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| Foto: Marcos Tavares/Thapcom

“A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”, resumiu brilhantemente La Rochefoucauld. Desde que o homem é homem ele tenta aparentar algo que não necessariamente é, de olho na aprovação alheia, em sua reputação.

Na Bíblia já consta dura crítica de Jesus aos fariseus hipócritas, que dizem uma coisa e fazem outra, ou que cantam aos quatro cantos do mundo suas boas ações de olho nos aplausos. “Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade”, sentenciou.

Nada de novo sob o céu, portanto. Mas, forçoso reconhecer, a era das redes sociais amplificou o que já era parte de nossa natureza. Não só vivemos nos tempos mais narcísicos de que se tem notícia, como estamos expostos diariamente em “praça pública”, com milhares de desconhecidos curtindo ou criticando o que postamos. A paranoia tomou conta de todos, assim como o desejo de ficar bem na foto.

Daí o fenômeno do poser, aquele que banca o bom samaritano na internet. Os gringos chamam de “virtue signalling”, ou “sinalização de virtude”, quando alguém faz algum comentário de olho apenas na reação do público, sem qualquer respaldo na realidade. Ocorre quando uma pessoa dá um apoio superficial a alguma causa “nobre”, valorizando mais a aparência que a ação concreta.

Praticar o bem demanda esforço, sacrifício e renúncia aos interesses mais egoístas

Gasta-se pouca caloria para curtir algum movimento social ou causa bonitinha; sem qualquer necessidade de efetivamente colocar a mão na massa, o sujeito já pode se sentir a alma mais bondosa do planeta, além de alimentar a sensação de superioridade moral perante os demais. Vamos admitir: é muito tentador. Praticar o bem demanda esforço, sacrifício e renúncia aos interesses mais egoístas. Pregar o bem ou bancar o legal é moleza: basta um clique.

Se o fenômeno é geral, parece-me inegável que ele ocorre de forma desproporcional na esquerda. O motivo é simples: o esquerdista é justamente aquele que, via de regra, dá mais peso à estética do que ao resultado concreto. Um “progressista” costuma ser mais romântico, depositar fé em belos discursos, na retórica, sem ligar tanto para os efeitos de suas ideias. Fosse o contrário, ele abandonava o esquerdismo, cujo legado não é dos melhores, para dizer o mínimo.

Por que a esquerda sobrevive, então? Justamente porque mexe mais com as emoções que com a razão, e apela ao esteticismo. Como é linda a tese do bom selvagem de Rousseau! Como soa bem aos ouvidos pregar igualdade de resultados! Como produz uma vibe entorpecente se colocar como único defensor dos pobres e oprimidos! Como encanta falar como o representante das minorias!

A marca registrada dessa esquerda é o monopólio das virtudes: só ela se importa com as minorias, com os pobres. E após décadas de hegemonia esquerdista na cultura nacional, claro que os narcisos, lançados nas redes sociais, apelariam para a sinalização de virtude. Quem quer parecer um insensível? Quem aguenta uma turba o acusando de homofóbico, xenófobo, racista, preconceituoso? Poucos.

Do mesmo autor: O Iluminismo britânico e a sociologia da virtude (publicado em 29 de junho de 2017)

Leia também: Uma política da esperança (artigo de Bernardo Guadalupe, publicado em 21 de junho de 2018)

A esquerda tira proveito disso. Com sua patrulha virtual, passou a verificar perfis e postagens de olho em “desvios” de comportamento, em “discursos de ódio”, em qualquer sinal de escorregão diante da cartilha do politicamente correto. Apontar o dedo e acusar os outros sempre foi muito fácil, tanto quanto bancar o bonzinho. Esse clima persecutório, de verdadeira caça às bruxas, serve para intimidar os usuários dessas redes sociais.

Em vez de um Grande Irmão orwelliano, acabamos com milhões de “pequenos irmãos” de olho no que falamos, prontos para denunciar o mínimo “deslize” e até a exigir nossas cabeças no emprego. O grau de linchamento virtual tem aumentado bastante, e não faltam inquisidores atentos, interessados em sinalizar suas “virtudes” na primeira oportunidade.

Tudo isso criou um ambiente tóxico, fortalecendo a hipocrisia nas pessoas. O veneno está na dose. Algum grau de freio entre pensamento e ação deve existir. Preocupar-se com a imagem perante os outros é parte do processo civilizatório. Afinal, como sabia Aristóteles, somos “animais políticos” e só um Deus ou um bruto podem abrir mão disso. No passado, muitos partiam para um duelo de vida ou morte só para salvar sua honra.

Mas o pêndulo extrapolou, passou dos limites. E, se antes havia briga para preservar a honra, ou seja, o que era dito a seu respeito era considerado falso e era preciso lutar em nome da verdade, hoje o que vemos é bem diferente: abundam rótulos terríveis de forma trivial e abusiva, como “fascista” ou “racista”, e os acusados precisam se ajoelhar e pedir desculpas aos acusadores, se quiserem continuar a existir ou trabalhar em determinados meios. É preciso pagar pedágio aos inquisidores para seguir em frente. Ou você também sinaliza suas “virtudes”, ou vai para a fogueira virtual.

Bruno Garschagen: A Universidade não precisa de ideólogos (publicado em 14 de maio de 2018)

Leia também: A política da decência (artigo de João Pereira Coutinho, publicado em 23 de junho de 2018)

Tal postura tem impedido um debate sério e construtivo de ideias nas redes sociais. E tem ajudado a criar clones autômatos, todos repetindo as mesmas ladainhas, endossando as mesmas bandeiras “corretas”, para não serem detonados pela patrulha raivosa. Vamos acabar todos como os atores globais? Os “tolerantes” de esquerda se mostram os mais intolerantes na prática, e aqueles que falam em “pluralismo” são os mais dogmáticos de todos. Ousou discordar uma vírgula de seus mantras, vai pagar caro por isso!

Os conservadores entendem que a verdadeira revolução deve ocorrer de dentro para fora, ou seja, é preciso domesticar a barbárie interior, domar a besta que habita todos nós, sempre à espreita. Por isso é mais importante agir do que falar, focar em resultados em vez de belos discursos. O conservador desconfia das boas intenções expostas, e não culpa a “sociedade” ou o “sistema” por nossos defeitos, mas sim a própria natureza humana. O mito do pecado original captura bem essa humildade.

O mundo seria um lugar melhor se as pessoas arrumassem com esmero sua própria casa antes de querer “salvar o planeta” ou “moldar uma nova sociedade”. E quem faz isso, podem ter certeza, não precisa ficar sinalizando virtudes o tempo todo nas redes sociais, muito menos perseguindo aqueles que pensam diferente. Contam com a consciência limpa de quem realmente age com retidão, apesar dos obstáculos naturais.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
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