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Já diziam os antigos: “Metus malus consiliarius est”, o medo é um mal conselheiro. Neste 4 de outubro, o outrora envergonhado e contido “voto útil” mudou de natureza e se agigantou numa avalanche eleitoral que entregou nas mãos de Flávio Bolsonaro, virtual futuro presidente, uma massa legislativa e de governadores como nenhum outro antecessor no cargo – nem mesmo Lula ou Jair – já obtivera desde 1989. O fato, em si, é embasbacante.
E embasbaca ainda mais a razão, que todos sabemos, para tamanho triunfo: o medo, puro e simples, o medo que abreviou argumentos e tornou supérfluos debates, o medo espalhado pelas campanhas, mas também nascido espontaneamente entre os 90% dos brasileiros capturados pela polarização e que ojerizam incondicionalmente o lado adversário, o medo que ressecou a disputa de ideias numa bruta pesagem entre dois blocos compactos e impermeáveis, um pesando 56.104.503 almas e o outro, 53.879.538 outras tantas.
O medo serve de várias formas à sobrevivência, é preciso reconhecer, mas é péssimo guia para ler o cenário para além da ameaça imediata. O medo nos seduz ao tudo ou nada, sem conceder um minuto para ponderarmos no que o “tudo” ou “nada”, ao qual optamos hoje como única saída, significará amanhã e depois de amanhã.
A nova direita nasceu em 2014 com uma ideia-força simplíssima e fácil de transmitir: é só tirar o PT e tudo ficará bem. Qualquer carro de som nas mega-manifestações de 2015 e 2016 repetia incansavelmente esse mantra, horas a fio sob o sol. Mesmo questões de séculos como a corrupção e o subdesenvolvimento cabiam nesse mantra.
Doze anos depois, como se nada houvesse acontecido nesse período, o mesmo mantra é a única proposta do candidato em primeiro lugar nas eleições, mas aquele lema traz hoje um histórico e uma diferença para o bom observador: agora sabemos interpretar o que significa, concretamente, o “tudo ficará bem”.
Desde 2018, a vitória sobre o PT implicou a aquisição política do enorme bloco antipetista – que detém uns 80% do PIB do país – para o empreendimento familiar de um pai visionário e seus quatro leais filhos. Enquanto a esquerda passou esses anos lançando acusações desconexas sobre fascismo e “crise da democracia”, o empreendimento familiar prosperou, superou todas as suas crises, selecionou a dedo uma larga base de auxiliares, lançou fundos alicerces no tecido social em todo o país e agora principia sua fase de mais ampla expansão e consolidação.
Aos que ainda lembram que, depois de amanhã, vem o depois de amanhã, fica registrado meu inútil aviso: você não terá no pleito presidencial de 2030 nem Tarcísio nem Nikolas – e provavelmente nem Michelle
Contudo, foi outro o significado do “tudo ficará bem” para, talvez, uma boa parte dos que votaram no 22 no último domingo. Fosse feita uma pesquisa entre os 62,65% de eleitores de Tarcísio sobre quem gostariam de votar para presidente em 2030, provavelmente o nome preferido não seria nenhum Bolsonaro – e o mesmo poderia ser perguntado aos eleitores de Nikolas em Minas ou de Michelle no DF.
Concedo que talvez uma maioria desses grupos ainda sonhasse com o patriarca de volta à presidência, porém não com algum dos filhos para 2030. Considerando que a volta presidencial de Jair parece fora das possibilidades, por múltiplas razões pessoais, familiares e políticas, eis que topamos com uma contradição entre as aspirações de uma boa parte dos votantes do 22, uma aspiração de renovação, e a lógica intrínseca do empreendimento familiar que recebeu esses votos – uma contradição que o imediatismo instintivo do medo mal concede meio segundo para o eleitor contemplar.
