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Sportswashing: quando as celebridades do futebol se tornam peças da geopolítica

O atacante do Inter Miami, Lionel Messi (E), entrega um presente ao presidente dos EUA, Donald Trump (C), enquanto Trump recebe os campeões da Major League Soccer, Inter Miami CF, no Salão Leste da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, em 5 de março de 2026. (Foto: EFE/EPA/JIM LO SCALZO)

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Quando Emmanuel Macron entrou em campo para convencer Kylian Mbappé a permanecer no Paris Saint-Germain, ficou evidente que o futebol havia deixado de ser apenas um assunto esportivo. O presidente da França tratava a permanência de um jogador como tema de interesse nacional. O detalhe torna-se ainda mais revelador quando se lembra de que o PSG é controlado pelo fundo soberano do Catar. Em torno de um contrato milionário cruzavam-se interesses esportivos, econômicos e políticos.

Foi nesse ambiente que a transferência de Cristiano Ronaldo para o Al-Nassr, em 2023, ganhou um significado que ultrapassava o mercado da bola. Sua chegada representou um marco na estratégia saudita de utilizar o esporte como instrumento de projeção internacional. Depois dele vieram Neymar, Benzema e outros nomes de peso. Nenhum, porém, carregava o mesmo impacto simbólico.

Ronaldo não levou apenas gols e audiência para a liga saudita. Levou credibilidade. Sua presença ajudou a transformar um campeonato periférico em tema de debate global. De certa forma, fez com o futebol saudita o que grandes marcas tentam fazer ao contratar embaixadores: emprestou prestígio a um projeto que buscava reconhecimento internacional.

É nesse contexto que surge o debate sobre o chamado sportswashing. O termo costuma ser usado para descrever situações em que governos investem pesadamente no esporte para melhorar sua imagem externa. Não se trata apenas de sediar eventos ou contratar celebridades. Trata-se de associar um país a ideias de modernização, dinamismo econômico e relevância global.

O prestígio dos atletas produz efeitos que vão muito além do campo. Eles atraem investimentos, ampliam audiências, despertam o interesse de patrocinadores e ajudam a legitimar mercados esportivos emergentes

A Arábia Saudita talvez seja hoje o exemplo mais visível desse movimento de sportswashing. A confirmação do país como sede da Copa do Mundo de 2034 consolidou um projeto que já vinha sendo construído havia alguns anos. Sob o comando do Fundo de Investimento Público (PIF), o reino assumiu o controle de seus principais clubes, comprou o Newcastle United e expandiu sua presença em modalidades como Fórmula 1, boxe e golfe. O futebol tornou-se a principal vitrine dessa transformação.

O objetivo do sportswashing é relativamente claro: apresentar ao mundo uma imagem de abertura e renovação. O problema é que essa narrativa convive com críticas persistentes sobre direitos humanos, participação política e liberdades civis. Enquanto novos estádios e grandes eventos ocupam as manchetes, o debate sobre essas questões não desaparece. Apenas passa a disputar espaço com outra narrativa.

Por isso, a influência de Cristiano Ronaldo vai muito além da publicidade tradicional. Cada entrevista, postagem ou aparição pública contribui para projetar uma determinada imagem do país. O jogador acaba funcionando como um dos rostos mais visíveis de uma Arábia Saudita que deseja ser associada ao turismo, ao entretenimento e aos grandes investimentos.

Mas essa dinâmica do sportswashing não se limita ao Oriente Médio. Antes da chegada de Lionel Messi, a MLS já havia sido transformada por David Beckham. Sua passagem pelos Estados Unidos ajudou a internacionalizar a liga e abriu caminho para a criação do Inter Miami. Anos depois, ao tornar-se embaixador da Copa do Mundo do Catar, Beckham mostrou como atletas podem ocupar um espaço que mistura esporte, negócios e diplomacia informal.

A chegada de Messi a Miami aprofundou esse processo. Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, os Estados Unidos ganharam, no argentino, um poderoso instrumento de visibilidade para o futebol local. Assim como Ronaldo ajudou a colocar a liga saudita no centro das atenções, Messi ampliou o alcance internacional da MLS.

Em todos esses casos, o prestígio dos atletas produz efeitos que vão muito além do campo. Eles atraem investimentos, ampliam audiências, despertam o interesse de patrocinadores e ajudam a legitimar mercados esportivos emergentes. O futebol transforma-se, ao mesmo tempo, em negócio, entretenimento e ferramenta de influência.

No fim, a discussão não é se Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi fortaleceram a imagem dos projetos dos quais passaram a fazer parte. É difícil negar que fortaleceram. A questão mais interessante do sportswashing é outra: até onde vai o poder de uma celebridade esportiva na construção da imagem de um país? A geopolítica do futebol começa justamente quando o debate deixa de ser sobre quem venceu a partida e passa a envolver quem consegue transformar prestígio esportivo em influência internacional.

Rafael Pons Reis é doutor em Sociologia Política pela UFSC e professor do Bacharelado em Relações Internacionais da Uninter.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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