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opinião do dia 1

Sambawood

Protestar contra a massificação e a mercantilização do carnaval é simplesmente inútil. Da mesma forma como é reclamar que os jogadores de futebol não têm mais amor à camisa que vestem

Primeiro foi Holywood, depois Boliwood. Agora, por que não Sambawood?

O belíssimo espetáculo das escolas de samba do Rio de Janeiro mostra que a "ofegante epidemia que se chamava carnaval" que Chico Buarque canta no seu "Vai Passar" atingiu um nível de qualidade cênica e de organização absolutamente fantásticos. É claro que os cogniscenti do carnaval, aqueles que são capazes de distinguir entre a paradinha da bateria de Mestre André, de Mestre Marcão ou Mestre Ciça, torcerão o nariz para a importação de bailarinos clássicos e de mágicos para o Sambódromo como fez a Unidos da Tijuca. Ou ainda para a substituição do samba no pé pelas coreografias elaboradas, dos cantores "de raiz" pelos gritadores de refrão e outras heresias. Mas ninguém pode negar que a beleza plástica do espetáculo é assombrosa.

Protestar contra a massificação e a mercantilização do carnaval é simplesmente inútil. Da mesma forma como é reclamar que os jogadores de futebol não têm mais amor à camisa que vestem e se tornaram saltimbancos a encantar quem lhes paga melhor. É claro que nós, o distinto público, gostamos de guardar carinhosamente a ilusão de que as cores da bandeira de nosso clube inspiram nos atletas sentimentos superiores de patriotismo e altruísmo e que quando o Mestre-Sala e a Porta-Bandeira da "nossa" escola fazem evoluções na pista, deveríamos baixar os olhos em reverência– minha querida sogra, dona Tereza nunca deixou de se emocionar com a "sua" Mangueira, aliás um amor pouco recíproco pelo jejum de títulos da verde e rosa. O carnaval, assim como o esporte em geral, viraram grandes espetáculos de massa, acompanhados e admirados por milhões, bilhões de pessoas, o que faz salivar profusamente todos os vendedores de material esportivo e promotores de espetáculos.

O carnaval de outros lugares, como Salvador, tem características diferentes, mas a massificação é a mesma: trios elétricos gigantescos, com energia instalada que poderia iluminar uma cidade de porte médio a percorrer o roteiro dos camarotes e as ruas de Salvador, seguidos por multidões de foliões. Uma coisa espontânea, aberta ao público? Nada disso. Para seguir o trio ou o bloco de perto, você deve comprar um abadá, o uniforme de folião, pois sem ele você não vencerá os cordões de isolamento encarregados de evitar os penetras e ingênuos que acreditam naquela história do "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu..." Atrás do trio elétrico, só vai quem já pagou...

O fato é que, na esteira desse "empobrecimento" artístico que os especialistas veem no carnaval moderno, criou-se uma capacidade de design, de produção e de geração de empregos invejáveis. Centenas de milhares de pessoas vivem do carnaval permanentemente como carpinteiros, serralheiros, escultores, cenógrafos, costureiras, vendedores de alimentação e muito mais. Pouco a pouco uma verdadeira indústria do entretenimento vai surgindo no Brasil. E a simbiose entre carnavalescos que pesquisam rigorosamente os fatos históricos, as indumentárias, os costumes de época com a cultura popular das ruas, dos morros e favelas, acaba enriquecendo o aspecto de grande espetáculo democrático que é o carnaval, como ressaltam sociólogos como Roberto DaMatta; um dos poucos momentos em que as diferenças sociais são eliminadas para que os granfinos e figurões recebam ordens dos "barões fa­­mintos e dos napoleões retintos" que organizam os desfiles e zelam para que 4 mil pessoas esqueçam a tradicional impontualidade brasileira para chegar na hora, evoluam em exatos 81 minutos, sem correrias nem atrasos, cantem a mesma música, vestidos com fantasias elaboradíssimas, sambando na rua ou em carros alegóricos gigantescos, com efeitos especiais do cinema.

Para os saudosistas, talvez só restem os versos do inesquecível "Samba do Crioulo Doido" de Stanislaw Ponte Preta, que os politica­­mente corretos pretendem rebatizar como "Melodia do Mestiço Acometido de Séria Disfunção Neuropsíquica": "Foi em Dia­­man­­tina, onde nasceu JK, que a Princesa Leopoldina arresolveu se casá. Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes e obrigou a princesa se casar com Tiradentes!"

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.

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