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Quando Emmanuel Macron entrou em campo para convencer Kylian Mbappé a permanecer no Paris Saint-Germain, ficou evidente que o futebol havia deixado de ser apenas um assunto esportivo. O presidente da França tratava a permanência de um jogador como tema de interesse nacional. O detalhe torna-se ainda mais revelador quando se lembra de que o PSG é controlado pelo fundo soberano do Catar. Em torno de um contrato milionário cruzavam-se interesses esportivos, econômicos e políticos.
Foi nesse ambiente que a transferência de Cristiano Ronaldo para o Al-Nassr, em 2023, ganhou um significado que ultrapassava o mercado da bola. Sua chegada representou um marco na estratégia saudita de utilizar o esporte como instrumento de projeção internacional. Depois dele vieram Neymar, Benzema e outros nomes de peso. Nenhum, porém, carregava o mesmo impacto simbólico.
Ronaldo não levou apenas gols e audiência para a liga saudita. Levou credibilidade. Sua presença ajudou a transformar um campeonato periférico em tema de debate global. De certa forma, fez com o futebol saudita o que grandes marcas tentam fazer ao contratar embaixadores: emprestou prestígio a um projeto que buscava reconhecimento internacional.
É nesse contexto que surge o debate sobre o chamado sportswashing. O termo costuma ser usado para descrever situações em que governos investem pesadamente no esporte para melhorar sua imagem externa. Não se trata apenas de sediar eventos ou contratar celebridades. Trata-se de associar um país a ideias de modernização, dinamismo econômico e relevância global.
O prestígio dos atletas produz efeitos que vão muito além do campo. Eles atraem investimentos, ampliam audiências, despertam o interesse de patrocinadores e ajudam a legitimar mercados esportivos emergentes
A Arábia Saudita talvez seja hoje o exemplo mais visível desse movimento de sportswashing. A confirmação do país como sede da Copa do Mundo de 2034 consolidou um projeto que já vinha sendo construído havia alguns anos. Sob o comando do Fundo de Investimento Público (PIF), o reino assumiu o controle de seus principais clubes, comprou o Newcastle United e expandiu sua presença em modalidades como Fórmula 1, boxe e golfe. O futebol tornou-se a principal vitrine dessa transformação.
O objetivo do sportswashing é relativamente claro: apresentar ao mundo uma imagem de abertura e renovação. O problema é que essa narrativa convive com críticas persistentes sobre direitos humanos, participação política e liberdades civis. Enquanto novos estádios e grandes eventos ocupam as manchetes, o debate sobre essas questões não desaparece. Apenas passa a disputar espaço com outra narrativa.
Por isso, a influência de Cristiano Ronaldo vai muito além da publicidade tradicional. Cada entrevista, postagem ou aparição pública contribui para projetar uma determinada imagem do país. O jogador acaba funcionando como um dos rostos mais visíveis de uma Arábia Saudita que deseja ser associada ao turismo, ao entretenimento e aos grandes investimentos.
Mas essa dinâmica do sportswashing não se limita ao Oriente Médio. Antes da chegada de Lionel Messi, a MLS já havia sido transformada por David Beckham. Sua passagem pelos Estados Unidos ajudou a internacionalizar a liga e abriu caminho para a criação do Inter Miami. Anos depois, ao tornar-se embaixador da Copa do Mundo do Catar, Beckham mostrou como atletas podem ocupar um espaço que mistura esporte, negócios e diplomacia informal.
A chegada de Messi a Miami aprofundou esse processo. Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, os Estados Unidos ganharam, no argentino, um poderoso instrumento de visibilidade para o futebol local. Assim como Ronaldo ajudou a colocar a liga saudita no centro das atenções, Messi ampliou o alcance internacional da MLS.
Em todos esses casos, o prestígio dos atletas produz efeitos que vão muito além do campo. Eles atraem investimentos, ampliam audiências, despertam o interesse de patrocinadores e ajudam a legitimar mercados esportivos emergentes. O futebol transforma-se, ao mesmo tempo, em negócio, entretenimento e ferramenta de influência.
No fim, a discussão não é se Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi fortaleceram a imagem dos projetos dos quais passaram a fazer parte. É difícil negar que fortaleceram. A questão mais interessante do sportswashing é outra: até onde vai o poder de uma celebridade esportiva na construção da imagem de um país? A geopolítica do futebol começa justamente quando o debate deixa de ser sobre quem venceu a partida e passa a envolver quem consegue transformar prestígio esportivo em influência internacional.
Rafael Pons Reis é doutor em Sociologia Política pela UFSC e professor do Bacharelado em Relações Internacionais da Uninter.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



