
Ouça este conteúdo
Alerta: contém spoiler!
O último filme do aclamado diretor Christopher Nolan, The Odyssey (2026), tem gerado intensos debates nas redes sociais. Os meios conservadores têm acusado o longa de ser progressista demais, tendo pagado pedágio à agenda woke (“despertar” para pautas inclusivas); os progressistas têm elogiado a representatividade racial e a inclusão de gênero na trama; já os especialistas têm lamentado a infidelidade ou até mesmo a subversão da obra original. Mas, afinal, o que é o filme?
Em tempos de polarização política, é triste reconhecer que uma obra seja avaliada mais por sua afinidade ideológica com pautas de direita ou de esquerda do que pela verdade do que está transmitindo. Cada grupo interpreta um pedaço da obra como representativo do todo, fiando-se em questões laterais, mas esquecendo-se de enxergar a mensagem central.
Aqui, nosso objetivo não é fazer uma análise técnica ou estética do filme, mas abordar os seus principais aspectos morais e filosóficos. Há muitas críticas que podem ser feitas quanto às escolhas cinematográficas do diretor: seja na escolha da fotografia da filmagem (filtro da imagem), das paisagens mais nórdicas do que mediterrâneas, dos atores e personagens, da representação dos seres mitológicos, da ausência dos deuses etc.
Tudo isso pode indicar que a obra não foi executada com a perfeição que merecia um clássico dessa grandeza, mas não que ela seja inútil e desprezável. O propósito deste ensaio é justamente investigar em quais pontos Nolan acertou e se estes são os principais a serem considerados em uma crítica de cinema.
Toda obra de arte exige interpretação. Após criada, a obra adquire autonomia, tornando-se um objeto além da vontade do artista e podendo, inclusive, adquirir sentido contrário à sua intenção. Para fins de avaliação, o mais importante nela não é a emoção que sentimos, mas a presença das três categorias transcendentais: beleza, bondade e verdade. Por isso, exigir que Nolan fosse fiel ao poema homérico não parece justo.
A sua obra deve ser julgada pelo que ela é, não pelo que gostaríamos que ela fosse. A frustração é compreensível em alguns pontos, mas não pode afetar a análise objetiva do conjunto da obra. Talvez um de seus méritos tenha sido exatamente contemporaneizá-la, trazendo-a para nosso contexto atual de pós-modernidade. Não há dúvidas de que seu filme foi produzido para um público específico: o homem moderno, na versão do século XXI. Antes dele, James Joyce já havia adaptado Ulisses ao mundo moderno.
Essa releitura, ultrajante para alguns, revela menos a liberdade criativa do artista do que a necessidade de adaptar cada obra para o seu tempo. Tomemos dois exemplos recentes: o primeiro Hobbit da trilogia e um conto nórdico. Em Hobbit: uma jornada inesperada (2012), Peter Jackson preservou grande parte da história original, fazendo poucas adaptações no roteiro.
Em resumo, podemos concluir que A Odisseia é um bom filme, que vale a pena ser assistido, apesar de escolhas técnicas e políticas questionáveis. Odisseu, nosso herói imperfeito, apresenta as sete virtudes fundamentais
Para os fãs de J. R. R. Tolkien, isso foi um alívio! Já O Homem do Norte (2022) contou a lenda de um príncipe nórdico que foi expulso do reino por traição de sua mãe com seu tio contra seu pai, o rei. O viking retorna de forma brutal, com sede de vingança, matando tudo e destruindo todos. Esse mito escandinavo, embora respeite o original Amleth, não possui profundidade moral nem psicológica. É apenas uma figura folclórica e violenta, que pouco ensina à audiência.
A proposta de Nolan foi completamente diferente: ele não quis simplesmente recontar o poema épico para adaptar aos cinemas, mas aproveitar a narrativa legada por Homero para criar um enredo que dissesse algo para nós. É partindo desse pressuposto que podemos julgar em que medida o diretor britânico acertou na “atualização” que fez, e não descartar de pronto a obra por não ser fiel ao original. Note-se que essa epopeia sintetiza obras anteriores do diretor: a jornada do herói de Batman; a volta para casa em Interestelar; o cenário de guerra em Dunkirk; e a culpa bélica de Oppenheimer. Então, a primeira pergunta que surge é: por que modificar uma história clássica?
