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Reestatizar e taxar ricos: ideias do novo premiê devem deixar o Reino Unido ainda mais atrasado

Trajetória do novo premiê britânico é marcada por ações estatizantes. (Foto: Imagem produzida por Gemini IA/Gazeta do Povo)

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Em 20 de julho, Andy Burnham esteve no Palácio de Buckingham, onde o rei Charles III o convidou a formar um governo, tornando-o o sétimo primeiro-ministro da Grã-Bretanha em apenas uma década. Apelidado de "o Rei do Norte" — referência tanto à série Game of Thrones quanto à popularidade de seu mandato como prefeito de Greater Manchester desde 2017 —, Burnham chega ao cargo como uma das figuras políticas mais conhecidas do país.

Sua trajetória reúne muitos dos atributos valorizados pelo establishment, mas quase nenhum de seus desgastes. Ex-ministro nos governos de Tony Blair e vencedor de três reeleições consecutivas para a prefeitura de Manchester, Burnham escapou dos escândalos que marcaram o Partido Trabalhista nas últimas duas décadas. Ao mesmo tempo, construiu uma marca política própria, forte o suficiente para ofuscar, em diversos momentos, a liderança de Sir Keir Starmer.

Seu retorno à política nacional foi cuidadosamente planejado. Em fevereiro de 2026, o Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista impediu sua candidatura à eleição suplementar de Gorton and Denton. A oportunidade surgiu três meses depois, quando seu aliado Josh Simons renunciou ao assento por Makerfield. A renúncia foi deliberadamente articulada para permitir que Burnham disputasse a vaga, tornando essa a primeira eleição suplementar organizada para "desembarcar" um candidato em uma cadeira parlamentar desde 1965.

Em termos estritamente legais, o líder de um partido não precisa ser deputado. Na prática, porém, as convenções políticas herdadas do século XIX continuam exercendo forte influência sobre o funcionamento do sistema britânico.

Apesar da ascensão meteórica, ainda há certa ambiguidade em torno da posição ideológica de Burnham e das políticas que pretende implementar. A ponto de Aiden Hayes, comentarista da Sky News, afirmar que "ninguém sabe o que ele defende". A declaração, contudo, exagera. Sua atuação como prefeito de Manchester oferece um retrato bastante claro de suas convicções econômicas e de sua visão mais ampla de governo, além de mostrar que ele nunca foi discreto sobre os rumos que gostaria de dar à política britânica.

Embora já fosse amplamente popular em Manchester, Burnham ganhou projeção nacional durante a pandemia de COVID-19. Naquele período, criticou duramente a distribuição de recursos feita por Westminster e sustentou que Manchester — assim como grande parte das regiões do Reino Unido — recebia apoio financeiro insuficiente para enfrentar a crise.

Ao assumir o cargo de primeiro-ministro, prometeu abrir mão de parte do poder concentrado em Westminster. Comprometeu-se a transferir parte da estrutura do gabinete do premiê para o norte da Inglaterra e a ampliar a autonomia econômica das regiões, no que definiu como a maior redistribuição de poder da história recente do país. Essa visão recebeu o nome de Manchesterism.

O que é o Manchesterism

No centro da doutrina está uma ideia simples: os bens e serviços essenciais — água, energia, moradia e transporte — tornaram-se caros porque foram subordinados ao lucro privado, e um controle público maior reduziria seus custos tanto para a população quanto para o Estado.

Em um artigo publicado no The Guardian em janeiro de 2026, o próprio Burnham resumiu sua visão ao afirmar: "Os quatro cavaleiros do apocalipse britânico são desindustrialização, privatização, austeridade e Brexit."

Em muitos aspectos, trata-se de um socialismo regionalista, semelhante às críticas tradicionais do Partido Trabalhista ao modelo econômico britânico. Burnham, porém, procura apresentá-lo como o "modelo Manchester": uma experiência desenvolvida em nível local que agora pretende ampliar para todo o país, tendo como principal objetivo enfrentar a crise do custo de vida.

O Manchesterism, entretanto, antecede a gestão de Burnham. Como observa Ian Harvey, em artigo publicado na The Conversation, a ideia é resultado de décadas de cooperação entre administrações locais, comunidades, empresas, universidades, o NHS e outras instituições públicas. Nesse sentido, o movimento seria maior do que qualquer liderança política individual.

Tributos e moradia

Na política tributária, Burnham segue uma linha relativamente clara. Defende uma reorganização das faixas do imposto de renda para aliviar a carga sobre os trabalhadores de menor renda e aumentar a tributação dos mais ricos. Entre as propostas estão a criação de uma alíquota inicial de 10% — em substituição aos atuais 20% — e a restauração da alíquota máxima de 50%.

Ao mesmo tempo, classifica o council tax — imposto anual destinado ao financiamento de serviços locais e assistência social — como "profundamente regressivo", por ainda utilizar como referência o valor dos imóveis em 1991. Apesar disso, reafirmou o compromisso assumido pelo Partido Trabalhista nas eleições de 2024 de não elevar o imposto de renda, a contribuição para o seguro nacional nem o VAT incidente sobre os trabalhadores.

Sua convicção mais forte, contudo, parece estar na política habitacional. No primeiro discurso como premiê, prometeu o maior programa de construção de moradias sociais desde o pós-guerra e elogiou o modelo finlandês, baseado no princípio de que uma casa deve ser tratada como infraestrutura pública, e não como ativo de especulação financeira.

Base legal

Parte importante da estrutura necessária para implementar o Manchesterism em escala nacional já foi construída durante o governo anterior.

O Great British Energy Act (2025) criou uma empresa estatal voltada à expansão da energia limpa. Já o Passenger Railway Services (Public Ownership) Act iniciou a reincorporação gradual das operadoras ferroviárias ao setor público, por meio da nova Great British Railways, à medida que os contratos privados forem expirando.

Para Burnham, porém, a medida mais relevante é o English Devolution and Community Empowerment Act (2026), em vigor desde abril. A legislação estabelece um modelo padronizado de competências para prefeitos metropolitanos e concede às autoridades locais o direito de solicitar novas transferências de poderes ao governo central.

O teste fiscal

No fim das contas, o Manchesterism enfrentará um desafio maior do que qualquer outro encontrado em Greater Manchester: a reação dos mercados financeiros.

Burnham assume o governo dispondo de uma base legislativa amplamente favorável aos seus objetivos. O principal obstáculo não é jurídico, mas fiscal. Implementar seu programa exigirá recursos significativos em um contexto de margem orçamentária bastante limitada.

O novo primeiro-ministro sustenta que sua agenda tende a tranquilizar, e não a alarmar, os investidores, argumentando que a ampliação do controle público reduzirá os custos de longo prazo para o Estado. Resta saber se o mercado de títulos públicos britânicos compartilhará dessa avaliação.

Jake Scott é um teórico político britânico especializado em populismo, constitucionalismo democrático e formação de identidades populares, com doutorado na área e atuação acadêmica em diversas universidades do Reino Unido.

©2026 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: Andy Burnham Takes the Stage

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