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O Rio Grande do Sul virou figurante no próprio drama. Enquanto milhares de gaúchos ainda lutam para reconstruir casas, negócios e vidas depois da maior catástrofe climática da nossa história, o governo parece viver em outra realidade – uma realidade construída pelo marketing, pela estética e pelo cálculo político. Venderam a imagem de seu governo como a de um gestor moderno e eficiente, mas o que se vê hoje é um estado que não consegue avançar, com prioridades invertidas e uma obsessão evidente pela própria imagem. A vaidade do governo de Eduardo Leite chega a ser comparável ao amor de Narciso por si mesmo. Na mitologia, quem pagou o preço foi o próprio Narciso. Na política, a conta sempre vem para o pagador de impostos.
A instalação de quadras de beach tennis na sede do governo e a tentativa de compra de um jatinho de mais de R$ 70 milhões não são apenas episódios isolados, são símbolos de um governo desconectado da realidade de quem paga imposto. A tentativa de transformar a tragédia das enchentes em produto audiovisual institucional, financiado sob o argumento de “registrar a história”, é o retrato de uma gestão que prioriza parecer eficiente em vez de ser eficiente. O marketing virou política pública. A publicidade institucional segue inflada, tentando convencer a população de que o estado é um canteiro de obras, quando, na prática, ainda é um canteiro de incertezas.
Na educação, denúncias de aprovação automática para inflar indicadores revelam algo ainda mais preocupante: a maquiagem de números substituindo o enfrentamento dos problemas reais. Na infraestrutura, o imbróglio dos pedágios – que motivou até CPI – expõe falhas técnicas e contratos que podem amarrar a economia gaúcha por décadas. Quando setor produtivo, parlamentares e sociedade convergem em críticas, não é ruído político, é sinal de erro estrutural. O povo gaúcho precisava de um governo focado em logística, competitividade e reconstrução. Recebeu, em troca, narrativa e projeção pessoal.
Mas existe uma verdade incômoda por trás de tudo isso: o Rio Grande do Sul parece pequeno demais para o projeto pessoal de poder. O governo construiu a imagem de “centro”, tentando agradar direita e esquerda ao mesmo tempo, mas foi eleito com apoio decisivo do PT no último pleito, fato que desmonta o discurso de neutralidade ideológica. Esse comportamento “murista” pode ser útil eleitoralmente, mas é péssimo para governar, pois gera ambiguidade, falta de rumo e decisões baseadas em conveniência política.
E o histórico preocupa ainda mais. Não seria novidade se Eduardo Leite repetisse o roteiro e abandonasse o governo antes do fim do mandato para disputar o sonho pessoal de chegar à Presidência da República. O problema não é ter ambição, é usar o estado como trampolim. O Rio Grande do Sul não pode pagar novamente o preço de um projeto individual de poder. O povo gaúcho não precisa de alguém que governa olhando para o horizonte de Brasília; precisa de um governador que enxergue as cicatrizes do nosso estado e governe, de fato, para quem paga a conta, não pensando na próxima pesquisa eleitoral. O Rio Grande do Sul não precisa de um candidato a presidente. Precisa de um governador presente. Até o fim.
Matheus Schilling é advogado e diretor do Instituto Ordem e Liberdade.