Ora, já se passaram 3 mil anos desde que esse poema começou a ser contado. Embora ele traga dilemas morais que são universais, nem tudo naquele universo tem o mesmo sentido hoje. As questões que nos afligem hoje não são exatamente iguais às daquele tempo, ainda que haja alguma identidade. Os deuses pagãos e os monstros aquáticos e terrestres, por exemplo, não passam de mitos ultrapassados para a ciência moderna.
Então, se a história fosse contada do mesmo modo que no poema, em tom épico e heroico, será que teria o mesmo impacto no telespectador do século XXI? Será que ele veria aquela fantasia como uma jornada sobre si mesmo ou só como algo distante para fins de mero entretenimento? Em última palavra, será que o Odisseu de Nolan tem menos a nos dizer, no tempo presente, do que o Odisseu de Homero?
Não se trata de comparar os artistas, mas de entender o contexto em que cada arte é criada. Se uma obra perde o contato com a realidade atual, ela também perde a capacidade de influenciar a mentalidade de quem a está apreciando. O que é preservado no tempo são seus elementos universais, não qualquer aspecto acidental e secundário. Se os cenários e os personagens multiculturais destoam do mundo grego, eles servem para nos lembrar que a jornada vivida não é regional ou local, restrita a um só povo, mas diz respeito à humanidade inteira.
N’A Consolação da Filosofia, o filósofo romano Boécio argumenta que as provações do herói grego servem para ilustrar como a virtude humana resiste às adversidades e às tentações do mundo. O retorno a Ítaca representa a jornada da alma que busca voltar à sua verdadeira pátria espiritual.
Bento XVI, quando era o então Cardeal Joseph Ratzinger, dizia que vivemos em uma era neopagã (ou pós-cristã), cujos valores cristãos, ainda presentes de forma difusa na sociedade, estão se perdendo e sendo substituídos por outros, mais próximos dos tempos pré-cristãos. Paradoxalmente, o filme de Nolan está mais próximo do cristianismo do que do paganismo grego, pois prefere enfatizar a crise de consciência de uma alma atormentada pelos seus crimes (pecados?) passados em vez da glória alcançada pelo heroísmo triunfante.
Nesse sentido, o esvaziamento do simbolismo politeísta, com a redução das deusas Calipso a uma espécie de psicoterapeuta e Atena a uma miragem psicológica, longe de rebaixar a obra, produz uma perspectiva muito mais próxima da nossa cultura cristã, aproximando o público da narrativa. Por outro lado, acaba retirando o traço de providência divina na desventura. Como já é típico na sua filmografia (basta citar Interestelar), o diretor não se compromete em afirmar um deísmo, preferindo um humanismo naturalista, porém sem perder de vista elementos que apontem à transcendentalidade.
G. K. Chesterton dizia que há dois modos de voltar para casa: um é nunca ter saído dela, outro é dar a volta ao mundo e retornar a ela. Odisseu escolheu a última opção: precisou sofrer muito até conseguir encontrar a própria identidade e partir para restaurar a ordem familiar e social perdida
Sem dúvida, a personalidade do personagem principal é o tema mais controvertido: em Homero, Odisseu é astuto, orgulhoso e autoconfiante; em Nolan, o protagonista é melancólico, empático e hesitante. Isso seria, por si só, demonstração de fraqueza, a prova de um herói frágil? Penso que não. Basta olhar a obra sob a perspectiva psicológica a que se propõe: as penas pela injustiça cometida – causando os traumas da guerra – e o desejo de voltar ao seu lar.
Essas são as duas peças-chave para a correta compreensão da obra; sem uma delas, a análise fica incompleta. Jonathan Pageau observa que o filme é uma sucessão de truques (“pegadinhas”): de Antínoo com Sinon, de Odisseu com Simon e os troianos, de Helena com Agamenon, de Penélope com os pretendentes... e, por fim, do diretor com a plateia.
