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Renegociação não basta para resolver endividamento das famílias

Os programas de renegociação continuam sendo necessários. O problema é acreditar que eles, isoladamente, serão capazes de interromper o ciclo da inadimplência. (Foto: Daniel Dan / Unsplash )

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Os dados divulgados no final de setembro pelo Banco Central acendem novamente um alerta sobre a saúde financeira e aumento das dívidas dos brasileiros. Em agosto, a inadimplência da carteira de crédito total do Sistema Financeiro Nacional chegou a 5,04%, novo recorde. Entre as pessoas físicas, o índice avançou para 6%, também o maior patamar da série histórica.

O dado chama ainda mais atenção porque surge em um momento em que o país volta a ampliar programas de renegociação de dívidas. Depois de novas versões do Desenrola Brasil, a pergunta que precisamos fazer é: renegociar o passivo das famílias é suficiente para reduzir de forma sustentável a inadimplência?

A resposta, na minha avaliação, é não. Renegociar dívidas é fundamental para permitir que milhões de pessoas reorganizem a vida financeira, recuperem capacidade de consumo e voltem a acessar o sistema de crédito. Mas essa é uma medida que atua, principalmente, sobre o problema já instalado.

A discussão precisa avançar para o que acontece antes da inadimplência. Hoje, o brasileiro convive com uma combinação difícil: orçamento pressionado, elevado comprometimento da renda e crédito caro. Em agosto, a taxa média do crédito livre destinado às pessoas físicas chegou a 61,7% ao ano. Nesse cenário, um desequilíbrio que inicialmente poderia ser administrável pode rapidamente se transformar em uma dívida difícil de pagar.

Tirar alguém da inadimplência é importante. Mais importante ainda é criar condições para que essa pessoa não volte para ela

É justamente por isso que não podemos confundir acesso ao crédito com inclusão financeira. Crédito é um instrumento essencial para movimentar a economia, financiar projetos e atravessar momentos de necessidade. Porém, quando é concedido sem uma avaliação adequada da capacidade real de pagamento, pode deixar de ser solução e se tornar parte do problema.

O avanço tecnológico do sistema financeiro brasileiro já permite trabalhar de forma muito mais preventiva. A análise de risco não precisa considerar apenas se o cliente está negativado. Hoje é possível observar histórico de pagamentos, comportamento financeiro, comprometimento da renda, movimentação recorrente e outras informações que ajudam a compreender se determinada operação realmente cabe no orçamento daquele consumidor.

Essa mudança de lógica é fundamental. A pergunta de uma instituição financeira não deveria ser apenas quanto de crédito ela consegue oferecer, mas quanto aquele cliente consegue contratar sem comprometer a própria estabilidade financeira.

O mesmo raciocínio vale para as empresas. No dia a dia do mercado financeiro, vemos companhias que enfrentam dificuldades não necessariamente porque o negócio deixou de ser viável, mas por problemas de fluxo de caixa. Um descasamento entre recebimentos e pagamentos pode gerar atrasos, comprometer fornecedores e criar uma sequência de endividamento.

Nesse contexto, ferramentas como antecipação de recebíveis, capital de giro estruturado, organização da folha de pagamento e gestão financeira integrada podem funcionar de maneira preventiva. Quando utilizadas de forma responsável, ajudam empresas a administrar necessidades pontuais de caixa antes que elas se transformem em inadimplência.

Para o trabalhador, essa integração também importa. A relação financeira vinculada à folha pode oferecer às instituições informações mais precisas sobre renda e capacidade de pagamento, permitindo a construção de produtos mais compatíveis com a realidade de cada cliente. Isso tende a produzir uma concessão de crédito mais eficiente do que decisões baseadas apenas em limites genéricos.

Há, portanto, uma diferença importante entre ampliar crédito e ampliar crédito saudável. O primeiro pode simplesmente aumentar o endividamento. O segundo precisa considerar capacidade de pagamento, finalidade, custo, prazo e impacto daquela obrigação no orçamento.

Os programas de renegociação continuam sendo necessários. O problema é acreditar que eles, isoladamente, serão capazes de interromper o ciclo da inadimplência. Se o consumidor renegocia uma dívida hoje, mas volta amanhã para um ambiente de crédito caro, orçamento pressionado e pouca capacidade de planejamento, existe uma possibilidade concreta de que o problema reapareça.

Por isso, o enfrentamento da inadimplência exige uma atuação conjunta. O consumidor precisa ter acesso à educação e organização financeira. As instituições precisam aperfeiçoar a análise de risco e oferecer produtos compatíveis com a capacidade de pagamento. As empresas podem contribuir oferecendo soluções financeiras mais eficientes aos trabalhadores. E políticas públicas precisam olhar não apenas para a recuperação das dívidas antigas, mas também para a prevenção das novas.

O recorde divulgado pelo Banco Central deve ser interpretado como um sinal de que ainda temos um problema estrutural. O Brasil avançou muito na inclusão bancária e na digitalização dos serviços financeiros. O próximo passo precisa ser avançar também na qualidade dessa inclusão. Porque tirar alguém da inadimplência é importante. Mais importante ainda é criar condições para que essa pessoa não volte para ela.

Vanderson Aquino, especialista em Ciências Contábeis e Gestão Financeira, é fundador e CEO do Mêntore.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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