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A arte gerada por IA pode não ser o aspecto mais inquietante da ascensão da inteligência artificial em praticamente todos os setores, mas é bastante inquietante. O The New York Times publicou recentemente uma entrevista com a “atriz” de IA Tilly Norwood, um avatar computacional que já apareceu em inúmeros clipes de vídeo. Livros escritos por IA estão inundando a Amazon e outras plataformas. Uma música country criada por IA liderou as paradas no ano passado. É fácil imaginar um mundo em que a facilidade de criar arte com IA prevaleça e a IA acabe gerando a maior parte dos nossos livros, filmes, músicas e outras criações artísticas.
Isso seria uma tragédia em vários níveis. Primeiro, provavelmente tiraria do trabalho um grande número de criadores humanos. Segundo, como os modelos estatísticos que sustentam a IA tendem a favorecer as palavras e imagens mais comuns, um mundo de arte gerada por IA poderia facilmente se tornar um mundo de mediocridade banal, em vez de genialidade artística. Terceiro, parte do que torna a arte tão transcendente e valiosa é a comunhão emocional entre o artista e o público. Essa comunhão se perde quando o “artista” é um modelo computacional.
Isso é sério. Como vários estudiosos e comentaristas argumentaram, produzir arte faz parte do que nos torna humanos. A capacidade de contar histórias, representar objetos em forma de imagem e transmitir emoção por meio da música é uma parte fundamental da humanidade. Se terceirizarmos esse fogo criativo para as máquinas, perderíamos uma parte preciosa de nós mesmos.
Por mais perturbador que tudo isso seja, não é inevitável. Como sociedade, nós realmente podemos “simplesmente dizer não” à arte de IA. A história está repleta de exemplos de tecnologias que prometiam eficiência e/ou prazer, mas acabaram sendo rejeitadas porque não gostávamos do que poderiam fazer com a nossa humanidade. A arte de IA poderia ter o mesmo destino.
A tecnologia nem sempre vence
Considere as refeições congeladas para assistir à TV (TV dinners). No início da década de 1950, a ascensão da televisão, combinada com avanços no processamento de alimentos, tornou possível que as famílias comessem jantares congelados industrializados enquanto se reuniam em volta do aparelho de TV. As refeições de TV foram celebradas como a próxima grande novidade da economia doméstica. Um cientista social em 1955 poderia facilmente prever que elas se tornariam quase universais, dado que usavam a tecnologia mais recente para unir conveniência e entretenimento.
Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. Em vez disso, alguns estudos do século XXI descobriram que “entre um quarto e um terço das refeições em família são feitas na frente da TV”. Isso ainda é alto demais, mas é uma minoria. Muitas décadas depois de as refeições de TV entrarem na cultura, elas não a conquistaram. Na verdade, especialmente entre americanos mais escolarizados, eu diria que as refeições de TV são vistas como algo de mau gosto e sem graça. A ciência social apoia esse instinto: os jantares em família, sem a mediação de telas, “oferecem uma oportunidade especialmente valiosa para que os membros da família se reúnam para compartilhar os altos e baixos do dia, discutir questões pessoais, acontecimentos atuais e as grandes questões do momento, e, em geral, desfrutar da companhia uns dos outros”, escreve Glenn T. Stanton no Daily Citizen. O fracasso das refeições de TV em conquistar a cultura é apenas um exemplo de uma sociedade resistindo a um “avanço” tecnológico que, em certa época, pode ter parecido inevitável. As pessoas viram como seria uma família entorpecida comendo comida industrializada na frente da TV — e não gostaram do que viram. Não parecia pró-social nem humano.
Há também exemplos mais recentes de a sociedade descartar uma tecnologia porque ela não parecia humana. Considere, por exemplo, o fracasso tragicômico do Google Glass. Quando foi lançado, há catorze anos, era fácil imaginar que a maioria das pessoas logo estaria vivendo com óculos conectados à internet que filtravam e aumentavam tudo o que viam. Em vez disso, o Google Glass passou a ser visto como assustador e perturbador. Até mesmo uma geração confortável com smartphones considerou a tecnologia um passo longe demais. No amanhecer promissor de 2026, quase todos os óculos de grau e de sol ainda são do tipo analógico e de baixa tecnologia.
