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Existe uma linha que, na minha opinião, jamais deveria ser ultrapassada na política: transformar a saúde das pessoas em instrumento eleitoral. Políticas públicas de saúde precisam, evidentemente, ser discutidas. Precisamos cobrar mais acesso, estrutura, profissionais valorizados, medicamentos, prevenção, diagnóstico e tratamento. Isso faz parte do debate democrático.
Mas existe uma diferença enorme entre discutir seriamente uma política de saúde e transformar a esperança ou o medo de uma população em ferramenta de comunicação política. A saúde não deveria precisar de esquerda ou direita. Ela precisa de evidência, planejamento, estrutura e responsabilidade.
Vivemos situações em que doenças graves se transformaram também em campos de disputa política. A pandemia de Covid-19 foi o exemplo mais evidente. Em meio a uma emergência sanitária real e devastadora, o debate público frequentemente se misturou a disputas partidárias, acusações e desinformação. Quando isso acontece, quem perde é justamente quem deveria ocupar o centro da discussão: o paciente.
Agora temos uma discussão que merece a mesma cautela. Os chamados medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, representam um avanço importante no tratamento da obesidade e de determinadas condições metabólicas. Mas são exatamente isso: medicamentos. Não são produtos estéticos. Não são atalhos. Não são brindes. E não deveriam ser tratados como símbolos de campanha.
Saúde pública séria é aquela que sobrevive às eleições. É aquela que continua funcionando quando muda o prefeito, o governador, o presidente ou o partido
A possibilidade de incorporar esses medicamentos ao SUS merece ser estudada seriamente. Ampliar o acesso a um tratamento eficaz para pessoas que realmente possuem indicação clínica pode representar um avanço importante da saúde pública. Mas acesso responsável é muito diferente de simplesmente disponibilizar uma caneta.
Antes do medicamento vem o diagnóstico. Antes da aplicação vem a avaliação. Durante o tratamento vem o acompanhamento. E depois da perda de peso continua existindo um paciente que precisa ser cuidado.
Obesidade é uma doença crônica e multifatorial. Seu tratamento não deveria ser reduzido a uma injeção semanal. Dependendo do paciente, pode envolver acompanhamento médico, nutricional, atividade física orientada, avaliação de comorbidades, educação em saúde, monitoramento dos efeitos adversos e acompanhamento dos resultados.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas: “Vamos oferecer a caneta gratuitamente?” A pergunta deveria ser muito maior: "Temos estrutura para oferecer o tratamento completo de forma segura, contínua e sustentável para quem realmente precisa?".
Se a resposta for sim, que a política seja construída com critérios técnicos claros, protocolo clínico, indicação adequada, acompanhamento e avaliação dos resultados. Se ainda não houver essa estrutura, ela precisa ser construída. Porque oferecer medicamento sem garantir o cuidado necessário ao redor dele pode criar uma falsa sensação de acesso.
E existe outro problema. Quando um medicamento extremamente popular é apresentado à população apenas pela ideia de que “agora todos terão acesso”, corre-se o risco de alimentar uma interpretação perigosa: a de que emagrecer depende simplesmente de conseguir uma caneta.
Não é assim. Esses medicamentos possuem indicações, contraindicações, precauções e possíveis eventos adversos. Precisam ser prescritos e utilizados adequadamente. A população de menor renda merece acesso às melhores tecnologias disponíveis. Mas merece também algo ainda mais importante: não receber apenas a tecnologia, e sim todo o cuidado necessário para utilizá-la com segurança.
Defender acesso não significa distribuir indiscriminadamente. Questionar a estrutura necessária também não significa ser contra a incorporação. Significa exigir que uma política pública de saúde seja tratada como política de Estado e fundamentada em evidências, e não apenas como uma mensagem atraente para a população.
Saúde pública séria é aquela que sobrevive às eleições. É aquela que continua funcionando quando muda o prefeito, o governador, o presidente ou o partido. É aquela em que o medicamento chega acompanhado de diagnóstico, orientação, monitoramento e continuidade do cuidado. Porque saúde não deveria ser instrumento para conquistar voto. Saúde não tem direita. Saúde não tem esquerda. Saúde tem um foco: o paciente.
Paulo Cezar Machado de Souza é farmacêutico.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