Primeiro, o roteiro destaca que a violação da “lei de Zeus” (Xênia) pela entrega do Cavalo de Tróia teria desencadeado um período de barbárie, em que os povos passaram a desrespeitar as regras anteriormente estabelecidas. Essa erosão da ordem vigente se revela não apenas na mancha de medo e violência deixada pelos “povos do mar” – que Nolan sugere serem os próprios soldados regressando da guerra –, mas também no abuso da hospitalidade pelos estrangeiros em Ítaca, que se hospedam e banqueteiam no palácio real e, ainda por cima, cortejam a rainha de um rei ausente.
Em perspectiva cristã, a culpa de Odisseu pode ser interpretada como o sofrimento pelo pecado, ao ter ferido a natureza humana por fazer algo moralmente errado, como trapacear para vencer uma guerra, matando inocentes. Esse remorso não precisa ser compreendido como um estresse pós-traumático, mas como a reflexão profunda acerca do sentido da vida por alguém que viu o terror da guerra, indo ao mais fundo do poço da maldade humana.
Vale lembrar que a última obra de Nolan havia sido Oppenheimer (2023), a história de um físico que mudou o rumo da humanidade ao criar a bomba atômica. Esta, que foi construída para impedir o triunfo do mal nazista, acaba por se tornar a arma de um genocídio de civis inocentes. Ou seja, quem venceu a guerra, na verdade, também está sendo responsável pela destruição da ordem social e, quiçá, da civilização inteira (impossível não fazer um paralelo com a Guerra do Irã em curso).
É essa crise de consciência pelas consequências dos próprios atos que será abordada em maior escala e com mais profundidade n’A Odisseia. O sofrimento na viagem de volta decorre dos próprios erros, mas não por desafiar o ciclope Polifemo e atrair a ira dos deuses – como no poema original –, e sim por destruir a cidade de Tróia.
Essa narrativa poderia parecer, a um primeiro momento, pacifista, ao defender a paz em vez da guerra. Não discordo de que essa possa ser a intenção do diretor, mas importa recordar que Odisseu, quando retorna disfarçado de mendigo, deseja exterminar os pretendentes traidores, e não agradecer pelo tempo em que passaram esbanjando da hospitalidade de seu povo.
Essa medida não é injusta, mas representa um exato exemplo da guerra justa: a reação proporcional a uma ameaça inimiga ilegítima. Mais do que isso, a regra de hospitalidade se transforma em mais do que a regra de ouro: a divindade não só pode estar disfarçada em alguém, como está presente em cada pessoa – uma ideia essencialmente cristã. Já se a Guerra de Tróia ocorreu por motivos injustos (comerciais), deixemos aos historiadores discutir...
VEJA TAMBÉM:
O fato é que o Odisseu de Nolan transita muito bem entre a vergonha de voltar para casa e a confiança de que precisa encarar o seu destino. É a típica jornada do herói! E não é só ele que é um herói traumatizado na atualidade, mas que encontra um caminho de volta, a fim de cumprir sua missão: os novos Homem-Aranha e Batman, por exemplo, também o são. Isso não implica, necessariamente, em demérito da obra; apenas revela que o drama psicológico é uma pauta central para a sociedade contemporânea, materialista e secularizada, a qual vive um “mal-estar” civilizacional, para usar uma expressão freudiana.
O homem moderno vive uma crise de identidade, como já vêm alertando vários pensadores, tais quais Paul Hazard, Rémi Brague, Walter Laqueur, dentre outros. A busca pela própria identidade de Odisseu simboliza a busca da própria civilização ocidental atual. Afinal, quem somos? E como podemos nos reconciliar com nosso passado?
De fato, a jornada espiritual para reencontrar a própria identidade não é fácil. Essa travessia interior é metaforicamente aplicada nas aventuras vividas pelo herói. Entre cada um dos desafios enfrentados, é possível extrair uma lição: o mar representa as incertezas da vida, cujas ondas ora nos levam para um lado, ora para outro – se não tivermos certeza para onde vamos, ficaremos sempre à deriva.
O ciclope Polifemo indica a necessidade de inteligência para vencer oponentes mais fortes do que nós; Circe representa o poder da sedução pelo desejo, o qual, se incontrolável, levará ao aprisionamento da alma; a ida ao Hades simboliza a viagem às profundezas da alma e do nosso passado; as sereias representam a tentação irresistível, com a qual não podemos sequer dialogar.