A única proposta anunciada de maneira clara e enfática por Flávio é a libertação de seu pai, o que, sem dúvida, será bondosamente concedido ou consentido pelo STF até o primeiro semestre do ano que vem, sob o novo governo. O passo seguinte, ao qual poucos parecem ter se atentado, é a volta e reabilitação política de seu irmão Eduardo – um irmão não deixa outro para trás, é assim num negócio em família.
Quem acompanha o clã Bolsonaro há bons anos sabe que Eduardo era já apontado como presidenciável antes mesmo da candidatura do Jair ter se sedimentado em 2018. Flávio, em 2026, foi a alternativa viável para a volta ao poder, mas Eduardo sempre fora o preparado, o predestinado, o sucessor, o que cumpre a jornada do herói.
Se alguém duvida do peso presente e futuro de Eduardo, que se recorde que foi ele, cassado, condenado e desde o exterior, o principal responsável por frustrar os ingentes esforços de Kassab e nomes gigantes do centrão e do empresariado para emplacar Tarcísio como o nome presidencial deste ano. Com Flávio presidente e Trump ainda no poder, Eduardo será um dos primeiros cavaleiros desta República.
Para que tais objetivos prioritários do empreendimento familiar se realizem, é indispensável que sobre nós venha, o quanto antes, a “pacificação” na guerra entre Congresso, bolsonarismo e STF. Dois dias após o triunfo do primeiro turno, Valdemar da Costa Neto veio a público declarar, a respeito da crise do Judiciário, que “não interessa pôr fogo no país” – frase que ecoa, quase ipsis litteris, as declarações do senador Flávio Bolsonaro, em 2019, ao justificar por que não apoiou a CPI da Lava-toga e o impeachment de ministros. “A quem interessa a instabilidade política” de uma ofensiva contra a cúpula do Judiciário?, questionou o senador no extinto Terça Livre.
Só mesmo interessaria – eu o respondo – a quem busca ruptura com a cleptocracia imperante e novos começos e não a continuidade de um empreendimento familiar de sucesso que agora, superando anos de revés, eleva-se ao seu mais auspicioso momento.
Aliás, ainda sobre a vindoura e tão desejada “pacificação”, ela permaneceria insegura e inconclusa enquanto Daniel Vorcaro e seu pai estiverem presos, comendo marmita fria, dormindo em colchão fino e diariamente pressionados a delatar as mais altas autoridades da República nos Três Poderes.
Aos milhões de cidadãos capturados pelo “é só tirar o PT e tudo ficará bem”, todos esses apontamentos soam como detalhes ou quiçá questões secundárias que o futuro, liberto do fantasma petista, magicamente sanará. Aos que ainda lembram que, depois de amanhã, vem o depois de amanhã, fica registrado meu inútil aviso: você não terá no pleito presidencial de 2030 nem Tarcísio nem Nikolas – e provavelmente nem Michelle.
A esquerda, que se sentirá ferida no mais sagrado com a reabilitação pública de Jair Bolsonaro (somada ao probabilíssimo desastre nas eleições de 2028), se rearticulará em frente única com o centro e lançará um único nome forte em 2030 – como já está fazendo neste ano –, provavelmente Flávio Dino, Raquel Lyra ou Camilo Santana. Ao fim do primeiro turno, será novamente o candidato da esquerda e o candidato portando sobrenome Bolsonaro isolados na liderança nas pesquisas.
Antevê-lo desde já não é adivinhação ou “chute”, mas lógica, consequências, interesses de um país que entrou em regime bipartidário entre a esquerda em modo sobrevivência, de um lado, e o empreendimento familiar de sucesso fundado por Jair Messias Bolsonaro no Rio de Janeiro em 1989, do outro.
Como palavra final, esta não é uma reflexão contra Flávio ou contra o voto útil – as razões objetivas para preferir um candidato a outro estão dadas e sequer foram meu tema. Não comparei aqui os candidatos nem orientei voto. O que digo é: nada contra o voto útil, tudo contra o voto inconsciente e por pensamento mágico.
Guilherme Hobbs é escritor, analista de dados e programador.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