Em seguida, considere as redes sociais. Há uma década, elas pareciam prestes a conquistar o mundo, mas isso já não é mais o caso. Como escreveu o economista e blogueiro Noah Smith em dezembro de 2025: “o uso mundial de redes sociais parece ter atingido seu pico para todas as faixas etárias no início da década de 2020 e agora está em declínio… isso provavelmente é impulsionado por uma percepção geral entre os jovens de que o uso de redes sociais é prejudicial à saúde”. As pessoas não gostavam do que a isca de indignação, a ostentação e a competição das redes sociais estavam fazendo com a sua humanidade. Por isso, começam a se afastar delas.
Por fim, considere uma das tecnologias mais poderosas e perturbadoras de todas: a clonagem humana. Já se passaram mais de trinta anos desde que a ovelha Dolly provou a viabilidade técnica da clonagem de mamíferos a partir de uma célula adulta. No entanto, nesses trinta anos, a reprodução humana não migrou para a clonagem. Em vez disso, decidimos que essa tecnologia é fundamentalmente antihumana e a renunciamos. Essa foi uma escolha social que fizemos coletivamente.
Poderíamos fazer a mesma escolha em relação à arte de IA. Poderíamos decidir coletivamente que é sem graça, perturbador ou desumano consumir arte produzida por um algoritmo de IA. Poderíamos escolher não assistir a filmes de IA, não ler livros escritos por IA e não ouvir músicas criadas por IA. Nada nos impede de fazer essa escolha.
A capacidade de contar histórias, representar objetos em forma de imagem e transmitir emoção por meio da música é uma parte fundamental da humanidade. Se a terceirizarmos para as máquinas, perderemos uma parte preciosa de nós mesmos.
Nem toda IA é igual
Isto não é necessariamente um grito luddita para abandonar toda a IA. Na verdade, há uma distinção importante entre arte de IA e ciência de IA. No campo científico, os possíveis benefícios da IA são tão atraentes e vastos que talvez seja melhor avançar, ainda que com as melhores salvaguardas que conseguirmos criar. No campo biomédico, por exemplo, avanços possibilitados pela IA podem ajudar a curar o câncer ou outras doenças. No campo da ciência dos materiais, a IA pode inaugurar novos metais ultraleves que mudem a indústria para melhor. No campo da física, a IA pode desvendar o código da fusão nuclear, dando-nos um futuro de energia limpa e abundante.
Em contraste, é difícil ver um benefício equivalente na arte de IA. Em vez de curar o câncer ou anunciar avanços em energia limpa, a arte de IA parece prestes a inaugurar um mundo de vídeos sem valor e romances derivativos. E mesmo que essa projeção seja pessimista demais — mesmo que a IA crie obras de arte de alta qualidade —, parte do que torna a arte tão valiosa é justamente o fato de ela ser criada por humanos. A arte é um reflexo da nossa humanidade compartilhada. Entregá-la às máquinas empobreceria nossa sociedade e nossa cultura, não importa o que as máquinas venham a criar.
De fato, ao longo da história humana, o poder da arte tem sido inseparável de sua criação humana. Os poemas épicos de Homero são tão populares porque são histórias queridas, criadas e preservadas por gerações de gregos antigos. Eles representam o gênio e a continuidade da cultura grega. Um épico ao estilo homérico criado por um robô de IA não teria a mesma ressonância. No máximo, pareceria uma imitação pálida.
As pinturas do Alto Renascimento são semelhantes. Seus temas religiosos e clássicos refletem artistas humanos em um momento específico da história, quando o cristianismo medieval era desafiado por um pensamento mais “racionalista”, inspirado no mundo clássico. As pinturas de Michelangelo e Leonardo da Vinci evocam seus criadores humanos, que lutavam entre a fé e o racionalismo. Um robô de IA não viveria a mesma luta e não poderia criar obras com a mesma carga emocional.
Não queremos um mundo em que os futuros Homeros e Michelangelos sejam substituídos por robôs de IA. Esse seria um mundo vastamente empobrecido. E, novamente: quando se trata de IA, a sociedade tem o poder de escolher o nosso próprio futuro. Os magnatas da tecnologia podem não gostar, mas nós realmente temos esse poder. Assim, podemos escolher rejeitar a arte de IA. Eu acho que deveríamos fazer essa escolha.
Joshua L. Sohn é advogado e escritor em Washington, D.C. Seus textos já foram publicados em Public Discourse, The Atlantic, The Washington Examiner, America, Commonplace e Plough, além do blog do Institute for Family Studies e de diversas revistas jurídicas.
©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: We Can Just Say No to AI Art