Cila e Caríbdis representam a escolha entre opções difíceis, resultando em um resultado trágico qualquer que seja a decisão – não há resposta ótima; o gado do deus Sol trata da necessidade de fidelidade à palavra dada; Calipso representa a fuga da realidade pelo esquecimento mediante a promessa de conforto, em uma vida eternamente prazerosa; etc. É verdade que nada disso foi inventado por Nolan, mas se encontra, sim, bem apresentado na telona. Ele não precisa imitar Homero para que sua obra tenha valor. Só em trazer esses temas para cartaz já é digno de louvor!
Em resumo, podemos concluir que A Odisseia é um bom filme, que vale a pena ser assistido, apesar de escolhas técnicas e políticas questionáveis. Odisseu, nosso herói imperfeito, apresenta as sete virtudes fundamentais: temperança no gozo dos prazeres dionisíacos, ao saber manter-se casto e fiel, além de abster-se da comida e da carne quando necessário; fortaleza no enfrentamento das dificuldades que surgem, sem desanimar ante os fracassos, mas mantendo a perseverança no objetivo final de reencontrar sua esposa e seu filho.
Justiça na distribuição das funções e dos bens entre os seus – inclusive permitindo que os guerreiros sejam punidos por terem violado o acordo de cavalheiros –, assim como na restauração da ordem quebrada (embora ele tenha concorrido, no filme, para essa violação); prudência na melhor solução dos desafios que aparecem, como no uso do disfarce de mendigo para surpreender os pretendentes e testar Penélope; fé na justiça divina (na cena em que o barco está afundando, ele pede que seus homens peçam misericórdia pelo que fizeram).
Esperança de retornar para Ítaca, apesar das promessas de imortalidade; e caridade expressa no amor pela sua família, seus súditos e companheiros, inclusive sobressaindo a sua misericórdia ao poupar a vida dos pretendentes que se renderam – o que não acontece no original. Portanto, não parece absurdo afirmar que A Odisseia não só foi produzida para o homem moderno, mas também para a nossa tradição cultural cristã, esvaziando os elementos excessivamente pagãos da obra, hoje incompreensíveis para nós.
G. K. Chesterton dizia que há dois modos de voltar para casa: um é nunca ter saído dela, outro é dar a volta ao mundo e retornar a ela. Odisseu escolheu a última opção: precisou sofrer muito até conseguir encontrar a própria identidade e partir para restaurar a ordem familiar e social perdida. Enfim, o Odisseu é o arquétipo do homem ocidental do século XXI. Se isto ainda é pouco ou ruim, é o que temos, por ora.
Então, voltamos à pergunta inicial: quem está mais próximo de nós hoje, o Odisseu engenhoso, determinado e sanguinário de Homero ou o Odisseu honesto, reflexivo e misericordioso de Nolan? Cabe ao leitor, diante da sua história pessoal, responder. Mas não podemos ignorar a situação desoladora em que muitos se encontram hoje... Não à toa, o (anti-)herói moderno está mais próximo de Dostoiévski do que de Homero. O longa parece apontar um caminho de restauração dessa tradição, trazendo uma mensagem de esperança para os tempos atuais.
Não custa recordar que, no famoso Discurso aos Jovens sobre a Utilidade da Literatura Pagã, São Basílio de Cesareia, já no século IV, defendeu que os jovens cristãos lessem os clássicos da Antiguidade greco-romana, com discernimento seletivo, tratando esses textos profanos como uma preparação para a verdadeira sabedoria cristã.
Tal qual naquela época, agora, a mente jovem da geração Z, criada sob o influxo da inteligência artificial e das pautas identitárias, ainda não tem maturidade suficiente para compreender de imediato os simbolismos e mistérios profundos das Sagradas Escrituras. Se o filme apenas incentivar as pessoas a lerem o original, já vai ter valido a pena, pois, como explica Ítalo Calvino, os clássicos da literatura universal sempre têm algo a nos ensinar para além do ruído presente. Afinal, sempre é preciso voltar a eles para entendermos melhor a nós mesmos e encontrarmos the way back home.
Daniel Damasceno, mestre e bacharel em Direito, pesquisador do Grupo de Estudos em Filosofia do Direito – Díkaion (CNPq), é autor do livro "Ética das virtudes e decisão judicial: a tradição clássica do juiz prudente" e assessor de ministro e analista judiciário do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



