer levantar a taça.
Zizi Martins é advogada pública, comentarista e analista política, com pós-doutorado em Política, Comportamento e Mídia, doutorado em Educação, mestrado em Direito e especialização em Gestão Pública.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



